Em 1950, o reitor Joaquim Amazonas decidiu criar o primeiro curso de biblioteconomia da Universidade do Recife e chamou para organizá-lo um bibliotecário que trabalhava na prefeitura da cidade desde os anos 1940. Edson Nery da Fonseca aceitou o convite, e dali em diante sua trajetória se confundiu com a história da profissão no Brasil: ajudou a fundar cursos, instituições de pesquisa e participou da criação de uma universidade inteira no Planalto Central.
Quem procura o nome dele hoje costuma chegar por dois caminhos. Um é a biblioteconomia: estudantes e profissionais encontram Edson Nery em manuais, prefácios e na memória das escolas que ajudou a criar. O outro é Gilberto Freyre: ao longo de quase sete décadas, ele leu, editou, comentou e publicou a obra do autor de Casa-grande & senzala, com quem conviveu no Recife.
Quem foi Edson Nery da Fonseca
Nascido no Recife em 6 de dezembro de 1921, Edson Nery da Fonseca morreu em Olinda em 22 de junho de 2014, aos 92 anos. Bibliotecário de ofício, foi também professor universitário e escritor. Trabalhou no governo municipal do Recife nos anos 1940, antes de se tornar uma das figuras centrais da formação profissional no país.
Ele costumava ser descrito como um polemista. Em texto de 1963, citado em vida, falava de si como alguém conhecido pela dureza com que atacava o que considerava falsos valores da biblioteconomia brasileira. A imagem de crítico acompanhou o personagem, mas não explica sozinha o alcance do trabalho: além de escrever, ele criou cursos, implantou bibliotecas e formou gerações de profissionais.
O fundador de cursos de biblioteconomia
A contribuição institucional começou em Pernambuco. Em 1950, a convite do reitor Joaquim Amazonas, fundou o curso de biblioteconomia da então Universidade do Recife, que se tornaria a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Era o esforço de tirar a formação de bibliotecários do improviso e levá-la ao ambiente universitário.
Quinze anos depois, em 1965, repetiu a operação em Brasília: inaugurou a graduação em biblioteconomia da Universidade de Brasília (UnB) ao lado de Darcy Ribeiro e ficou responsável pela implantação da Biblioteca Central da universidade. Também participou da fundação do Instituto Brasileiro de Bibliografia e Documentação (IBBD), hoje Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT).
- Curso de biblioteconomia da Universidade do Recife, futura UFPE, em 1950;
- Curso de biblioteconomia da Universidade de Brasília, em 1965, ao lado de Darcy Ribeiro;
- Implantação da Biblioteca Central da UnB;
- Fundação do IBBD, hoje IBICT.
Entre 1980 e 1987, atuou como pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife. Aposentou-se pela UnB, da qual se tornou professor emérito.
O maior estudioso de Gilberto Freyre
Foi na relação com a obra de Gilberto Freyre que Edson Nery construiu a parte mais visível de sua reputação. Ele começou a escrever sobre o sociólogo em 1945 e não parou mais: depois da morte de Freyre, em 1987, publicou quatro livros do autor, um deles a pedido do próprio sociólogo. Palavras repatriadas reúne textos e conferências que Freyre havia escrito em inglês e que ganharam versões em português.
Em 2011, na Fliporto, lançou O Grande Sedutor – Escritos sobre Gilberto Freyre de 1945 até hoje, com 135 textos escritos por ele ao longo de 65 anos. Apesar da intimidade com o acervo, recusava o rótulo de curador da obra de Freyre e dizia que essa função cabia à fundação dirigida pela filha do sociólogo.
O convívio com Freyre não foi o único elo literário. Edson Nery também foi próximo de Manuel Bandeira, de quem recitava poemas em público e sobre quem falou em mesas de feira literária.
O que Edson Nery da Fonseca escreveu
Ao longo da vida, publicou cerca de 20 livros, entre ensaios, memórias, perfis e obras de formação profissional. Introdução à Biblioteconomia, com prefácio de Antonio Houaiss, virou leitura de iniciação para quem entra na área.
Em 2009, lançou Vão-se os Dias e Eu Fico – Memórias e Evocações, cujo título vem de versos do poema Le Pont Mirabeau, de Guillaume Apollinaire. Os capítulos fogem da ordem cronológica e partem sempre de uma negativa: por que não me chamo Antonio, por que não me fiz monge beneditino, por que não completei o curso de Direito, por que não me casei. O recurso veio de uma ideia do filósofo Julián Marías, citada pelo próprio autor: para entender uma pessoa, importa menos o que ela fez do que aquilo que deixou de fazer.
No ano seguinte, publicou Estão Todos Dormindo, uma reunião de perfis de pessoas com quem conviveu. Entre a biblioteconomia técnica e a crônica memorialista, a obra escrita mantém um traço comum: o gosto pelo retrato curto e pela memória como documento.
FLIP, honrarias e o Mosteiro de São Bento
A presença pública se estendeu para além da área profissional. Em 2009, participou da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) na mesa sobre Manuel Bandeira, ao lado de Zuenir Ventura. No ano seguinte, voltou à feira e chamou atenção ao declamar um poema de Gilberto Freyre para a plateia.
Em 2011, recebeu da UFPE o título de doutor honoris causa. A ligação com o Mosteiro de São Bento, em Olinda, rendeu um dos poemas mais reproduzidos sobre ele, publicado no livro Interpretação de Edson Nery da Fonseca, de 2001: o autor se descrevia limitado ao Norte pela literatura, ao Sul pela saudade da vida militar, a Leste por Gilberto Freyre e a Oeste pelo mosteiro.
Como Edson Nery da Fonseca é lembrado
Ele morreu em casa, em Olinda, em 2014, e deixou uma obra que continua sendo consultada por quem estuda biblioteconomia e a literatura pernambucana. Um blog mantido desde 2009 por estudantes de Biblioteconomia e Ciência da Informação da UFSCar reúne textos, vídeos e reportagens sobre a trajetória dele.
Para quem chega agora ao nome, a porta de entrada pode ser tanto os livros de memória quanto os trabalhos sobre Freyre. Em comum, eles guardam o mesmo personagem: um bibliotecário que tratava o livro como assunto central e não perdoava o que considerava descuido intelectual.
Perguntas frequentes
Quem foi Edson Nery da Fonseca?
Bibliotecário, professor e escritor pernambucano nascido no Recife em 1921 e morto em Olinda em 2014. Fundou cursos de biblioteconomia na UFPE e na UnB e se tornou o principal estudioso da obra de Gilberto Freyre.
Por que ele é associado a Gilberto Freyre?
Porque escreveu sobre Freyre de 1945 até 2010, organizou reedições e publicou quatro livros do sociólogo depois da morte dele, incluindo Palavras repatriadas.
Quais livros de Edson Nery da Fonseca procurar primeiro?
Depende do interesse. Para a área profissional, Introdução à Biblioteconomia. Para memória e crônica, Vão-se os Dias e Eu Fico e Estão Todos Dormindo. Para Freyre, O Grande Sedutor e Gilberto Freyre de A a Z.
Onde encontrar mais material sobre ele?
No verbete da Wikipédia, no blog mantido por estudantes da UFSCar e em entrevistas gravadas em vídeo, como a concedida ao programa Café Colombo, no Recife.






