O discurso e a cidade é o livro de 1993 em que Antonio Candido junta ensaios sobre a forma literária quando o assunto é a vida urbana, a norma e o desvio. A primeira edição saiu pela Duas Cidades. Não é romance, não é tese e não reescreve Formação da literatura brasileira. É uma coleção com três partes, cada uma com um jeito próprio de pôr textos em relação.
A primeira parte, que dá nome ao volume, discute como estímulos de fora entram na montagem do texto. Os casos são Émile Zola, Aluísio Azevedo e Manuel Antônio de Almeida. É aqui que está “Dialética da malandragem”, leitura de Memórias de um sargento de milícias em que o vai e vem das personagens entre o lícito e o ilícito corresponde à ordem e à desordem da sociedade brasileira. Também é aqui que “De cortiço a cortiço” trata o cortiço de Aluísio como figura do país: exploração econômica vinda de fora e sujeição de um povo humilde feito, em grande parte, de negros, mestiços e imigrantes pobres. A cidade, nesses ensaios, não é endereço. É princípio de composição.
Quatro esperas e o que fica fora do esquadro
A segunda parte se chama “Quatro esperas”. Candido aproxima um poema de Konstantinos Kaváfis e ficções de Franz Kafka, Dino Buzzati e Julien Gracq. O tema comum é a espera, não a nacionalidade. O crítico que passou a vida lendo o Brasil mostra, nesse bloco, o comparatista: a pergunta viaja de língua em língua sem pedir que o leitor finja que Kafka é um caso da literatura brasileira.
A terceira parte, “Fora do esquadro”, volta a poemas pouco frequentados: Sousa Caldas, Bernardo Guimarães, Fontoura Xavier e “Louvação da tarde”, de Mário de Andrade. O título da seção já diz o gosto. Não são os textos que a antologia escolar repete. São peças em que o desvio da norma interessa tanto quanto a obra canônica da primeira parte. Quem só conhece Candido pela Formação descobre aqui um leitor de poema, não apenas de sistema histórico.
Por que este volume e não outro ensaio
“Esquema de Machado de Assis” e “O direito à literatura” ficaram em Vários escritos. Misturar os dois livros é o erro mais comum de quem cita de memória. O discurso e a cidade tem outro centro: a relação entre mundo externo e estrutura do texto, com a cidade como caso privilegiado, mais o exercício comparado das esperas e o desvio poético. O Machado que interessa neste volume não é o do esquema de 1968. É o ambiente em que a malandragem de Manuel Antônio de Almeida já prepara perguntas que o romance machadiano vai complicar.
O leitor de letras usa o livro para sair do resumo de “dialética da malandragem” que circula em aula e chegar ao ensaio inteiro, com Zola e Aluísio ao lado, não como apêndice. O leitor de cidade, de história urbana ou de ciências sociais encontra uma crítica que leva a sério cortiço, milícia e norma sem transformar o romance em documento bruto. O leitor que quer só literatura brasileira pode estranhar Kafka e Gracq no miolo. Eles estão ali de propósito. O comparatismo, para Candido, não era enfeite de cátedra. Era o modo de ver o que um tema faz quando muda de língua.
Edição corrente
A Todavia relançou o título em 24 de março de 2023, com capa de Oga Mendonça, 328 páginas e ISBN 9786556924076. A edição de 1993 continua sendo a de referência histórica. A de 2023 é a que se compra agora, no mesmo padrão gráfico da coleção. Não há preço estável para registrar, nem curso acoplado, nem versão “resumida” que substitua os ensaios. O livro pede leitura inteira de pelo menos um dos três blocos. Começar pela malandragem e parar no primeiro parágrafo é repetir a citação. Começar pela malandragem e seguir até o cortiço, as esperas e os poemas fora do esquadro é encontrar o crítico tardio, já distante da tese de 1954 e ainda às voltas com a mesma teimosia: o mundo social só vira argumento quando a frase o absorve.




