Ernesto Quissak abriu a primeira exposição individual de um artista em Guaratinguetá, em 1917, na sede da Sociedade Operária. Quarenta e cinco anos depois, seu nome foi gravado na Escola Estadual Professor Ernesto Quissak, criada por lei estadual no bairro Engenheiro Neiva. Entre esses dois marcos, ele atravessou a pintura acadêmica, a fotografia, a poesia e o ensino público, tornando-se uma das figuras que organizaram a vida cultural da cidade.
Nascido em 1.º de abril de 1891, no bairro da Estalagem — atual São Benedito —, foi registrado como Ernesto Leme Barbosa, filho de José Agostinho Leme Barbosa e Gabriela Pereira Barbosa. O sobrenome artístico veio do apelido do pai, "Quiçaca", adotado por ele quando trocou Guaratinguetá pelo Rio de Janeiro.
Da Estalagem à Boemia Literária do Rio
Em 1906, aos 15 anos, mudou-se para a então capital federal com a intenção de aprender pintura. Para se manter, trabalhou como auxiliar de fotógrafo e acabou se profissionalizando no ofício. Ingressou na Escola Nacional de Belas Artes, onde foi aluno de João Batista da Costa e Rodolfo Amoedo, nomes centrais do academismo brasileiro.
No Rio, passou a integrar a chamada Boemia Literária, círculo que reunia artistas e intelectuais como Olavo Bilac, Guttmann Bicho, Emílio de Meneses e Agripino Grieco — este último responsável pelo apelido "Sansão dos Boêmios". Os relatos da época o descrevem como um dândi, que chamava atenção pela elegância, pelo rosto imberbe e pelo uso de fraque, monóculo e polainas até o primeiro casamento, quando abandonou o figurino.
Fotógrafo, professor e pintor em Guaratinguetá
Quissak voltou a Guaratinguetá em 1917, ano de sua primeira exposição individual, realizada na Sociedade Operária. Em 1919 viveu em São Bento do Sapucaí e, por volta de 1921, estava de volta à cidade natal, onde aparece no Almanak Laemmert como fotógrafo ativo até 1926 — registro de um estúdio em funcionamento num período em que a fotografia ainda era ofício de poucos.
Nas décadas seguintes, lecionou desenho, modelagem e trabalhos manuais na rede pública paulista por cerca de quarenta anos. Passou pela Escola Normal de Casa Branca e pela Escola Normal de Guaratinguetá, onde atuou por mais de trinta anos e chegou a diretor. Também deu aulas no Ginásio Nogueira da Gama e, no Instituto Caetano de Campos, em São Paulo, presidiu a banca examinadora de Desenho Pedagógico dos concursos de ingresso no magistério, além de ajudar a criar o Curso de Aperfeiçoamento de Desenho, Desenho Pedagógico e Trabalhos Manuais.
Em 1932, lutou como combatente na Revolução Constitucionalista, no front de Cunha. Na mesma época, manteve ateliê de pintura e ajudou a consolidar uma classe artística local ao lado de nomes como Teixeira Machado, João Dorat, Vieira Paes, Theodoro Meirelles, Homero Novaes e o filho Quissak Júnior. O grupo trocava conhecimento, promovia exposições e movimentava a vida cultural da cidade.
Salões, prêmios e a recepção da crítica
A produção de Quissak segue a linha da Escola Nacional de Belas Artes, com destaque para a pintura de paisagem. Em 1922, apresentou na Exposição Geral de Belas Artes, no Rio de Janeiro, as telas "Águas Tranquilas", "Fazenda Velha" e "Sol de Maio". A Revista Fon-Fon reproduziu os trabalhos e escreveu que "Águas Tranquilas" era "talvez o melhor quadro que o jovem pintor mandou ao Salon", elogiando o colorido, o método e a uniformidade da composição.
Em 1923, veio a Menção Honrosa de Primeiro Grau na Exposição Geral. Depois, participou do 1.º Salão Paulista de Belas Artes, em 1934, do 2.º, em 1935, e do 3.º, em 1935-1936, colecionando menções. Em 1935, a coluna "Bellas-Artes", publicada em O Jornal, descreveu suas telas como resultado da combinação de "uma profunda e sensibilíssima natureza artística" com "um dos mais assombrosos recantos da vida paisagística brasileira".
Na década de 1940, recebeu a Medalha de Bronze no Salão do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul, em 1940, e no 8.º Salão Paulista de Belas Artes, em 1942. Também apresentou "Quartel General" no Salão Nacional de Belas Artes de 1941 e "Vale do Paraíba" na 47.ª Exposição de Artes Plásticas.
Os painéis do convento e o autorretrato no museu
Em 1935, assumiu os trabalhos de ornamentação do convento franciscano de Nossa Senhora das Graças, em Guaratinguetá, iniciados pelo pintor catarinense Pedro Luz e abandonados por falta de pagamento. Quissak executou sete pinturas afixadas às paredes do convento com a técnica de marruflagem e não cobrou pelo serviço.
Quatro anos depois, atendeu ao convite do diretor Oswaldo Teixeira para integrar a galeria de autorretratos de artistas brasileiros do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. O retrato que enviou passou a fazer parte do acervo da instituição. Em 1958, foi nomeado diretor da Casa de Cultura de Guaratinguetá, reaberta em fevereiro daquele ano. No mesmo período, seu filho Quissak Júnior criou a bandeira do município, entregue ao prefeito André Alckmin Filho em 18 de setembro de 1958 e regulamentada pela lei municipal 530, daquele ano.
Ernesto Quissak morreu em 5 de novembro de 1960, em Guaratinguetá. Dos filhos, apenas Quissak Júnior seguiu profissionalmente a carreira artística. O neto Sérgio Quissak também atua nas artes visuais, mantendo o sobrenome ligado à produção artística da família.
Homenagens e memória
A cidade preserva o nome do professor em diferentes espaços:
- Escola Estadual Professor Ernesto Quissak, no bairro Engenheiro Neiva, nomeada por lei estadual de 16 de novembro de 1962.
- Premiação para jornalistas de Guaratinguetá criada em 1964, que também leva o nome do artista.
- Rua no bairro do Campinho, em Guaratinguetá.
- Salão Municipal Acadêmico de Artes Plásticas "Professor Ernesto Quissak", que chegou à 34.ª edição em 2019, premiando artistas da região por pinturas clássicas e acadêmicas.
A trajetória do artista é reunida no livro Ernesto Quissak em prosa e verso, de Maria Luiza de Paula Santos, premiado em 2005 pelo Instituto de Estudos Valeparaibanos. A obra reúne poesia, prosa, crítica e textos humorísticos que ele publicou ao longo da vida, além de depoimentos e documentos sobre sua atuação.
Por onde começar a conhecer Ernesto Quissak
Quem procura o artista hoje encontra telas de 1922 documentadas em reproduções de época, um autorretrato no acervo do Museu Nacional de Belas Artes e registros de sua passagem pela fotografia e pela imprensa. Vale acompanhar os acervos de fotografia e a produção de literatura brasileira que dialogam com sua obra.
A trajetória mostra como uma cidade média do interior paulista formou, no início do século XX, um circuito próprio de arte, ensino e imprensa — e como um de seus artistas transitou entre o ateliê, a sala de aula, o jornal e o salão de belas artes.




