Eduardo Kac nasceu no Rio de Janeiro, em 1962, e transformou biotecnologia, telecomunicações e holografia em matéria de arte. É o criador de Alba, a coelha transgênica da obra GFP Bunny (2000), um dos trabalhos mais debatidos da arte contemporânea, e o artista que abriu campos como a holopoesia e a arte transgênica.
A trajetória dele começa nas performances de rua dos anos 1980, no Rio de Janeiro, e atravessa décadas de experimentação com computadores, satélites, robôs, redes e DNA. Professor de Art and Technology Studies na School of the Art Institute of Chicago desde 1997, Kac tem obras em acervos como o MoMA de Nova York, a Tate Modern e o Victoria and Albert Museum, em Londres. Entender a obra dele é entender como a tecnologia deixou de ser ferramenta e passou a ser linguagem dentro da arte.
Da vanguarda carioca à arte digital
Kac começou a aparecer na cena carioca em 1980, quando lançou o Movimento de Arte Pornô ao lado de nomes como Glauco Mattoso, Leila Míccolis e Hudinilson Jr. As ações misturavam humor, corpo e crítica ao clima conservador do fim da ditadura militar. Dois anos depois, veio a primeira obra digital, e em 1983 ele publicou o livro de artista Escracho, hoje no acervo do MoMA, além de criar HOLO/OLHO, o primeiro poema holográfico, batizado com a palavra portuguesa para olho.
Na mesma época, Kac inventou a holopoesia, explorando o holograma como forma de leitura em movimento, e levou poemas animados para o sistema francês Minitel. Um deles, Reabracadabra (1985), também entrou para a coleção do MoMA. Em 1984, participou da mostra Como Vai Você, Geração 80?, no Parque Lage, e em 1986 organizou com Flavio Ferraz a exposição Brasil High-Tech, no Rio.
Os anos 1980 foram ainda o laboratório da arte da telepresença. Em 1986 surgiu o primeiro trabalho em que um robô conectava dois lugares distantes, e em 1989 ele concluiu Ornitorrinco, feito com Ed Bennett, um robô controlado remotamente por telefone e rede. No mesmo ano, Kac se mudou para Chicago, onde concluiu o mestrado na School of the Art Institute of Chicago em 1990 e, em 2003, o doutorado pelo Planetary Collegium, da Universidade do País de Gales.
Time Capsule, Genesis e a invenção da bioarte
Em 1997, Kac realizou Time Capsule, obra em que implantou no próprio corpo um microchip de identificação do tipo usado em animais de estimação e se registrou no banco de dados associado ao chip, tornando-se a primeira pessoa a fazer isso. O trabalho foi transmitido ao vivo por televisão e internet e chegou a ser vetado pelo departamento jurídico do Instituto Cultural Itaú, por risco à saúde do artista; acabou apresentado na Casa das Rosas, em São Paulo, entre novembro e dezembro daquele ano.
Dois anos depois, Genesis inaugurou a arte transgênica no festival Ars Electronica, em Linz, na Áustria. Kac converteu um trecho do Velho Testamento em código Morse e depois em pares de bases de DNA, introduzindo a sequência em bactérias. Participantes remotos acionavam luz ultravioleta sobre as bactérias pela internet, alterando o código genético; ao final, o artista traduziu a sequência de volta para o inglês e publicou o resultado. A obra foi adquirida em 2008 pelo Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM), na Espanha.
O trabalho mais famoso veio em 2000. Em GFP Bunny, Kac apresentou Alba, uma coelha albina modificada com um gene de fluorescência de água-viva que emite luz verde sob determinada iluminação. O caso gerou um debate internacional sobre ética, engenharia genética e os limites da criação artística com seres vivos, tema que atravessa a ciência e a filosofia. A imagem da coelha verde se espalhou pela cultura pop, aparecendo em séries de televisão e em romances como Oryx e Crake, de Margaret Atwood.
Edunia e a História Natural do Enigma
Entre 2003 e 2008, Kac desenvolveu Natural History of the Enigma, obra em que uniu o próprio DNA ao de uma petúnia para criar um organismo híbrido que ele chamou de plantimal. A planta, batizada de Edunia, mistura Eduardo e Petunia, e exibe nas folhas veias avermelhadas que lembram circulação sanguínea. O trabalho rendeu a Kac o prêmio Golden Nica, do festival Ars Electronica, em 2008, a principal distinção da arte midiática.
Arte além da Terra: Inner Telescope, Adsum e Ágora
O interesse pelo espaço acompanha a carreira de Kac há décadas. Em 1996, a obra Monogram foi incluída no DVD que viajou acoplado à sonda Cassini, rumo a Saturno. Em 2017, ele criou Inner Telescope com o astronauta francês Thomas Pesquet, que executou a obra a bordo da Estação Espacial Internacional seguindo instruções do artista: duas folhas de papel cortadas e dobradas que, em gravidade zero, formam as letras da palavra francesa moi, eu, ou uma figura humana com o cordão umbilical cortado.
Desde 2019, Kac desenvolve Adsum, obra em vidro com símbolos gravados a laser em três dimensões, pensada para existir no ambiente lunar. Uma das etapas do projeto chegou à Estação Espacial Internacional em 2022. O artista também concluiu em 2023 o projeto Ágora, iniciado em 1986 e concebido para o espaço profundo, com um holograma que deve viajar para além da órbita terrestre.
Onde ver as obras de Eduardo Kac
Trabalhos de Kac integram coleções permanentes de museus em vários países, e livros de artista dele estão em bibliotecas como a do Metropolitan Museum of Art, em Nova York. Entre os acervos públicos que guardam suas obras estão:
- Museum of Modern Art (MoMA), Nova York;
- Tate Modern e Victoria and Albert Museum, Londres;
- Museu Reina Sofia, Madri, e IVAM, Valência;
- Les Abattoirs, Toulouse, e ZKM, Karlsruhe;
- Museu de Arte Moderna de São Paulo e Art Center Nabi, Seul.
Livros e publicações
Kac também é autor e organizador de livros que se tornaram referência nos estudos de arte e tecnologia. Luz & Letra (2004) reúne ensaios sobre arte, literatura e comunicação, com foco na produção brasileira. Telepresence & Bio Art (2005), pela University of Michigan Press, documenta e teoriza os trabalhos de telepresença e bioarte. Signs of Life: Bio Art and Beyond (2007), pela MIT Press, é uma antologia que ajudou a definir o campo da bioarte. No mesmo ano, ele organizou Media Poetry: An International Anthology, pela Intellect Books, primeira antologia internacional dedicada à poesia em mídias digitais.
Eduardo Kac hoje
Radicado em Chicago desde 1989, Kac segue como professor de Art and Technology Studies na School of the Art Institute of Chicago, onde leciona desde 1997, e mantém uma agenda de exposições e projetos espaciais. Ao longo da carreira, recebeu o Leonardo Award for Excellence (1998), o prêmio bienal do Inter Communication Center de Tóquio (1999), o Creative Capital Award (2002) e o Golden Nica da Ars Electronica (2008). A obra dele continua sendo estudada como um dos elos entre a vanguarda brasileira, a arte digital e as discussões sobre biotecnologia no século 21.





