A livre-docência que Marilena Chauí defendeu em 1977 já trazia no título o livro que o público só encontraria nas livrarias em 1999: A nervura do real. Entre a tese na USP e o volume da Companhia das Letras, ela atravessou a ditadura, entrou na fundação do PT e ocupou a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.
Quem busca o nome hoje quase nunca pede só o cargo. Pede a autora de Convite à Filosofia, o didático da Ática que pôs filosofia na escola, ou a ensaísta que descreve o Brasil como sociedade autoritária. O fio começa em Pindorama, no interior paulista, em 4 de setembro de 1941, e se prende ao Departamento de Filosofia da USP.
Quem é Marilena Chauí
Marilena de Souza Chauí é filósofa, escritora e professora emérita de História da Filosofia Moderna na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Filha do jornalista Nicolau Alberto Chauí e da professora Laura de Souza Chauí, formou-se em Filosofia na USP em 1965.
O nome anda em três registros que não se separam: a leitura de Baruch Espinosa, o ensino de filosofia e a intervenção política. Em 2017 a FFLCH deu-lhe o título de professora emérita. O próprio departamento já a registrava, em 1986, como professora titular de História da Filosofia Moderna.
De Merleau-Ponty a Espinosa
O mestrado, de 1967, chama-se Merleau-Ponty e a crítica do humanismo e teve orientação de Bento Prado de Almeida Ferraz Júnior. No mesmo ano ela deixou a aula no ensino médio em São Paulo e abriu o doutorado sobre Espinosa, orientada por Gilda Rocha de Mello e Souza. A tese, Introdução à leitura de Espinosa, fechou em 1971.
No fim dos anos 1960, com esse trabalho em curso, Chauí passou dois anos na Universidade de Clermont-Ferrand, junto de Victor Goldschmidt. A livre-docência de 1977, A nervura do real: Espinosa e a questão da liberdade, já punha na mesa liberdade, servidão, imanência e necessidade. Em 1987 o departamento registra um pós-doutorado na Bibliothèque Nationale de Paris.
A página do Departamento de Filosofia da USP lista a linha de História da Filosofia e a especialização em História da Filosofia Contemporânea, ao lado da titularidade em moderna. O desencontro de rótulos cabe no trabalho: Espinosa é do século XVII, mas a leitura que ela faz dele fala com política, cultura e o presente.
O que ela chama de sociedade autoritária
Fora do comentário a Espinosa, a frase mais associada a Chauí trata o Brasil como um lugar em que diferença vira desigualdade e desigualdade vira mando. A formulação está em Conformismo e resistência e atravessa Brasil: mito fundador e sociedade autoritária, publicado em 2000 pela Fundação Perseu Abramo.
Não é um adjetivo de comício. É um diagnóstico de hierarquia cotidiana: o superior manda, o inferior obedece, e a democracia emperra quando essa relação parece natural. Em aulas e entrevistas ela liga esse autoritarismo social à falta de direitos e à força das narrativas dos meios de comunicação.
Ditadura, PT e a pasta da Cultura
Chauí descreveu os anos da ditadura como tempo de medo, em que sair de casa não garantia a volta, e falou de universidades vigiadas, escutas em sala e exílio de docentes. Com outros professores, participou de uma rede que abrigava perseguidos e tentava saber se os presos continuavam vivos, enquanto usava filósofos antigos para criticar o autoritarismo.
Na década de 1980 entrou na fundação do Partido dos Trabalhadores, legenda da qual segue militante. De 1989 a 1992 foi secretária municipal de Cultura de São Paulo no governo de Luiza Erundina. O cargo pôs a filósofa dentro da máquina da cidade. Naquele período, criticou em público Paulo Maluf e o tipo de promessa que, dizia, nenhum administrador honesto faria.
Livros que marcam fases, não uma vitrine
Cada título responde a uma função diferente da trajetória:
- O que é ideologia, de 1980, na coleção Primeiros Passos da Brasiliense, tirou o conceito da sala fechada.
- Cultura e democracia, de 1981, recebeu o prêmio de melhor livro brasileiro de não ficção da Associação Paulista de Críticos de Arte.
- Convite à Filosofia, da Ática, levou o Jabuti de livro didático e ainda é o volume que a escola associa ao nome dela.
- A nervura do real, de 1999, e o segundo volume, de 2016, ambos na Companhia das Letras, concentram décadas de leitura de Espinosa. O primeiro ganhou o prêmio Sérgio Buarque de Holanda da Biblioteca Nacional em 1999 e o Jabuti de ciências humanas em 2000. O segundo recebeu o Jabuti de 2017.
Há dezenas de outros livros, de Repressão sexual a Simulacro e poder e Manifestações ideológicas do autoritarismo brasileiro. Quem chega pela educação costuma parar no Convite. Quem chega pela política encontra o mito fundador, a ideologia e a secretaria de Cultura.
Honras que não apagam o desacordo
Além dos Jabutis, Chauí recebeu o título de doutora honoris causa da Universidade Paris 8, em 2003, da Universidad Nacional de Córdoba, em 2004, e da Universidade de Brasília, em 2018. A lista pública inclui ainda a Universidad Nacional de San Juan e a Universidade Federal de Sergipe. Em 1992 a França concedeu-lhe as Palmes académiques.
Nada disso fecha os desacordos. Em 1981, José Guilherme Merquior acusou-a, no Jornal do Brasil, de calcar formulações em Claude Lefort. Chauí respondeu que a influência era profunda e que transitava entre as ideias sem disfarce. Colegas como Roberto Romano e Maria Sylvia de Carvalho Franco saíram em defesa. Anos depois, Romano escreveu que se sentiu deixado de lado quando ela pediu silêncio até que o próprio Lefort se pronunciasse.
Em 2013, um corte de palestra em que ela dizia odiar a classe média, tratada como fascista, violenta e ignorante, circulou longe do restante da fala. Em maio de 2016, à Folha de S.Paulo, afirmou que a sociedade brasileira estava “prontinha” para um “universo fascista”, chamou o impeachment de Dilma Rousseff de golpe e a Ponte para o Futuro de “pinguela para o passado”. Em julho do mesmo ano, em vídeo e em falas repercutidas pela imprensa, disse que Sergio Moro teria sido treinado pelo FBI e ligou a Lava Jato à disputa pelo pré-sal. São posições dela, registradas na época, não um laudo sobre os fatos que ela apontava.
Onde o nome continua
Marilena Chauí segue ligada à USP como professora emérita. O endereço público estável é a página do departamento, não um canal próprio. A obra circula nos livros, nas aulas e nas entrevistas. Para o detalhe de Espinosa, o caminho é A nervura do real. Para a porta da filosofia escolar, é o Convite. Para o conceito que ela tornou palavra de uso comum, é O que é ideologia.





