A nervura do real leva às livrarias, em 1999, um trabalho que Marilena Chauí já defendia na USP em 1977. O subtítulo diz o assunto sem atalho: imanência e liberdade em Espinosa. Não é introdução para a primeira aula. É o livro em que ela discute, por centenas de páginas, o que acontece quando Espinosa escreve “Deus, ou seja, a Natureza”.
A tradição que ela confronta imagina um ser supremo fora do mundo, que cria as coisas por vontade e entrega ao ser humano o livre-arbítrio. Espinosa, no recorte de Chauí, recusa essa cena. O absoluto é imanente ao universo, e as coisas são efeitos necessários da sua ação. O ponto em disputa, e o motivo do calhamaço, é se essa necessidade apaga a liberdade ou se, ao contrário, a torna possível.
De onde o volume saiu
A livre-docência de 1977 já se chamava A nervura do real: Espinosa e a questão da liberdade. O livro da Companhia das Letras, lançado em 12 de março de 1999, é o fruto público desse percurso, não um ensaio de ocasião. A editora descreve a obra como resultado de mais de trinta anos de estudo. A ficha da casa registra cerca de 1.240 páginas, formato 16 por 23 centímetros, ISBN 978-85-716-4840-1.
Em 1999 o livro recebeu o prêmio Sérgio Buarque de Holanda de melhor livro brasileiro de ensaios, da Biblioteca Nacional. Em 2000 veio o Jabuti de ciências humanas. O Estado de S. Paulo também lhe deu, naquele ano, o Prêmio Multicultural pelo conjunto da obra e por este título.
O que Chauí recusa na leitura de Espinosa
Há quem conclua que, para Espinosa, liberdade humana é impossível, porque tudo seria necessário. Chauí escreve contra essa conclusão. A tese do volume é que a imanência de Deus à Natureza é a condição dos seres individuais e da liberdade deles, não o seu cancelamento. Liberdade, aqui, não é um gesto sem causa. É um modo de existir dentro de uma potência que não está fora do mundo.
O leitor encontra história da filosofia, comentário da Ética e uma briga com a tradição que trata a paixão como contingência impossível de conhecer. Esse é o mesmo eixo que o Departamento de Filosofia da USP registra nos projetos dela: afastar a imagem da vontade como livre-arbítrio e da razão como governo absoluto das paixões.
Quem consegue ler e quem deve esperar
O livro pede leitor que já aceitou Espinosa como problema, ou que está disposto a entrar devagar. Estudante de graduação em filosofia, professor, leitor de história da filosofia moderna: esse é o público. Quem procura a primeira explicação de ideologia, democracia ou aula de ensino médio tem outros títulos da autora, a começar pelo Convite à Filosofia e por O que é ideologia.
O segundo volume, de 2016, continua o argumento e trata a liberdade com outro fôlego. Não é reedição deste. Quem compra o livro de 1999 compra a parte da imanência. A liberdade, no recorte que a própria obra anuncia, segue no volume seguinte.
Por que o livro ainda se procura
A nervura do real é o lugar em que a filósofa mais conhecida pelo ensaio político mostra o ofício de comentadora. Sem esse volume, a autoridade dela pareceria só de conjuntura e de didático. Com ele, aparece o trabalho de décadas sobre um filósofo do século XVII, publicado por uma editora de circulação ampla, a Companhia das Letras, e reconhecido por dois prêmios de ensaio e de ciências humanas.
A edição impressa de 1999 é a referência. Exemplares somem e voltam no mercado de novos e usados. O que não muda é o objeto: um livro de Marilena Chauí sobre Espinosa, não um resumo e não uma coletânea de artigos soltos.




