Eliakin Rufino de Souza nasceu em Boa Vista, em 27 de maio de 1956, e transformou a paisagem de Roraima em matéria de poesia e canção. Cofundador do movimento Roraimeira ao lado de Zeca Preto e Neuber Uchôa, assina o hino oficial da capital, publicou 13 livros e teve versos gravados por artistas como Leila Pinheiro, Gaby Amarantos e Nilson Chaves. Em 2024, recebeu com o trio o título de doutor honoris causa da Universidade Estadual de Roraima (UERR).
Quem chega ao nome dele pela música ou pela literatura costuma esbarrar nas mesmas perguntas: o que foi o Roraimeira, quais livros formam essa trajetória e como um poeta do extremo norte do país passou a circular em palcos e prêmios nacionais. As respostas estão espalhadas entre discos, antologias, entrevistas e documentos públicos, e é isso que este perfil reúne.
Quem é Eliakin Rufino
Filho de pais amazonenses, Eliakin cresceu em uma Boa Vista que ainda tinha uma única emissora de rádio e nenhuma de televisão. A biblioteca pública virou o principal programa de uma adolescência marcada por Castro Alves, Thiago de Mello e Joaquim Cardozo, leituras que empurraram o rapaz para a poesia antes de qualquer plano de carreira.
Em 1975, entrou no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Goiás, em Goiânia. O período coincidiu com o endurecimento da ditadura militar e com a morte do jornalista Vladimir Herzog. Temendo pela segurança do filho, a família cortou a ajuda que sustentava os estudos e ele deixou o curso. Depois de uma temporada na Venezuela, voltou ao Brasil e se formou em Filosofia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em 1984, mesmo ano em que retornou a Boa Vista e publicou o primeiro livro.
Como nasceu o movimento Roraimeira
O encontro com o músico Neuber Uchôa e com o compositor Zeca Preto, em 1984, deu origem ao movimento Roraimeira. Inspirado pelo Modernismo e pela Tropicália, o grupo reuniu músicos, escritores, poetas e artistas visuais com uma missão simples de enunciar e difícil de cumprir: dar fisionomia própria à cultura de Roraima, valorizando a paisagem, os povos e os sabores do extremo norte do país.
O primeiro show do trio aconteceu em 28 de agosto de 1984, no Teatro Amazonas, em Manaus. Quatro décadas depois, em 2024, os três voltaram ao mesmo palco para celebrar os 40 anos do movimento. O reconhecimento nacional também chegou: em 2018, o Trio Roraimeira recebeu a Ordem do Mérito Cultural, e em 2024 veio o título de doutor honoris causa concedido pela UERR, aprovado por seus programas de pós-graduação.
O grupo também assinou projetos contemplados por editais públicos, como Roraimeira – O canto de Roraima, premiado pela Funarte em 2009, e manteve a vocação de abrir espaço para artistas locais em diferentes linguagens, da música às artes visuais.
O hino de Boa Vista e a poesia que virou lei
Eliakin é o autor do Hino Oficial do Município de Boa Vista, escolhido em concurso promovido pela prefeitura. O texto exalta a cidade e virou peça obrigatória em cerimônias oficiais, escolas e eventos cívicos de Roraima.
Outro capítulo da mesma veia cívica é a Versão Poética do Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1995. A convite do Fórum de Defesa da Criança e do Adolescente de Roraima, o poeta transformou o texto legal em versos, publicados em livro e distribuídos em milhares de exemplares pelo país. Em São Paulo, a companhia Ballet Stagium levou essa leitura para os palcos, com crianças recitando o estatuto em cena.
Quais livros marcam a trajetória literária
São 13 livros publicados, entre poesia, obras infantojuvenis e projetos coletivos. Alguns títulos ajudam a entender as fases do autor:
- Pássaros Ariscos (1984): a estreia, lançada no mesmo ano da fundação do Roraimeira;
- Escola de Poesia (1990): obra voltada ao público infantojuvenil;
- Poeta de Água Doce (1993): poemas ligados à paisagem amazônica, como o célebre "Buritizeiro";
- Versão Poética do Estatuto da Criança e do Adolescente (1995): o texto da lei transformado em poesia;
- Poesia para ler na cama (1997): a incursão do autor pela poesia erótica;
- Cavalo Selvagem: antologia que reúne poemas de várias fases, publicada pela Editora Valer.
O poema "Cavalo selvagem" funciona como manifesto do autor: um tributo à liberdade que atravessa boa parte do que ele escreveu depois.
Música: do Trio Roraimeira à carreira solo
A discografia acompanha a mesma travessia. Com o Trio Roraimeira, Eliakin gravou Roraima (1992) e O canto de Roraima e suas influências indígenas e caribenhas (2000). Em carreira solo, lançou Amazônia Legal (1997), Me Toca (1998), Mestiço, contemplado pelo programa Rumos Itaú Cultural, e Eliakin Diz (2011), além de discos ao vivo.
As letras passeiam por liberdade, direitos humanos, natureza e crítica social, com humor e ironia, e circulam sem preconceito de ritmo: balada, bolero, blues, rap, pop e poemas falados. O trabalho como compositor rendeu o Prêmio Grão de Música Brasileira, em 2019, e canções gravadas por nomes de fora de Roraima:
- "Tudo Índio", na voz do paraense Nilson Chaves;
- "Madrugada" e "Se chovesse você", com Eliana Printes e participação de Chico César;
- "Ditados Impopulares", no disco Raiz, de Leila Pinheiro;
- "Pimenta com Sal", gravada por Gaby Amarantos em dueto com Fernanda Takai;
- "Todo Mundo Nasce Artista", no disco Trelelê, da cantora Aíla.
O que Eliakin Rufino faz hoje
Aos 70 anos, completados em 2026, Eliakin segue produzindo. No mesmo ano, recebeu o Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes, voltado a artistas com mais de 60 anos e trajetória relevante para as artes brasileiras, e viu a segunda edição de Cavalo Selvagem chegar às livrarias pela Editora Valer.
Ele também mantém a rotina de professor de literatura indígena na Universidade Federal de Roraima (UFRR) e a presença em projetos culturais de alcance nacional, como o Arte da Palavra, do Sesc, que o levou a uma turnê por sete cidades em 2019. Em 2025, subiu ao palco do TEDxAmazônia com a palestra "Não existe o Brasil profundo", em que questiona a ideia de que existiria um país distante dos grandes centros.
Sobre a própria posição como artista amazônico, resumiu em entrevista à Concertação pela Amazônia: "Fala-se muito do lugar de fala. Eu, além de lugar de fala, eu tenho a fala do lugar. A Amazônia é minha casa, meu lar, minha origem".
Para quem quer continuar explorando autores com esse perfil, as páginas de literatura e de música do site reúnem outros nomes que cruzam escrita e canção.





