Emir Sader publicou A Vingança da História em 2003, mesmo ano em que o Brasil iniciava o primeiro governo de Lula, e levou para o centro do debate uma tese que atravessaria toda a sua obra seguinte: a de que o país havia entrado em um ciclo pós-neoliberal, cujos limites ainda estavam por ser compreendidos. Sociólogo e cientista político, ele se tornou uma das presenças mais constantes do debate público brasileiro — em livros, coletâneas, colunas, redes sociais e entrevistas —, com trânsito consolidado tanto na universidade quanto nas redes acadêmicas latino-americanas.
Formado pela Universidade de São Paulo (USP), onde se graduou em filosofia e fez mestrado em filosofia política e doutorado em ciência política, Sader lecionou na própria instituição, primeiro como professor de filosofia e depois de ciência política. Também foi professor de política na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Hoje, é professor aposentado da USP e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde coordena o Laboratório de Políticas Públicas.
Da ditadura ao exílio: a formação marxista
De família de origem libanesa, Sader teve a trajetória acadêmica atravessada pela ditadura militar, período em que viveu no exílio. Naqueles anos, trabalhou como pesquisador do Centro de Estudos Socioeconômicos da Universidade do Chile, onde o pensamento crítico latino-americano fervilhava em torno de temas como dependência, desenvolvimento e revolução.
A leitura marxista, amadurecida nesse período, se tornaria o eixo de sua obra. É o que mostra Estado e Política em Marx, em que revisita as formações sociais e a relação entre política, economia e Estado no capitalismo para entender como as elites preservam o poder político. O livro, publicado originalmente pela editora Cortez e reeditado pela Boitempo em 2014, é uma das entradas mais diretas para o método que Sader aplicaria depois à análise da política brasileira e latino-americana. Ao longo das décadas, ele combinou a pesquisa teórica com a colaboração em publicações nacionais e estrangeiras — uma rotina de intelectual que também explica sua presença frequente na imprensa.
CLACSO, ALAS e a construção da rede latino-americana
A atuação de Sader não se limitou à sala de aula. Ele presidiu a Associação Latino-Americana de Sociologia (ALAS) entre 1997 e 1999 e dirigiu o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) entre 2006 e 2012, período em que a entidade se consolidou como uma das principais plataformas de pesquisa crítica da região. Também integra o conselho editorial da New Left Review, revista teórica publicada em Londres, e participou da articulação do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.
Nesse cruzamento entre pesquisa e edição, organizou ao lado de Ivana Jinkings a Latinoamericana: Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe, obra que recebeu o primeiro lugar do Prêmio Jabuti de 2007 na categoria Ciências Humanas. O envolvimento com o debate sobre o fim do ciclo neoliberal vinha de antes: em 1995, Sader organizou Pós-neoliberalismo: as políticas sociais no Brasil, um dos primeiros títulos brasileiros a colocar o termo em circulação. O trabalho editorial seguiu em coletâneas e também no diálogo com outros intelectuais — caso de Contraversões, livro de conversas que assinou com Frei Betto.
Lula, Dilma e a disputa em torno do pós-neoliberalismo
Os governos do PT deram à obra de Sader seu tema mais duradouro. Em A Vingança da História (2003), o sociólogo analisou as heranças do governo Fernando Henrique Cardoso e os desafios da esquerda recém-chegada ao poder federal. Seis anos depois, A Nova Toupeira (2009) mapeou os caminhos da esquerda latino-americana em um continente que via governos de centro-esquerda se multiplicarem, da Venezuela ao Brasil.
A reflexão se aprofundou em 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma (2013), coletânea organizada por ele que reuniu textos de Marilena Chauí, Luiz Gonzaga Belluzzo, Marcio Pochmann, José Luís Fiori e Paulo Vannuchi, entre outros, além de uma entrevista com Lula. O volume, coeditado com a Flacso Brasil, ajudou a consolidar o termo “pós-neoliberal” no debate nacional — vocabulário que Sader já explorava desde os anos 1990. Para quem pesquisa a política brasileira dos anos 2000, a coletânea funciona como uma radiografia das apostas e das tensões daquele ciclo.
As análises de Sader também circulam fora do país. Ele é presença frequente em encontros, entrevistas e programas de debate na América Latina, onde costuma tratar das disputas entre projetos neoliberais e pós-neoliberais, do papel dos governos de esquerda e do cenário geopolítico global. Nos últimos anos, participou de entrevistas e seminários na Argentina e em outros países latino-americanos, discutindo eleições, integração regional e as transformações da ordem internacional.
Onde acompanhar o trabalho de Emir Sader hoje
A produção de Sader segue ativa em três frentes principais:
- Livros e coletâneas publicados pela Boitempo, que mantém uma página dedicada à sua obra;
- Colunas de análise política na Revista Fórum, onde comenta a conjuntura brasileira e latino-americana;
- Redes sociais, com o perfil @emirsader no X, onde publica comentários e artigos.
Na UERJ, o Laboratório de Políticas Públicas que coordena mantém seu vínculo com a pesquisa acadêmica sobre Estado e políticas públicas. Quem acompanha o debate político brasileiro pelo prisma da esquerda encontra em Sader uma leitura ancorada em meio século de bibliografia — de Marx à experiência dos governos do PT. Para navegar por esse campo, a página de política do site reúne outros nomes do debate nacional.





