Elza Fernandes Paxeco nasceu em São Luís, no Maranhão, em 6 de janeiro de 1912, e morreu em Lisboa, em 28 de dezembro de 1989. Em 1938, tornou-se a primeira mulher a conquistar o grau de doutora pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com dissertação aprovada por unanimidade, em uma época em que a carreira universitária ainda era território quase exclusivo dos homens. Filóloga, professora e escritora, fez da língua portuguesa e das literaturas românicas e inglesa o centro de uma obra que atravessou fronteiras e permaneceu pouco conhecida em sua cidade natal.
Quem foi Elza Paxeco
Elza Paxeco era filha de Manuel Fran Paxeco, jornalista, escritor e cônsul de Portugal no Maranhão, e de Isabel Eugénia de Almeida Fernandes Paxeco, natural do Maranhão. Cresceu entre a vida intelectual maranhense e a diplomacia portuguesa e era prima do jornalista Óscar Paxeco. A formação começou cedo e fora do país: estudou no Brasil, na França, na Grã-Bretanha e em Portugal, passando pelas universidades de Gales, Londres e Lisboa.
Formação internacional e o doutorado de 1938
Na Universidade de Lisboa, formou-se em Filologia Românica e Germânica, curso em que foi aprovada com Honours Summa cum Laude, e concluiu também Língua e Literatura Inglesa com o grau de Master of Arts, resultado raro para uma mulher naquele período. Em 1938, defendeu a tese de doutoramento em Filologia Românica e tornou-se a primeira doutora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com aprovação por unanimidade do júri. Antes de seguir a carreira acadêmica, estagiou no Liceu Pedro Nunes, em 1938 e 1939.
A carreira na Faculdade de Letras de Lisboa
Entre fevereiro de 1940 e outubro de 1948, Elza Paxeco lecionou na Faculdade de Letras de Lisboa como leitora de francês, tendo assumido também as cadeiras de Literatura Francesa e de Língua e Literatura Inglesas. Registros biográficos apontam que sua progressão foi prejudicada por preconceitos de gênero: no exame para professora agregada, recebeu uma bola preta em um concurso cujo posto estaria destinado, de antemão, a um colega homem. Diante do bloqueio, apresentou exoneração do cargo, alegando a responsabilidade com os filhos. Também integrou júris de admissão ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.
O Cancioneiro da Biblioteca Nacional e a parceria com José Pedro Machado
Em 4 de setembro de 1940, casou-se em Lisboa com o filólogo José Pedro Machado, com quem colaborou em diversos trabalhos. A parceria mais ambiciosa foi o Cancioneiro da Biblioteca Nacional (antigo Colocci-Brancuti), edição crítica publicada entre 1949 e 1964, com leitura, comentários, notas e glossário do casal. Sem apoio oficial ou particular, os volumes saíram em folhas mensais apensas à Revista de Portugal, pelas Edições Ocidente, e reuniram a reprodução fotocopiada do manuscrito quinhentista que preserva a mais ampla coletânea da poesia trovadoresca galego-portuguesa.
Academias, sociedades e circulação internacional
A atuação de Elza Paxeco não se limitou à universidade. Foi eleita sócia correspondente da Academia Maranhense de Letras, na cadeira nº 5, hoje ocupada por sua filha, Maria Rosa Pacheco Machado, e representou em Portugal a Associação das Academias Brasileiras de Letras. Em 1964, foi eleita sócia efetiva da Sociedade de Geografia de Lisboa. Também é patrona da cadeira nº 92 da Academia Poética Brasileira. Sua produção apareceu em revistas da Faculdade de Letras de Lisboa, na Brasília, de Coimbra, na Revista das Academias Brasileiras de Letras, na Revista de Portugal e em Ocidente, entre outras publicações.
Principais obras de Elza Paxeco
- Alguns aspectos da poesia de Bocage (1937)
- Acerca da tragicomédia de Dom Duardos (1937)
- Essai sur l'oeuvre de Samain (1938)
- Graça de Júlio Dinis (1939)
- O mito do Brasil-Menino (1942)
- Camões e Elisabeth Barrett (1942)
- Negação dupla em português (1944)
- Estudos em Três Línguas (1945)
- Aucassin e Nicolette (1946), tradução anotada do texto medieval
- Da Glottica em Portugal (1948)
- Galicismos Arcaicos (1949)
- Cancioneiro da Biblioteca Nacional (1949-1964), em colaboração com José Pedro Machado
- São Tiago e Santiago (1966)
- A propósito do antigo nome arábico de Lisboa (1968)
- Os Paladinos da Linguagem (1971)
Perguntas frequentes sobre Elza Paxeco
Elza Paxeco foi mesmo a primeira doutora da Faculdade de Letras de Lisboa?
Sim. Registros biográficos e a história da própria instituição confirmam que, em 1938, ela se tornou a primeira mulher a obter o título de doutora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com tese aprovada por unanimidade.
Com quem Elza Paxeco foi casada?
Com o filólogo José Pedro Machado, com quem se casou em Lisboa, em 4 de setembro de 1940. Os dois assinaram juntos a edição crítica do Cancioneiro da Biblioteca Nacional e outros trabalhos de investigação sobre a língua portuguesa.
Onde encontrar os livros de Elza Paxeco?
As obras de Elza Paxeco estão esgotadas nas livrarias comerciais e circulam principalmente no mercado de livros raros e alfarrabistas. O Cancioneiro da Biblioteca Nacional aparece ocasionalmente em sebos especializados, e títulos como Estudos em Três Línguas podem ser localizados em livrarias de antiguidades em Portugal. Vale acompanhar os catálogos desses estabelecimentos e as fichas bibliográficas da PORBASE.
Um legado redescoberto
Mesmo com o currículo incomum, a memória de Elza Paxeco ficou por décadas restrita aos círculos acadêmicos. Em 2012, o centenário de nascimento passou sem homenagem oficial da Faculdade de Letras, fato registrado por pesquisadores e por familiares. A retomada veio por iniciativas isoladas: em 2026, artigo do pesquisador Leopoldo Gil Dulcio Vaz, publicado no portal Facetubes, chamou a atenção para o apagamento de sua trajetória na própria cidade natal e para a dívida da memória maranhense com sua primeira grande doutora. O conjunto da obra, da filologia românica à edição de cancioneiros medievais, mantém Elza Paxeco entre as estudiosas mais consistentes da língua portuguesa no século XX. Quem se interessa por literatura e por educação encontra nela uma referência para entender como a pesquisa linguística brasileira e portuguesa se cruzou.



