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João Guimarães Rosa

Guimarães Rosa

Nascimento: 1908 Cordisburgo, Minas Gerais, Brasil
Médico, diplomata e escritor de Cordisburgo (1908–1967), autor de Grande Sertão: Veredas e da prosa que reinventou o sertão mineiro.

Na Cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras, João Guimarães Rosa chegou tarde e ficou pouco. Eleito por unanimidade em 1963, só tomou posse em 16 de novembro de 1967. Três dias depois, um infarto no Rio de Janeiro encerrou a vida do médico, diplomata e escritor de Cordisburgo — o mesmo que, no discurso de posse, deixou a frase que a memória pública ainda repete: a gente morre é para provar que viveu.

Nascido em 27 de junho de 1908, Rosa é o nome que a escola, o vestibular e a crítica costumam colocar no centro da terceira geração modernista. O romance Grande Sertão: Veredas (1956) virou a porta de entrada. A obra, porém, começa na estreia de Sagarana (1946), atravessa as novelas de Corpo de Baile e se aperta nos contos de Primeiras Estórias. Quem busca o nome hoje quer saber quem foi o homem por trás de Riobaldo, por que o sertão mineiro virou língua nova e por onde entrar sem se perder na fama do romance único.

Quem foi João Guimarães Rosa além do romance do sertão?

Foi o primeiro dos seis filhos de Francisca Guimarães Rosa, a Chiquitita, e de Florduardo Pinto Rosa, o Flor — juiz de paz, vereador e comerciante em Cordisburgo. Aos dez anos foi estudar em Belo Horizonte, na casa dos avós. Passou pelo Colégio Santo Antônio, em São João del-Rei, e pelo Colégio Arnaldo. Em 1925, com dezesseis anos, matriculou-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Formou-se em 1930, orador da turma.

No mesmo ano casou-se com Lígia Cabral Pena, com quem teve duas filhas, Vilma e Agnes. Foi exercer medicina em Itaguara, então distrito de Itaúna. Ali o sertão deixou de ser paisagem distante: virou consultório, estrada e fala. Os primeiros contos, ainda na juventude, saíram na revista O Cruzeiro — o primeiro deles, “O mistério de Highmore Hall”, de 1929, o próprio autor depois deixou fora dos livros.

A autoridade pública de Rosa não cabe num cargo. É a combinação rara de clínico do interior, cônsul em Hamburgo e inventor de uma prosa que a crítica passou a tratar como um dos pontos altos da literatura em língua portuguesa no século XX. O mineiro de Cordisburgo e o diplomata do Itamaraty são a mesma pessoa; a obra só fecha quando os dois lados entram no retrato.

Como a medicina e a diplomacia atravessam a obra?

Na Revolução Constitucionalista de 1932, voltou a Belo Horizonte como médico voluntário da Força Pública de Minas Gerais. Serviu no setor do Túnel, em Passa Quatro, e ali cruzou com outro formado da mesma faculdade, Juscelino Kubitschek, também médico da tropa. Depois foi oficial médico do 9.º Batalhão de Infantaria, em Barbacena. Em 1934 prestou concurso para o Itamaraty e passou.

O primeiro posto no exterior foi o de cônsul-adjunto em Hamburgo, de 1938 a 1942. Lá conheceu Aracy Moebius de Carvalho, funcionária do consulado que emitiu mais vistos do que as cotas da época permitiam, para judeus que fugiam do nazismo. Os dois se casaram em 1947. Aracy é a única mulher brasileira homenageada no Jardim dos Justos entre as Nações, no Yad Vashem. Quando o Brasil rompeu com a Alemanha, Rosa ficou preso em Baden-Baden, em 1942; libertado no fim do ano, seguiu para Bogotá como secretário da embaixada. Entre 1946 e 1951 viveu em Paris.

Em maio de 1952, já diplomata e escritor, fez a travessia que a obra não disfarça. Acompanhou oito vaqueiros e cerca de trezentas cabeças de gado nos 240 quilômetros entre Araçaí e Três Marias, em dez dias. Levava caderneta no pescoço. Os diários que chamou de A Boiada estão hoje no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Dali saíram matéria e ouvido para Corpo de Baile e para Grande Sertão: Veredas, ambos de 1956.

O que a linguagem de Guimarães Rosa faz com o português?

Não é retrato realista da fala sertaneja. Rosa toma o regionalismo mineiro como base e recompõe a língua: termo em desuso, neologismo, palavra de outro idioma, sintaxe que parece canto. A prosa chega perto do verso sem virar poema numerado. Por isso a leitura escolar às vezes emperra no começo — e por isso a crítica insiste que o sertão, nele, é ao mesmo tempo lugar e metafísica.

Em 1936, o volume de poemas Magma ganhou o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras, mas o autor não publicou o livro na época. A estreia que importou veio dez anos depois. Sagarana saiu em 1946, depois de o manuscrito ter perdido o Prêmio Humberto de Campos para Luís Jardim; Rosa reescreveu, cortou e publicou nove contos. A recepção foi imediata. Antonio Candido saudou a estreia ainda naquele ano. O livro levou o Prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira.

Quem lê Rosa depois de Carlos Drummond de Andrade reconhece outro modernismo mineiro: menos o verso da pedra no caminho, mais a prosa que faz o sertão caber no cânone universal. Os dois não formam escola. Formam um eixo. A literatura brasileira do século XX passa por Itabira e por Cordisburgo em tons diferentes, e o leitor ganha quando não mistura um no outro.

Quais livros marcam a obra de Guimarães Rosa?

A estante pública é curta e densa. Vale o mapa, não o sumário de cada volume:

  • Sagarana (1946): estreia em livro, nove contos, entre eles “O burrinho pedrês”, “Conversa de bois” e “A hora e vez de Augusto Matraga”.
  • Corpo de Baile (1956): novelas depois reorganizadas em volumes como Manuelzão e Miguilim, No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do Sertão.
  • Grande Sertão: Veredas (1956): o único romance, narrado por Riobaldo, jagunço que fala de Deus, diabo, Diadorim e travessia.
  • Primeiras Estórias (1962): 21 contos, com “A terceira margem do rio”, leitura frequente em vestibular e antologia.
  • Tutaméia — Terceiras Estórias (1967): último livro em vida, prosa ainda mais concentrada.

Póstumos, saíram Estas Estórias (1969) e Ave, Palavra (1970). Em 1961, a ABL deu a Rosa o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. A Livraria José Olympio Editora publicou o romance em 1956; Nova Fronteira e Global Editora sustentam boa parte do catálogo corrente, e a Companhia das Letras reúne a edição recente de Grande Sertão: Veredas.

Por onde começar a ler João Guimarães Rosa?

Quem chega pelo vestibular pode ler “A terceira margem do rio” e “A hora e vez de Augusto Matraga” sem culpa, desde que não pare no conto isolado. Para ver a estreia, Sagarana ainda é a porta mais honesta: o sertão já está lá, a língua já é outra, e o livro cabe numa semana de leitura atenta. Para o Rosa da infância e do vaqueiro velho, Manuelzão e Miguilim junta Campo Geral e Uma estória de amor. Para o salto, não há desvio: Grande Sertão: Veredas é o livro que a crítica internacional passou a citar entre os grandes romances do século XX, e é também o que mais assusta no primeiro capítulo.

O perfil na Academia Brasileira de Letras reúne a ficha do imortal da Cadeira 2. A Global Editora mantém boa parte dos títulos em português. Rosa não precisa de mito de gênio solitário nem de profecia sobre a posse. Precisa de leitura. O sertão que ele escreveu continua grande; as veredas, para quem entra, estão nos livros.

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Projetos de João Guimarães Rosa

Grande Sertão: Veredas
Grande Sertão: Veredas
Romance de 1956 em que Riobaldo narra jagunçagem, Diadorim e o pacto no sertão mineiro, na prosa que tornou Guimarães Rosa incontornável.
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Sagarana
Sagarana
Livro de estreia de Guimarães Rosa, de 1946, com nove contos do sertão mineiro, incluindo A hora e vez de Augusto Matraga.
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Primeiras Estórias
Primeiras Estórias
Coletânea de 1962 com 21 contos de Guimarães Rosa, entre eles A terceira margem do rio, Famigerado e As margens da alegria.
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Manuelzão e Miguilim
Manuelzão e Miguilim
Volume que reúne Campo Geral e Uma estória de amor, novelas de Corpo de Baile sobre a infância de Miguilim e a velhice do vaqueiro Manuelzão.
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Tutaméia
Tutaméia
Último livro de Guimarães Rosa em vida, de 1967: terceiras estórias em prosa concentrada, entre o conto breve e a invenção da língua.
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