Fernando Brant entrou na música por um convite de amigo. Em 1966, Milton Nascimento pediu que ele colocasse letra em uma melodia nova, e o resultado foi "Travessia", canção inspirada em Grande Sertão: Veredas que ganhou o segundo lugar no II Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro, e abriu caminho para uma das parcerias mais duradouras da música brasileira. A partir dali, o rapaz que lia e assistia a filmes em Belo Horizonte se tornou um dos letristas centrais do Clube da Esquina.
Brant nasceu em Caldas, no sul de Minas Gerais, em 9 de outubro de 1946, e morreu em Belo Horizonte em 12 de junho de 2015, aos 68 anos. Entre uma data e outra, assinou mais de 200 canções com Milton Nascimento, escreveu crônicas e livros, criou roteiros para balés, teatro, cinema e novelas e presidiu a União Brasileira de Compositores (UBC), entidade que representa autores musicais no país. As canções que ajudou a criar seguem sendo gravadas e cantadas por artistas de diferentes gerações.
Quem foi Fernando Brant
Compositor, letrista e jornalista, Fernando Rocha Brant foi uma das vozes do movimento que ficou conhecido como Clube da Esquina, turma de músicos mineiros que misturou bossa nova, jazz, rock, música folclórica e erudita. Enquanto Milton Nascimento, Lô Borges, Toninho Horta e Wagner Tiso cuidavam das melodias e dos arranjos, Brant escrevia letras sobre infância, amizade, despedida e o cotidiano das cidades, ao lado de parceiros como Márcio Borges e Tavinho Moura.
Em cinco décadas de trabalho, ele atuou em várias frentes:
- letrista de canções que marcaram a música popular brasileira, em parceria com Milton Nascimento, Lô Borges, Tavinho Moura e Nelson Angelo;
- cronista de cultura do jornal Estado de Minas, entre 2001 e 2014;
- autor de livros de crônicas, de memória e de literatura infantil;
- presidente da União Brasileira de Compositores (UBC), na defesa dos direitos autorais;
- roteirista de balés, espetáculos de teatro, trilhas de cinema e novelas.
De Caldas a Belo Horizonte: a formação de um letrista
Nascido em Caldas, Brant mudou-se com a família para Diamantina aos 5 anos e, aos 10, para Belo Horizonte. Estudou no Grupo Barão do Rio Branco, no Colégio Arnaldo, no Colégio Batista Mineiro e no Colégio Estadual Central, antes de concluir o ensino médio no recém-criado Colégio Técnico da UFMG. Leitor voraz e cinéfilo, formou-se em Direito como o pai e começou a trabalhar como jornalista, escrevendo para publicações como O Cruzeiro, A Cigarra e os Diários Associados.
Foi nesse ambiente de leituras, discos e cineclubes que ele conheceu Milton Nascimento e Márcio Borges, amigos que o levariam para a música. O convite de Milton, em 1966, mudou o rumo da carreira: a letra de "Travessia" mostrou que o jornalista tinha ouvido para imagem e ritmo, e logo ele estava escrevendo para as melodias do grupo que se reunia na esquina que batizou o Clube da Esquina.
A parceria com Milton Nascimento e as canções do Clube da Esquina
Com Milton Nascimento, Fernando Brant formou uma das duplas mais férteis da música brasileira. São mais de 200 canções, entre faixas de discos antológicos e composições que atravessaram gerações. "Travessia" abriu a porteira em 1967, no disco de estreia de Milton; em 1972 veio o álbum Clube da Esquina, e em 1978, Clube da Esquina 2, que traz "Maria, Maria".
- "Travessia";
- "Maria, Maria";
- "Canção da América";
- "Ponta de Areia";
- "Paisagem da Janela";
- "Nos Bailes da Vida";
- "Encontros e Despedidas";
- "San Vicente";
- "Saudade dos Aviões da Panair (Conversando no Bar)";
- "O Vendedor de Sonhos".
Muitas dessas letras nasceram de lembranças concretas: cenários mineiros, viagens, a cidade grande e a amizade como assunto. "Canção da América" virou uma das canções brasileiras mais conhecidas sobre despedida e amizade, cantada em coro há décadas. A parceria com Milton não impediu Brant de escrever com outros nomes do Clube da Esquina — ele assinou canções como "Canoa, Canoa" (com Nelson Angelo) e "Paixão e Fé" (com Tavinho Moura), além do musical Fogueira do Divino, criado ao lado de Tavinho Moura.
Livros, crônicas e a cidade como personagem
Brant manteve o hábito da prosa ao longo de toda a carreira. Foi colunista de cultura do Estado de Minas entre 2001 e 2014, período de que saiu boa parte das crônicas reunidas em seus livros. Na memória e na crônica, Belo Horizonte ocupa papel central: o Mercado Central, os bares, as ruas e os tipos da cidade aparecem em títulos como BH, a cidade de cada um e Clube dos gambás. Ele também escreveu para crianças, em livros que unem poesia e imagem.
- Clube dos gambás (2004), reunião de crônicas sobre política, literatura, música e vida pessoal;
- Casa Aberta (2012), crônicas publicadas no Estado de Minas que atravessam o luto e a chegada de uma nova geração;
- BH, a cidade de cada um, vol. 2: Mercado Central (2012), sobre o mercado mais famoso da capital mineira;
- Chico, o caminhador (2005), livro infantil feito com as imagens de Ana Raquel;
- Maria Maria (2005), assinado com Milton Nascimento.
Direitos autorais: a atuação na UBC
A partir dos anos 1980, Brant presidiu a União Brasileira de Compositores, entidade que arrecada e distribui direitos de autores e editores musicais. No cargo, tornou-se uma das vozes públicas da defesa dos direitos autorais no Brasil, tema que ganhou ainda mais peso com a chegada da internet e do streaming. Em 2014, participou da audiência pública no Supremo Tribunal Federal sobre alterações na Lei de Direitos Autorais, um dos debates mais importantes daquele período para o setor musical.
Essa frente de trabalho explica uma parte menos lembrada da trajetória: para além do letrista, Brant foi um articulador do setor musical, atuando em entidades e em debates públicos sobre o lugar do autor na cultura brasileira.
Morte e legado
Fernando Brant morreu na noite de 12 de junho de 2015, em Belo Horizonte, por complicações após um segundo transplante de fígado. No velório, amigos cantaram versos de "Travessia" e "Canção da América", e o caixão foi coberto com a bandeira do América Futebol Clube, time da capital mineira.
O que fica é uma obra que ajudou a definir o som de Minas Gerais e uma maneira de escrever: letra como conversa, imagem e memória. As canções seguem na voz de Milton Nascimento e de dezenas de intérpretes; os livros continuam encontrando leitores; e o Clube da Esquina permanece como um dos capítulos mais originais da música popular brasileira. Para quem quer entender a literatura de memória mineira, seus livros de crônicas também são uma porta de entrada para a literatura feita em Minas.
Quem pesquisa Fernando Brant costuma chegar pelas canções — "Travessia", "Maria, Maria", "Canção da América" — e descobre, no caminho, o cronista, o jornalista e o defensor dos direitos autorais. É essa soma que faz dele uma figura central da cultura brasileira do século 20.






