O que é ideologia nasceu de um convite curto e virou o livro pelo qual muita gente ouviu falar em Marilena Chauí antes de saber que ela lia Espinosa. Em 1980, na coleção Primeiros Passos da editora Brasiliense, o volume 13 cabia no bolso e fazia uma pergunta que a escola e o jornal repetem até hoje: o que é, afinal, ideologia?
A resposta que a própria apresentação do livro adianta não é um dicionário. Ideologia aparece como mascaramento da realidade social, um modo de tomar o falso por verdadeiro e o injusto por justo, capaz de legitimar exploração e dominação. O texto pergunta como essa ilusão se fabrica, de onde vem e que efeitos tem na economia e na política.
O convite da Brasiliense
A revista Quatro Cinco Um reconstituiu a origem: numa reunião estava Caio Graco, editor da Brasiliense, que chamou Chauí para escrever o volume da coleção. A ideia dela, contada nessa conversa, era trazer para o conceito o que estava na propaganda, no cinema, no teatro e na música, em vez de deixar ideologia como vocabulário só de seminário.
O efeito foi de circulação. A mesma reportagem registra que o livro passou de cinquenta edições e continuou sendo lido décadas depois do lançamento. A coleção Primeiros Passos tinha esse desígnio: um tomo pequeno, uma pergunta grande, um autor capaz de não infantilizar o leitor. O número 13 ficou grudado no nome de Chauí.
O que o livrinho faz e o que ele não faz
Serve a quem precisa de uma entrada: estudante de humanidades, professor, leitor que topa com a palavra no noticiário e quer saber o que uma filósofa brasileira faz com ela. Não serve a quem busca o comentário da Ética. Também não é um panfleto de partido, embora a autora seja militante do PT e a definição que ela usa tenha dívida clara com a tradição que pensa a sociedade dividida em classes.
O miolo organiza mecanismos, fins e efeitos. Quem espera uma lista de “ideologias” como se fossem etiquetas de partido vai encontrar outra coisa: um sistema de representações e de normas que diz aos membros de uma sociedade o que pensar, o que valorizar e o que fazer. Essa formulação Chauí retomou, com mais fôlego, em livros posteriores.
A versão de 2025 não apaga a de 1980
Em 2025 a Boitempo publicou Ideologia: uma introdução, apresentado como atualização do clássico. A Quatro Cinco Um descreve dois acréscimos: um capítulo sobre o discurso competente, a transformação do saber em instrumento de mando numa sociedade autoritária, e um texto sobre a ideologia neoliberal e a técnica. É outro livro, de outra editora, com capítulos novos. Não é a mesma brochura da Brasiliense com capa trocada.
Por isso o volume de 1980 continua a ser o item de quem procura a coleção Primeiros Passos, o número 13 e a formulação que circulou na redemocratização. O de 2025 interessa a quem quer o acréscimo recente. Os dois conversam. Quem compra um não leva o outro de brinde.
Por que o título ainda explica a autora
Sem O que é ideologia, Chauí seria sobretudo a professora de Espinosa e a autora do didático. Com ele, ela se tornou a filósofa que o leitor não especialista chama quando a palavra ideologia aparece. A Brasiliense foi a casa dessa popularização. O exemplar da coleção, em edição impressa, é o objeto certo para essa busca — pequeno, direto e anterior aos ensaios longos sobre o mito fundador e a competência.




