Imagem de capa do perfil de Elio Gaspari
Foto de perfil de Elio Gaspari

Elio Gaspari

Nascimento: 1944 São Paulo, SP
Jornalista e escritor ítalo-brasileiro, colunista da Folha de S.Paulo e autor da Coleção Ditadura, cinco volumes sobre o regime militar brasileiro.

Nas redações dos anos 1980, o “livro do Elio” era lenda de gaveta. O jornalista tinha ido a Washington, em 1984, para um ensaio de cem páginas sobre dois generais — Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva — e descobriu que o arquivo não cabia em ensaio. Dezoito anos depois, a conta virou cinco volumes.

Quem busca Elio Gaspari hoje raramente quer só a ficha de colunista. Quer o narrador da ditadura militar brasileira, o cronista da Folha de S.Paulo que ainda escreve com Madame Natasha e Eremildo, o idiota, e o napolitano que desembarcou no Rio em 1949 e nunca saiu do jornalismo.

Quem é Elio Gaspari

Elio Gaspari nasceu em Nápoles, na Itália, em 1944, e chegou ao Brasil aos cinco anos, na companhia da mãe, Anna Giacchetti. Radicado em São Paulo, é jornalista e escritor ítalo-brasileiro, com passagem por Veja, Jornal do Brasil e Diário de São Paulo antes de se firmar como colunista da Folha — de onde seus artigos saem também para O Globo, Correio do Povo, O Povo e A Tribuna.

A autoridade pública dele tem duas portas, e o leitor costuma entrar pelas duas. De um lado, a coluna de opinião, irônica, semanal, cheia de personagens inventados para furar o discurso empolado do poder. De outro, a Coleção Ditadura, série de livros-reportagem que reconstitui o golpe de 1964, o AI-5, a distensão de Geisel e o fim do regime até a eleição de Tancredo Neves. Quem lê literatura de não ficção no Brasil e quem lê política contemporânea encontra o mesmo nome nas duas prateleiras.

  • Colunista da Folha de S.Paulo desde novembro de 1996, com artigos reproduzidos em jornais de vários estados
  • Autor da Coleção Ditadura, cinco volumes publicados entre 2002 e 2016 pela Companhia das Letras e, depois, pela Intrínseca
  • Vencedor do Prêmio ABL de Ensaio, Crítica e História Literária em 2003, pelos dois primeiros tomos
  • Homenageado com o Prêmio Vladimir Herzog em 2016 e no Congresso da Abraji em 2014
  • Lemann Visiting Fellow no David Rockefeller Center for Latin American Studies, em Harvard, em 2004–2005

De Nápoles à Lapa e às redações

A infância brasileira passou por internato em Mangaratiba e, de volta ao Rio, pela Lapa de quartos alugados. A mãe trabalhava; o filho fez o científico na Associação Cristã de Moços e comeu no Calabouço, restaurante de estudantes pobres. Até os 19 anos, mãe e filho não tinham apartamento próprio. O detalhe importa porque explica o jornalista que depois foi capaz de sentar com generais sem perder o olho de quem chegou de fora.

Cursava História na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio, quando o golpe o atingiu de perto: foi expulso por iniciativa do diretor Eremildo Luiz Vianna. Décadas depois, o mesmo nome reapareceria na coluna como Eremildo, o idiota, sátira de quem usa o dinheiro público como se fosse talão particular. Filou-se ao PCB em 1962 e estreou no semanário Novos Rumos com o pseudônimo Elio Parmegiani. A primeira redação foi de partido; as seguintes seriam de jornal comercial.

A trajetória profissional é uma sequência de redações que o treinou para achar o detalhe escondido. Setorista no Galeão, cobrindo chegada de personalidades; auxiliar de Ibrahim Sued na coluna social, de 1965 a 1968; passagem pelo Diário de São Paulo; editor de política e diretor-adjunto de Veja, inclusive como correspondente em Nova York; coluna política no Jornal do Brasil entre 1974 e 1979. Em junho de 1969, ainda na órbita de Sued, foi preso pelos fuzileiros navais e ficou 59 dias detido na Ilha das Cobras e na Ilha das Flores. A intervenção do colunista social, segundo relatos posteriores do próprio Gaspari, pesou na soltura.

A coluna da Folha, Madame Natasha e Eremildo

Desde novembro de 1996, Gaspari é comentarista da Folha. A coluna não explica o Brasil em tese: aponta o fato miúdo, a frase torta, o contrato mal explicado, o ministro que fala demais. Para isso criou um teatro próprio. Madame Natasha é a professora de português que “condena a tortura do idioma” e distribui bolsas de estudo a quem se expressa de modo empolado. Eremildo, o idiota encarna o gestor público que trata o orçamento como brinquedo. O leitor antigo já os reconhece de relance; o leitor novo leva duas colunas para perceber que o humor é o método, não o enfeite.

O tom o coloca na mesma família de cronistas da Folha que misturam política e prosa — o território em que também circula Ruy Castro, outro colunista do jornal com biografia longa de livro. A diferença é o objeto: Castro reconstitui bossa, futebol e teatro; Gaspari reconstitui palácio, quartel e arquivo. No jornalismo político contemporâneo, o parentesco mais próximo no próprio site é Pedro Doria, que também cruza redação e livro de história nacional.

Em 2012, venceu o Prêmio Comunique-se na categoria de colunista de opinião. Em 2014, a Abraji o homenageou no Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo. Em 2016, o Prêmio Vladimir Herzog o reconheceu pelo conjunto. Casado com a jornalista Dorrit Harazim, reside em São Paulo e continua publicando com a regularidade de quem trata a coluna como ofício, não como vitrine.

Os cinco livros da ditadura

A pesquisa que virou a Coleção Ditadura começou no Wilson Center for International Scholars, em 1984, com bolsa de três meses e um recorte aparentemente estreito: Geisel, o “Sacerdote”, e Golbery, o “Feiticeiro”. A pergunta era concreta — por que conspiradores de 1964 se tornaram os artífices da distensão que desmontaria o próprio regime. No ano seguinte, Heitor Aquino Ferreira, secretário de Golbery e depois de Geisel, entregou a Gaspari 25 caixas de papéis quase esquecidas na garagem de um sítio em Luziânia, mais cerca de 300 horas de fitas. O ensaio de cem páginas morreu ali.

Os dois primeiros volumes, A ditadura envergonhada e A ditadura escancarada, saíram em 2002 na Companhia das Letras, no bloco As ilusões armadas, e levaram o Prêmio ABL de 2003. O primeiro cobre o golpe contra João Goulart, Castello Branco, a criação do SNI e o caminho até o AI-5. O segundo entra na tortura, na guerrilha do Araguaia e no momento em que o regime deixa de fingir que não é ditadura. Em 2003 e 2004 vieram A ditadura derrotada e A ditadura encurralada, o bloco O sacerdote e o feiticeiro, centrados em Geisel, Golbery, a eleição de 1974, a morte de Vladimir Herzog e a queda do general Sylvio Frota. O quinto tomo, A ditadura acabada, só chegou em 2016, pela Intrínseca: Figueiredo, anistia, Riocentro, Diretas Já e o epílogo “500 vidas”, em que o autor acompanha o destino de quinhentos personagens que sobreviveram ao regime — entre eles Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Fernando Henrique Cardoso.

A edição revista da Intrínseca, com projeto gráfico de Victor Burton, acrescentou fotos, atas do Conselho de Segurança Nacional divulgadas em 2008 e, na versão digital, documentos, áudios e vídeos. Não é livro de tese universitária nem romance histórico: é reportagem longa aplicada ao arquivo. Por isso ainda é a porta de entrada mais citada quando alguém quer entender o ciclo militar sem cair no resumo de manual.

O debate sobre a obra

A série virou referência e alvo ao mesmo tempo. O historiador Gilberto Grassi Calil argumentou que Gaspari produz um revisionismo da ditadura: responsabiliza a esquerda pelo golpe, trata com simpatia os militares “moderados”, desqualifica a resistência armada e encurta o período ditatorial, como se ele durasse sobretudo de 1968 a 1979, e não de 1964 a 1985. É uma crítica acadêmica publicada, não um rumor de rede. Quem usa os livros como fonte precisa lê-la ao lado do texto, não no lugar dele.

O próprio método alimenta a disputa. Gaspari teve acesso privilegiado a papéis de Golbery e de Heitor Ferreira; isso dá densidade e, para parte da historiografia, proximidade demais com o olhar do palácio. A defesa da obra, repetida em resenhas da Folha, de O Globo e de Veja, é outra: ele cita a fonte no pé da página, não esconde o documento desconfortável e narra como repórter, não como militante tardio. Entre os leitores públicos da série está Marcelo Rubens Paiva, que chegou a defender A ditadura envergonhada como leitura escolar. Em Harvard, Gaspari ocupou a cadeira Edward Larocque Tinker — a mesma que, anos depois, receberia Silvio Almeida.

Onde ler e por onde começar

A coluna na Folha é o canal mais atual. Os livros estão na Intrínseca e na Amazon, em papel e em e-book. Não há site pessoal estável; a editora e a Agência Riff concentram a biografia oficial de autor. Para quem chega agora, a ordem mais útil costuma ser a cronológica da própria série:

  • A ditadura envergonhada — se a dúvida é como o golpe de 1964 se organizou e por que o regime ainda fingia não ser ditadura
  • A ditadura escancarada — se o interesse é AI-5, tortura e o Araguaia
  • A ditadura acabada — se a pergunta é como o regime saiu de cena e o que restou dos personagens

Gaspari continua sendo lido porque transformou arquivo militar em narrativa contínua e, na coluna, ainda trata a política brasileira como matéria de redação: fato, ironia e nome próprio. O recorte que escolheu — palácio, documento, general — é exatamente o que se discute depois da última página.

O que você acha desta Autoridade?

Qual foi a sua experiência com Elio Gaspari? Os conteúdos, métodos ou serviços realmente entregam valor? Deixe sua avaliação sincera para ajudar quem vem depois.

Projetos de Elio Gaspari

A ditadura envergonhada
A ditadura envergonhada
Primeiro volume da Coleção Ditadura: o golpe de 1964, Castello Branco, o SNI e o caminho até o AI-5, quando o regime ainda recusava o próprio nome.
00%
00%
A ditadura escancarada
A ditadura escancarada
Segundo volume da Coleção Ditadura: o AI-5, a tortura de Estado, a guerrilha do Araguaia e o momento em que o regime militar deixa de disfarçar.
00%
00%
A ditadura acabada
A ditadura acabada
Quinto e último volume da Coleção Ditadura: Figueiredo, anistia, Riocentro, Diretas Já e o epílogo das 500 vidas que sobreviveram ao regime.
00%
00%