Bernardo Élis entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1975 como o primeiro goiano a ocupar uma cadeira da instituição. Eleito para a cadeira 1, sucedeu Ivan Lins e foi recebido por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira em dezembro daquele ano. O autor de Ermos e Gerais e O Tronco levou para a literatura um sertão de coronéis, jagunços, coletores de impostos e famílias em conflito — o mesmo mundo que conheceu de perto em Corumbá de Goiás, onde nasceu em 15 de novembro de 1915 e morreu em 30 de novembro de 1997.
Advogado, professor, poeta, contista e romancista, Bernardo Élis Fleury de Campos Curado deixou uma obra enxuta em quantidade e densa em consequência. Contos seus foram incluídos em antologias nacionais, como a organizada pelo crítico Alfredo Bosi, e seus livros seguem em catálogo em novas edições. Quem procura entender o regionalismo brasileiro do século XX encontra o nome dele ao lado de autores como João Guimarães Rosa, José Lins do Rego e Mário Palmério.
Quem foi Bernardo Élis?
Filho do poeta Érico José Curado e de Marieta Fleury Curado, aprendeu as primeiras letras em casa, com o pai. Passou parte de 1923 na casa do avô materno, na capital do estado, e depois voltou a Corumbá, onde seguiu estudando com o pai. Aos doze anos escreveu o primeiro conto, inspirado em "Assombramento", de Afonso Arinos. Em 1928 mudou-se com a família para a cidade de Goiás, então capital, e fez o curso ginasial no Liceu. Leu Machado de Assis, Eça de Queirós e os modernistas. Depois de dois anos com os estudos interrompidos, concluiu o curso clássico no Liceu de Goiânia em 1940 e formou-se em Direito em 1945, como orador da turma.
A vida pública começou em 1936, como escrivão da Delegacia de Polícia de Anápolis. Depois foi escrivão do cartório do crime de Corumbá. Desde 1934 participava da vida literária do Brasil central, publicando poesia e colaborações modernistas em jornais de Goiânia. Em 1939 transferiu-se para Goiânia, onde foi nomeado secretário da Prefeitura Municipal e chegou a exercer as funções de prefeito por duas vezes. Em 1942 tentou se fixar no Rio de Janeiro, levando um livro de poesias e outro de contos que não conseguiu publicar. Voltou a Goiás, fundou a revista Oeste e nela publicou o conto "Nhola dos Anjos e a cheia de Corumbá".
Como Ermos e Gerais marcou a estreia do escritor?
Em 1944, a Bolsa de Publicações de Goiânia lançou Ermos e Gerais: Contos Goianos. O livro de estreia teve boa acolhida da crítica nacional, e Monteiro Lobato resumiu o impacto com uma frase que ficou: "O livro está prejudicado pelo excesso de talento do autor", aconselhando o jovem escritor a "amansar o cavalo bravo de seu talento". No mesmo ano, Bernardo Élis casou-se com a poetisa Violeta Metran.
Em 1945 participou do 1º Congresso de Escritores de São Paulo, onde conheceu Aurélio Buarque de Holanda, Mário de Andrade e o próprio Monteiro Lobato. De volta a Goiânia, fundou a Associação Brasileira de Escritores e foi eleito presidente. O reconhecimento inicial se ampliou nas décadas seguintes, e contos dele passaram a integrar antologias organizadas por críticos como Alfredo Bosi.
Que retrato de Goiás aparece em O Tronco?
Publicado em 1956, O Tronco transforma em ficção as disputas entre os coronéis do sul e do norte de Goiás. O coletor de impostos Vicente Lemes tenta impedir a guerra, sonhando com uma sociedade de leis, mas acaba acirrando o conflito ao ser enviado justamente para a região dos Melo, seus parentes. A força do governo chega para defender interesses que não são os dele, e o personagem perde o controle da própria história em meio a uma luta sangrenta. O romance rendeu a Bernardo Élis o prêmio de romance da Câmara Brasileira do Livro e foi adaptado para o cinema em 1999 por João Batista de Andrade, com Ângelo Antônio, Letícia Sabatella, Chico Diaz, Rolando Boldrin e Antônio Fagundes no elenco. As gravações ocorreram em Pirenópolis.
Como o escritor atuou no ensino e na vida pública?
Bernardo Élis ingressou no magistério como professor da Escola Técnica de Goiânia e da rede pública estadual e municipal. Foi cofundador, vice-diretor e professor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade Federal de Goiás, passou a lecionar Literatura na Universidade Católica de Goiás e deu aulas em cursos preparatórios para vestibular. Promoveu o I Congresso de Literatura em Goiás, em 1953, e participou de congressos de escritores em São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Goiânia.
Foi exonerado da Universidade Federal de Goiás após o golpe de 1964. Entre 1970 e 1978, atuou como assessor cultural do Escritório de Representação do Estado de Goiás no Rio de Janeiro e depois reassumiu o cargo de professor na UFG. Foi diretor-adjunto do Instituto Nacional do Livro, em Brasília, de 1978 a 1985, e integrou o Conselho Federal de Cultura de 1986 até a extinção do órgão, em 1989. Em 1995, presidiu a Fundação Cultural Pedro Ludovico Teixeira, equivalente à Secretaria de Estado da Cultura de Goiás.
Quais são as principais obras de Bernardo Élis?
A produção reúne poesia, contos, romances e estudos históricos. Entre os títulos mais conhecidos estão:
- Ermos e Gerais (1944), contos;
- A terra e as carabinas (1951);
- Primeira chuva (1955), poesia;
- O Tronco (1956), romance;
- Caminhos e descaminhos (1965), contos;
- Veranico de janeiro (1966), contos;
- Caminhos dos gerais (1975);
- André Louco (1978);
- Apenas um violão (1984);
- Obra reunida de Bernardo Élis (1987).
O que a crítica destacou na linguagem do autor?
Mário de Andrade falou do "dom de impor na gente" a própria realidade como a qualidade principal de quem se dedica à ficção, e enxergava em Bernardo Élis a criação de uma realidade mais real que o real. A escrita combina fala coloquial goiana, termos e construções típicas da região, imagens de forte impacto visual e uma atenção constante aos pequenos dramas de gente humilde. A violência dos poderosos, o mandonismo dos coronéis e a vida precária no campo aparecem sem idealização, o que aproxima os contos do autor da melhor ficção social brasileira sem abrir mão da elaboração estética.
Quais prêmios Bernardo Élis recebeu?
O reconhecimento veio em prêmios importantes da literatura brasileira:
- Prêmio José Lins do Rego (1965);
- Prêmio Jabuti (1966), pelo livro de contos Veranico de janeiro;
- Prêmio Jabuti de romance, por O Tronco;
- Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, por Caminhos e descaminhos;
- Prêmio Sesquicentenário da Independência (1972), pelo estudo Marechal Xavier Curado, criador do Exército Nacional;
- Prêmio da Fundação Cultural de Brasília (1987), pelo conjunto da obra, e medalha do Instituto de Artes e Cultura de Brasília.
Em 1999, um júri de dez especialistas convocado pelo jornal O Popular elegeu Veranico de janeiro um dos vinte melhores livros goianos do século XX.
Por onde começar a ler Bernardo Élis?
Para quem nunca leu o autor, o caminho natural é começar pelos contos de Ermos e Gerais, que mostram o nascimento de sua voz, e seguir para O Tronco, o romance que condensou seus temas. Veranico de janeiro e as antologias de contos funcionam como porta de entrada para quem prefere narrativas curtas. As edições mais acessíveis em catálogo saem pela WMF Martins Fontes, pela José Olympio e pela Global, com seleções organizadas por estudiosos da obra.
O legado de Bernardo Élis permanece vivo nos cursos de Letras, nas pesquisas sobre literatura goiana e nas novas edições que mantêm seus livros em circulação. A tag literatura reúne outros autores do mesmo campo no site, e vale conhecer também a página de João Guimarães Rosa, escritor da mesma geração regionalista. O perfil na Academia Brasileira de Letras reúne a biografia oficial, a bibliografia e os discursos de posse do autor.





