A nervura do real II fecha, em 2016, o caminho que Marilena Chauí abriu em público em 1999. O subtítulo repete a fórmula e muda o peso: imanência e liberdade em Espinosa, agora com a liberdade na frente do problema. Não é capa nova do primeiro volume. É outro livro, com outro ISBN e outra pergunta.
A Companhia das Letras apresentou o volume como a continuação de um estudo que já tinha causado debate. O alvo é a liberdade em Espinosa, talvez o ponto em que a filosofia dele mais incomoda o leitor moderno. A tese anunciada pela própria obra é direta: a necessidade sem condição da potência infinita da Natureza, da qual somos uma expressão, é a condição da liberdade humana.
Ficha que ajuda a não confundir os volumes
O lançamento é de 26 de julho de 2016. A ficha da editora indica 712 páginas, formato 16 por 23 centímetros, brochura, ISBN 978-85-359-2759-7. O primeiro volume, de 1999, passa de mil páginas e trata a imanência como alicerce. Este segundo enfrenta o que aquela base permite dizer sobre agir, querer e ser livre.
Em 2017 o livro recebeu o Jabuti de ciências humanas. Foi o terceiro Jabuti associado ao nome de Chauí, depois do didático Convite à Filosofia e do primeiro volume da Nervura. O prêmio não transforma o texto em leitura fácil. Marca que o ofício de comentário, e não só o ensaio de conjuntura, continuava no centro da obra.
Que liberdade é essa
O leitor que chega com a ideia de livre-arbítrio — escolher sem causa, como se a vontade fosse um ponto fora do mundo — não encontra confirmação. Chauí insiste no gesto de Espinosa: recusar a vontade solta e, mesmo assim, falar em liberdade. A liberdade não é exceção à necessidade. É o que um ser finito pode quando entende que faz parte de uma potência infinita.
Por isso o volume interessa a quem já leu o primeiro, ou a quem chega de outra porta — ética, política, afetos — e topa o vocabulário da Ética. Psicanálise e biologia aparecem na apresentação da editora como campos que voltaram a ler Espinosa. O livro, porém, não é um manual dessas áreas. É filosofia, escrita por quem orienta o tema na USP desde a livre-docência.
Quando comprar este e não o outro
Quem quer o início do argumento e o Jabuti de 2000 procura o volume de 1999, quando ele estiver disponível. Quem quer o desfecho sobre a liberdade, o livro que a editora manteve à venda e o Jabuti de 2017, procura este. Os dois se citam. Não se substituem.
Também não substituem o Convite à Filosofia. Aula de ensino médio e comentário da Ética são trabalhos diferentes, feitos pela mesma autora em momentos diferentes da carreira. Misturar os três numa “obra completa” genérica esconde justamente o que cada um faz.
O lugar do livro na trajetória
A nervura do real II mostra Chauí tarde na carreira ainda dentro do mesmo problema de 1977, não saltando de assunto a cada conjuntura. Ditadura, secretaria, PT e ensaios sobre o Brasil continuam nela. O volume de 2016 lembra que o centro teórico permaneceu Espinosa. A Companhia das Letras é a casa dos dois volumes. A edição impressa de 2016 é o item certo para quem busca este desfecho, não uma reimpressão disfarçada do livro de 1999.




