Imagem de capa do perfil de Edgard Carone
Foto de perfil de Edgard Carone

Edgard Carone

Nascimento: 1923 São Paulo, SP
Ver projetos (5)
Historiador paulista (1923-2003) que narrou a República em volumes, formou um acervo raro sobre a esquerda e lecionou na USP.

Entre as décadas de 1960 e 1990, Edgard Carone publicou uma série de mais de dez volumes sobre a República brasileira, percorrendo de 1889 a 1964 com documentos, jornais, discursos e análise própria. O projeto nasceu de uma pergunta concreta — como o golpe de 1964 foi possível — e de uma rotina de pesquisa sustentada por uma biblioteca pessoal com mais de 20 mil livros. Antes de chegar à universidade como professor titular, Carone passou cerca de doze anos como produtor de café no interior paulista e frequentou, desde menino, os sebos do centro de São Paulo.

Quem foi Edgard Carone

Nascido em São Paulo, em 14 de setembro de 1923, Edgard Carone era filho dos imigrantes libaneses Sharkir Jorge Carone e Sarah Hachen. O pai começou como mascate e chegou a proprietário de uma casa bancária; em casa, os filhos conviviam com livros e com política. Carone estudou no Liceu Nacional Rio Branco e, desde cedo, comprava obras de literatura social e história das civilizações nos sebos da cidade. A leitura marxista chegou pelas mãos do irmão Maxim Tolstói, formado na primeira turma de História e Geografia da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e militante comunista.

Em 1941, quando Maxim foi preso durante o Estado Novo, Carone procurou ajuda de militantes socialistas mais velhos, entre eles Paulo Emílio Salles Gomes, Azis Simão e Antonio Candido. A amizade atravessaria décadas. Em 1944, ano em que ingressou no curso de História e Geografia da FFCL da USP, filiou-se ao Partido Socialista. Ao PCB, nunca se filiou. Dizia que queria manter independência intelectual e não servir a um partido que lhe diria o que escrever — posição que Lincoln Secco resume na expressão "companheiro de viagem".

A formação interrompida e os anos na Fazenda Bela Aliança

Carone interrompeu a graduação em 1946, reprovado em Tupi e pouco interessado nas disciplinas distantes da política. Casou-se com Flávia de Barros Carone, professora de Letras da USP que revisava e criticava seus originais, e mudou-se para a Fazenda Bela Aliança, em Bofete, no oeste de São Paulo. Ali passou cerca de doze anos dividindo o trabalho rural com leitura contínua e textos para o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo.

A fazenda acabou tendo papel na história intelectual do país. Antonio Candido passou temporadas no local e fez ali observações de campo que alimentaram Os Parceiros do Rio Bonito. Em 1963, foi Candido quem insistiu para que o amigo colocasse as pesquisas no papel. O resultado saiu em 1965: Revoluções do Brasil Contemporâneo (1922-1938). O livro marcou a virada de Carone, que retomou a universidade, colou grau em 1969 e defendeu, em 1971, a tese União e Estado na Vida Política da Primeira República, publicada como República Velha II — Evolução Política.

Da FGV à USP: a carreira como professor

A docência começou em 1970, na Fundação Getulio Vargas e na Universidade Estadual Paulista (Unesp). A livre-docência veio em 1974, com Oligarquias e Classes Sociais na Segunda República. Em 1976, aprovado em concurso público, tornou-se professor da USP, onde chegou a titular de História do Brasil e se aposentou em 1993.

Secco observa que Carone nunca se encaixou no modelo de líder de pesquisa: trabalhava com a própria biblioteca, custeava viagens e preferia a narrativa seca ao ensaísmo teórico. "A teoria estava entranhada na narrativa", resumiu o professor ao Jornal da USP. Esse estilo rendeu volumes longos, apoiados em documentação reunida em arquivos de todo o país.

A História da República em volumes

O projeto central de Carone foi uma história da República brasileira organizada em mais de dez volumes, de 1889 a 1964. A série publicada pela Difel começa com A Primeira República: texto e contexto (1969) e segue com República Velha: instituições e classes sociais (1970), República Velha: evolução política (1971), A Segunda República (1973), República Nova (1974), O Tenentismo (1975), A Terceira República (1976), O Estado Novo (1976), A Quarta República (1980) e A República Liberal (1985), em dois volumes.

Em paralelo, investigou as forças que atravessavam essa história. Publicou a trilogia O Movimento Operário no Brasil, que cobre de 1877 a 1984, e os três volumes de O PCB (1982), da fundação do partido à década de 1980. Nesses livros, reuniu panfletos, atas, jornais operários e entrevistas — material que historiadores usaram por décadas. O interesse por impressos rendeu ainda O Marxismo no Brasil: das origens a 1964 (1986) e Da Esquerda à Direita (1991), estudos sobre a circulação editorial das ideias socialistas no país.

Alguns dos livros mais lembrados:

  • Revoluções do Brasil Contemporâneo (1922-1938) — 1965, primeira obra e porta de entrada da série republicana;
  • República Velha: instituições e classes sociais — 1970, primeiro volume do estudo documental sobre a Primeira República;
  • O Movimento Operário no Brasil — trilogia que percorre 1877 a 1984;
  • O PCB — três volumes publicados em 1982, de 1922 a 1982;
  • Memórias da Fazenda Bela Aliança — 1991, relato dos anos em Bofete.

A biblioteca que virou acervo público

Carone comprava livros em quantidade: mantinha um apartamento só para a biblioteca e, muitas vezes, adquiria mais de um exemplar da mesma obra. A coleção ultrapassou 20 mil títulos, entre eles raridades como a primeira edição de Os Sertões, de Euclides da Cunha, com correções do autor, e a primeira edição de Miséria da Filosofia, de Karl Marx. Para Antonio Candido, tratava-se "talvez do mais rico acervo particular do Brasil sobre os movimentos políticos de esquerda".

Depois da morte de Carone, em 31 de janeiro de 2003, o acervo foi doado ao Museu Republicano Convenção de Itu, ligado ao Museu Paulista da USP. O conjunto inclui jornais de várias correntes ideológicas, originais de publicação, anotações de pesquisa e 29 entrevistas com militantes e políticos gravadas nas décadas de 1970 e 1980, entre eles Luís Carlos Prestes, João Amazonas e Azis Simão. Em 2011, o museu digitalizou as fitas cassete e abriu o material para consulta.

Como a obra de Edgard Carone é lida hoje

A partir dos anos 1980, a produção de Carone perdeu espaço na academia diante de novas correntes historiográficas, mais voltadas ao cotidiano e à subjetividade dos trabalhadores. O próprio Secco reconhece a mudança de gosto sem descartar a obra: para ele, faltou a Carone um grupo de pesquisa em torno de si, mas não documentação nem método. A partir dos anos 2010, novos estudos reaproximaram a obra da universidade, como a dissertação de Fabiana Marchetti, publicada como Edgard Carone e a Ideia de Revolução no Brasil (1964-1985), e o levantamento bibliográfico de Dainis Karepovs.

Para quem quer começar, três entradas funcionam bem: Revoluções do Brasil Contemporâneo, pela síntese curta; República Velha: instituições e classes sociais, pelo método documental; e O PCB, pela história da esquerda organizada. Quem se interessa pelo círculo de amizades que formou Carone encontra contexto na trajetória de Antonio Candido, seu amigo e interlocutor por quase seis décadas.

Em setembro de 2023, o centenário de nascimento foi lembrado no seminário "A República em Capítulos: História e Historiografia", na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e no Museu Republicano de Itu — sinal de que a pergunta que moveu Carone, sobre as permanências da República, continua em aberto.

Experiências da comunidade

Avaliações sobre Edgard Carone

Veja as opiniões dos leitores e compartilhe sua experiência.

0 avaliações positivas e 0 negativas com comentário.

Relatos publicados

Opiniões dos leitores sobre suas experiências. As avaliações não comprovam fatos nem representam a posição do site.

Ainda não há avaliações com comentário. Sua experiência pode ajudar o próximo leitor.

Para contestar um relato ou solicitar a remoção dos seus dados, entre em contato e informe a página e o comentário.

Compartilhe sua avaliação

Escreva de 60 a 200 palavras sobre esta pessoa ou projeto. Não inclua anúncios, links, insultos ou dados pessoais.

Sua experiência

0 de 200 palavras · mínimo de 60

Carregando verificação humana...

Projetos de Edgard Carone

Alguns links podem gerar comissão para o Autoridades.org. Confira o preço e a disponibilidade na plataforma antes de comprar.