Francisco de Aquino Correia foi o mais jovem bispo do mundo no início do século XX, governou Mato Grosso entre 1918 e 1922 e se tornou o primeiro mato-grossense a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Nascido em Cuiabá, em 2 de abril de 1885, filho de Antônio Tomás de Aquino Correia e Maria de Aleluia Guadie Ley, morreu em São Paulo, em 22 de março de 1956, deixando uma obra que mistura poesia, discursos sacros, geografia e história.
Conhecido como Dom Aquino, ele foi sacerdote salesiano, bispo, arcebispo de Cuiabá por 35 anos, orador e homem público. A trajetória ajuda a entender três mundos que, na virada do século XIX para o XX, andavam juntos no Brasil: a educação religiosa, a política regional e a vida literária. Quem chega ao nome pelo município de Dom Aquino, no Vale do Rio São Lourenço, encontra nesta página a história do arcebispo e escritor de mesmo nome.
De Cuiabá a Roma: a formação de Dom Aquino
Francisco de Aquino Correia iniciou os estudos no Colégio São Sebastião e passou pelo Seminário da Conceição antes de frequentar o Liceu Salesiano de São Gonçalo, onde recebeu o grau de bacharel em Humanidades. Em 1902 entrou no Noviciado dos Salesianos de Dom Bosco, em Cuiabá, e no ano seguinte emitiu os votos religiosos na congregação fundada por João Bosco.
Em 1904 seguiu para Roma, onde cursou filosofia e se matriculou simultaneamente na Pontifícia Universidade Gregoriana e na Academia São Tomás de Aquino, doutorando-se em teologia em 1908. Foi ordenado sacerdote em 17 de janeiro de 1909. De volta ao Brasil, assumiu a direção do Liceu Salesiano de Cuiabá, cargo que ocupou até 1914 e que marcou sua ligação duradoura com a educação.
O mais jovem bispo do mundo e o governo de Mato Grosso
Em 1914, o papa Pio X nomeou-o bispo titular de Prússias e bispo auxiliar de Cuiabá. Investido em 1º de janeiro de 1915, aos 29 anos, tornou-se o mais jovem bispo do mundo à época. Em 1919, o papa Bento XV concedeu-lhe os títulos de Assistente do Sólio Pontifício e Conde Palatino.
O período também foi de atuação política. Em 1917, indicado pelo governo de Venceslau Brás como elemento conciliador, foi eleito presidente de Mato Grosso para o mandato de 1918 a 1922, assumindo aos 32 anos. De sua gestão saiu o atual brasão do estado, criado pela Resolução nº 799, de 14 de agosto de 1918. Em 1921, cancelou a cessão de terras estaduais a empresários norte-americanos ao saber que o projeto previa o recrutamento de colonos afro-americanos.
Arcebispo de Cuiabá por 35 anos
Com a morte de dom Carlos Luís d'Amour, foi elevado a arcebispo de Cuiabá em 26 de agosto de 1921, recebendo o pálio arquiepiscopal das mãos de dom Duarte Leopoldo e Silva, arcebispo de São Paulo. A entrada solene ocorreu em 16 de abril de 1922. Governou a arquidiocese até 1956, atravessando a Primeira República, a Era Vargas e a primeira metade dos anos 1950.
Como arcebispo, publicou cartas pastorais, pronunciou discursos e conferências e participou de congressos religiosos. Sua oratória sacro-civil era admirada em instituições culturais e religiosas; entre os textos mais lembrados estão a conferência sobre o Centenário do Bispado de Cuiabá, proferida no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a "Mensagem aos homens de letras" e "A verdade da Eucaristia", oração inaugural do V Congresso Eucarístico de Porto Alegre, em 1948.
Academia Brasileira de Letras e a cultura mato-grossense
Antes de chegar à ABL, Dom Aquino já atuava na vida cultural de seu estado. Tomou a iniciativa de fundar a Academia Mato-grossense de Letras, da qual seria aclamado presidente de honra, e criou o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, do qual foi eleito presidente perpétuo.
Em 9 de dezembro de 1926, foi eleito para a cadeira 34 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Lauro Müller, e recebido pelo acadêmico Ataulfo de Paiva em 30 de novembro de 1927. Dom Aquino foi o primeiro mato-grossense a ocupar uma cadeira da ABL. Décadas depois, outro escritor do Centro-Oeste, o goiano Bernardo Élis, também seria eleito acadêmico.
Como poeta, escreveu em quatro idiomas — português, latim, italiano e francês —, segundo a biografia mantida pela Academia Brasileira de Letras. A tag literatura reúne outros autores do mesmo campo no site.
As obras de Dom Aquino Correia
A produção literária de Dom Aquino acompanha as fases de sua vida: os versos de juventude, os discursos do período público e a poesia madura reunida em Nova et Vetera. Entre os títulos:
- Odes (1917), primeiro livro de versos;
- Terra Natal (1920), poemas de exaltação a Mato Grosso e ao Brasil;
- A Flor d'Aleluia (1926);
- Discursos (1927);
- O Brasil Novo (1932);
- Castro Alves e os Moços (1933);
- Oração aos Soldados (1937);
- Nova et Vetera (1947).
Escreveu ainda A Fronteira de Mato Grosso/Goiás, memória sobre os limites entre os dois estados, e Brasil em Genebra (1919). Suas cartas pastorais, ensaios e conferências circularam pela imprensa do país, e nem todos os textos foram reunidos em livro. Edições antigas de sua obra continuam disponíveis em sebos e bibliotecas, e parte dos títulos pode ser encontrada em plataformas de livros usados.
Morte, memória e legado
Francisco de Aquino Correia morreu em São Paulo, em 22 de março de 1956, aos 70 anos. Foi sepultado na Catedral Metropolitana Basílica do Senhor Bom Jesus, em Cuiabá, onde está seu jazigo. Sua trajetória se distribui por três frentes: a Igreja, que o teve como arcebispo por mais de três décadas; o estado de Mato Grosso, que governou e cujo brasão criou; e a literatura, que o levou à Academia Brasileira de Letras.
Para quem estuda a história de Mato Grosso, a formação do Centro-Oeste ou a poesia brasileira do início do século XX, Dom Aquino surge como personagem central. A biografia oficial na Academia Brasileira de Letras e o registro do Catholic-Hierarchy ajudam a acompanhar as datas de sua formação, ordenação, governo e morte.





