Os parceiros do Rio Bonito é o livro em que Antonio Candido troca o cânone literário pelo modo de vida de quem plantava no interior paulista. Saiu em 1964, pela José Olympio, na coleção Documentos Brasileiros. A origem é a tese de doutorado em Ciências Sociais defendida dez anos antes na USP, em 1954, escrita no mesmo período em que ele preparava Formação da literatura brasileira. Um volume explica como a literatura virou instituição. O outro explica como um mundo rural perdia o arranjo que lhe dava de comer.
O ponto de partida não foi um censo. Candido começou interessado na poesia do cururu, dança cantada em que dois repentistas se desafiam. Ao notar que essa prática coletiva ia se individualizando, deslocou a pergunta para a vida material. Sem entender como o caipira obtinha o sustento, o folclore virava cenário. O livro inverte a ordem: primeiro a comida, a terra e a troca entre vizinhos; depois a festa, o verso e a crença.
Bofete, antigo Rio Bonito
O trabalho de campo correu de 1947 a 1954 em áreas caipiras do estado: Piracicaba, Tietê, Porto Feliz, Conchas, Anhembi, Botucatu e, com mais demora, Bofete, município que antes se chamava Rio Bonito. Ali ele se instalou duas vezes num agrupamento rural, cerca de vinte dias em 1948 e quarenta em 1954, na fazenda Bela Aliança. Os “parceiros” do título são trabalhadores que cultivavam terra de terceiros. Não são personagens de romance regionalista. São os informantes e os vizinhos dessa estadia.
Pelos relatos de viajantes e pelos depoimentos de velhos, o livro reconstrói o que chama de tempo dos antigos. A sociedade caipira tradicional, nessa descrição, fechava-se em agricultura de subsistência e em cooperação: mutirão, troca de alimentos, festa religiosa, parentesco e vizinhança, à margem do latifúndio, mas não fora do alcance dele. O cururu entra como índice cultural dessa vida, não como peça de antologia.
O que se desfaz quando o sítio encontra o mercado
O argumento não é saudosista. Candido acompanha a transformação dos meios de vida quando a economia urbana e o mercado passam a puxar o campo. A dieta muda, a cooperação cede lugar a outras relações de trabalho, e a cultura que dependia daquele mínimo estável perde o chão. O próprio livro alerta que, sem planejamento, a urbanização do campo tende a virar um traumatismo cultural, com a fome e a anomia rondando um modo de vida que já conhecia as duas.
Por isso o volume conversa com a tradição do ensaio sobre o Brasil, em especial com Sérgio Buarque de Holanda, sem ser um comentário a Raízes do Brasil. O material é local, quase municipal, e a consequência é larga. Bofete funciona como lugar em que dá para ver, em escala de vizinhança, um processo que o país inteiro atravessava.
A edição de 2023 e o leitor que ela alcança
A Todavia relançou o título em 24 de março de 2023, com capa de Oga Mendonça, 376 páginas e ISBN 9786556924069. É a edição corrente, diferente do volume da José Olympio e também da reedição da Edusp com a Ouro sobre Azul. O texto é o da tese tornada livro, não um estudo novo sobre o agronegócio do século XXI. Quem espera estatística recente ou política agrícola atual não vai encontrar. Quem quer o documento de como a sociologia paulista dos anos 1950 descreveu o caipira, com nome de fazenda, prazo de estadia e atenção à comida, encontra exatamente isso.
O livro também explica o crítico literário por um caminho que a Formação não abre. O mesmo autor que lia arcadismo como sistema lia o mutirão como instituição. Nos dois casos a pergunta é parecida: o que faz um conjunto de gestos virar cultura contínua, e o que acontece quando essa continuidade se rompe. Não é obrigatório ler um para entender o outro. Quem lê os dois vê que a crítica e a sociologia, em Candido, não eram carreiras paralelas. Eram o mesmo hábito aplicado a objetos diferentes.




