Em 1959, a Livraria Martins publicou os dois volumes de Formação da literatura brasileira. Antonio Candido não entregou a história geral da literatura no Brasil que José de Barros Martins tinha encomendado em 1945. Entregou um recorte: arcadismo e romantismo, de 1750 a 1880, lidos como os momentos em que escrever no país deixou de ser obra solta e passou a funcionar como sistema, com autores, livros e público presos a uma tradição. O subtítulo, Momentos decisivos, já anuncia o corte.
Quem busca o nome hoje raramente quer uma ficha de professor. Quer saber por que um sociólogo formado na USP se tornou a leitura pela qual a universidade brasileira passou a explicar Machado, Aluísio, o romantismo e o próprio ofício da crítica. A resposta não está numa lista de cargos. Está nesse livro, na tese sobre o caipira paulista e numa vida dividida entre redação de jornal, sala de aula e militância socialista.
Quem é Antonio Candido
Antonio Candido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918, quando a cidade ainda era a capital federal. O pai, Aristides Candido de Mello e Souza, era médico. A mãe chamava-se Clarisse Tolentino de Mello e Souza. Os livros e a crítica fixaram a forma curta, Antonio Candido, como nome público.
A infância não ficou no Rio. A família circulou entre Minas e o interior de São Paulo: Cássia, Poços de Caldas e São João da Boa Vista. Em 1937 ele se fixou na capital paulista. Em 1939 entrou ao mesmo tempo na Faculdade de Direito da USP e na Faculdade de Filosofia. Abandonou o Direito no quinto período e formou-se em Ciências Sociais em 1942.
Revista, jornal e a cadeira ao lado de Florestan
A crítica começou antes do diploma. De 1941 a 1944, a revista Clima reuniu um grupo jovem: além dele, Paulo Emílio Salles Gomes, Alfredo Mesquita, Décio de Almeida Prado e Gilda Rocha de Mello e Souza. Gilda, filha de um primo de Mário de Andrade, conviveu doze anos na mesma casa que o escritor e estudou a obra dele em O tupi e o alaúde. Casou-se com Candido, deu aulas de estética no Departamento de Filosofia da USP e morreu em 25 de dezembro de 2005. Tiveram três filhas: Ana Luísa, Laura de Mello e Souza e Marina de Mello e Souza. Laura e Marina tornaram-se professoras de História na USP.
Em 1942 Candido entrou na docência como assistente de Fernando de Azevedo, na cadeira de Sociologia II, colega de Florestan Fernandes. No ano seguinte passou a colaborar com a Folha da Manhã. Ali resenhou os primeiros livros de João Cabral de Melo Neto e de Clarice Lispector, e foi o primeiro crítico a escrever sobre Clarice. O começo, portanto, é de jornal: a leitura saía enquanto o livro ainda estava nas livrarias, não décadas depois, em nota de rodapé.
Em 1945 obteve a livre-docência com Introdução ao método crítico de Sílvio Romero. Em 1954 defendeu o doutorado em Ciências Sociais. A tese, publicada em 1964 pela José Olympio, é Os parceiros do Rio Bonito. Entre 1958 e 1960 ensinou literatura brasileira na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, hoje integrada à UNESP. Voltou à USP em 1961.
O que a Formação mudou na leitura do país
A hipótese do livro de 1959 separa texto importante de literatura constituída. Anchieta, Gregório de Matos e o padre Antônio Vieira escreveram obras que continuam a ser lidas. Para Candido, isso ainda não faz um sistema. O sistema aparece quando autores, obras e leitores se reconhecem numa continuidade, e a produção deixa de ser ocorrência isolada para virar atividade regular da sociedade. No Brasil, esse desenho começa a ficar visível em meados do século XVIII, com o arcadismo, e se completa no romantismo, até por volta de 1880.
A moldura histórica chamou mais atenção do que o autor dizia ser o centro do volume. Nas apresentações do próprio livro, o sistema é o enquadramento. O miolo é a leitura de cada obra e a relação de um texto com outro, preparada entre 1945 e 1957. Por isso Formação da literatura brasileira funciona ao mesmo tempo como história e como crítica, e por isso também gerou disputa. Afrânio Coutinho e Haroldo de Campos contestaram o recorte e o método. O livro não saiu de circulação por causa da contestação. Virou o texto com o qual a discordância tinha de se medir.
Em 1962, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Candido introduziu a Literatura Comparada. A disciplina de Teoria Literária passou a se chamar Teoria Literária e Literatura Comparada. Em 1974 tornou-se professor titular dessa cadeira. Aposentou-se em 1978 e seguiu na pós-graduação até 1992, ano da última orientação, a tese do crítico mexicano Jorge Ruedas de la Serna. Entre quem se formou nesse ambiente estão Roberto Schwarz, Davi Arrigucci Jr., Walnice Nogueira Galvão, João Luiz Lafetá e Fernando Henrique Cardoso.
Fora da universidade, idealizou o Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo, que circulou de 1956 a 1966 com textos dele, de Paulo Emílio Salles Gomes e de Wilson Martins. Era crítica com prazo de jornal, não só com prazo de concurso.
Livros que organizam a obra
Os parceiros do Rio Bonito olha para o caipira paulista pelo modo de obter o sustento, não pelo cartão-postal do interior. Literatura e sociedade, de 1965, pela Companhia Editora Nacional, reúne ensaios em que o dado social precisa entrar na forma do texto para interessar à crítica. O discurso e a cidade, de 1993, pela Duas Cidades, lê Manuel Antônio de Almeida, Aluísio Azevedo e também autores de outras línguas a partir da cidade, da norma e do desvio. Em Vários escritos estão “Esquema de Machado de Assis” e “O direito à literatura”. A Iniciação à literatura brasileira, pensada nos anos 1980 para leitores de fora e publicada no Brasil em 1997, resume o arco e segue além de 1880.
Alguns marcos, sem transformar a trajetória em currículo:
- 1945: livre-docência sobre o método de Sílvio Romero.
- 1954 e 1964: tese e livro sobre o caipira de Bofete, antigo Rio Bonito.
- 1959: Formação da literatura brasileira, na Martins.
- 1965: Literatura e sociedade.
- 1993: O discurso e a cidade e o Prêmio Machado de Assis.
- 1998: Prêmio Camões, o principal prêmio literário da língua portuguesa.
Recebeu ainda o Prêmio Anísio Teixeira em 1996 e, em 8 de outubro de 2005, em Monterrey, o Prêmio Internacional Alfonso Reyes, como primeiro brasileiro numa lista em que estão Borges, Carpentier e Octavio Paz. O Jabuti aparece em 1960, 1965, 1966 e 1993. Foi professor emérito da USP e da UNESP e doutor honoris causa da Unicamp e da Universidade da República, no Uruguai. A convite do reitor Zeferino Vaz, participou da fundação do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, ficou na instituição cerca de cinco anos e deu nome à biblioteca do instituto.
PSB, Resistência e a fundação do PT
O outro ofício público era a política, e não como adorno tardio. Candido militou no Partido Socialista Brasileiro, participou do Grupo Radical de Ação Popular e ajudou a editar o jornal clandestino Resistência, de oposição ao governo de Getúlio Vargas, com Paulo Emílio Salles Gomes, Germinal Feijó, Paulo Zingg e Antônio Costa Correia. Foi candidato a deputado estadual, dirigiu a seção paulista do PSB e permaneceu nessa militância até 1954.
Na fundação do Partido dos Trabalhadores, presidiu o primeiro Conselho Curador da Fundação Wilson Pinheiro, criada em 1981 e antecessora da Fundação Perseu Abramo. Apoiou as candidaturas presidenciais de Luiz Inácio Lula da Silva. Em 2010 e de novo em 2014 apoiou Dilma Rousseff, nesta última contra Aécio Neves. No impedimento, disse à Folha de S.Paulo que afastar a presidente tenderia a agravar a situação política e econômica do país. Chamava de socialismo, desde cedo, a defesa da igualdade e do limite à exploração de quem trabalha.
12 de maio de 2017 e a biblioteca que mudou de casa
Antonio Candido morreu em São Paulo em 12 de maio de 2017, aos 98 anos, por uma hérnia de hiato que não pôde ser operada. Em 2018 as três filhas doaram à Unicamp a biblioteca pessoal, com mais de seis mil volumes. Marina de Mello e Souza assinou o termo no gabinete do reitor Marcelo Knobel. Antes da transferência, bibliotecários foram ao apartamento paulistano registrar como os livros estavam agrupados, para tentar repetir essa ordem no Instituto de Estudos da Linguagem. A filha descreveu o acervo que chegou a Campinas como a seleção que o pai considerava central, dos volumes de infância às manias de uma vida inteira de leitura.
Em 2023 a Todavia relançou, com projeto gráfico de Oga Mendonça, um conjunto que inclui Formação da literatura brasileira, Os parceiros do Rio Bonito, Literatura e sociedade e O discurso e a cidade. Não são inéditos. São os mesmos livros, outra vez à venda em livraria. O ofício não se confunde com o de Antônio Houaiss, que organizou o léxico do português num dicionário de centenas de milhares de verbetes. Candido organizou modos de ler. Os dois cabem na mesma estante de literatura brasileira e respondem a perguntas diferentes: um diz o que a palavra pode significar; o outro mostra como um país passou a reconhecer os próprios livros como tradição.





