Sagarana é o primeiro livro de João Guimarães Rosa e ainda o jeito mais honesto de ver o escritor antes do romance que o consagrou. Publicado em 1946, o volume reúne nove contos do sertão de Minas: morro, riacho, vaqueiro, boi, jagunço e uma língua que já não imita o regionalismo anterior. Antonio Candido saudou a estreia naquele mesmo ano. O livro levou o Prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira e esgotou duas edições.
A história editorial é de recusa e corte. Rosa inscreveu uma versão longa no concurso do Prêmio Humberto de Campos e perdeu para Luís Jardim. Reescreveu, reduziu o original de cerca de quinhentas para trezentas páginas e só então publicou. O título junta “saga” e o sufixo tupi “-rana”, à maneira de coisa semelhante a saga — programa estampado no próprio nome, não slogan de orelha.
Do que tratam estes nove contos
Cada narrativa tem dono, bicho ou povoado. “O burrinho pedrês” segue o Sete-de-Ouros numa enchente. “Conversa de bois” dá fala ao gado. “Sarapalha” descreve doença e vegetação com minúcia de quem andou no chão. “Duelo” e “Corpo fechado” tratam de violência e crendice. O fecho, “A hora e vez de Augusto Matraga”, é o conto que a crítica — Candido à frente — costuma apontar como um dos grandes da prosa brasileira: Nhô Augusto, homem de mando, cai, se converte e encontra o instante em que a força e a fé se atravessam.
A paisagem não é cartão-postal. Rosa já mistura oralidade sertaneja, termo antigo e invenção. Quem lê depois de Grande Sertão: Veredas reconhece o laboratório. Quem lê antes ganha a vantagem de ver a língua nascer em peças mais curtas, sem a travessia de quinhentas páginas.
Para quem este livro faz sentido
- Quem quer começar Guimarães Rosa sem enfrentar o romance de imediato
- Estudantes que trabalham conto brasileiro, regionalismo e modernismo
- Leitores em busca especificamente de Augusto Matraga
- Quem ensina ou estuda vestibular e precisa do chão da estreia, não só do cânone do romance
Contexto na carreira do autor
Em 1946 Rosa já era diplomata. Tinha sido cônsul-adjunto em Hamburgo, preso em Baden-Baden, secretário em Bogotá e vivia o período parisiense. A estreia literária, portanto, não é de um estreante de gabinete vazio: é de alguém que já tinha médico, tropa e chancelaria no currículo, e que ainda guardava os ouvidos de Itaguara. Magma, o volume de poemas premiado em 1936, ficou inédito. Sagarana foi o golpe que importou.
A edição da Global Editora, com apresentação de Walnice Nogueira Galvão e o texto de Antonio Candido do ano do lançamento, é a forma corrente em português. A capa de Victor Burton traz foto de Araquém Alcântara feita em Jaíba, Minas Gerais. É livro de conto, não antologia tardia nem “melhor de”.
Como ler e o que não esperar
Pode-se ler fora de ordem, mas o arco do volume tem rumo: o fechamento com Matraga não é acaso. Não espere o Riobaldo de 1956 nem a condensação de Primeiras Estórias. Espere fazenda, bicho, fala e uma prosa que já pede dicionário às vezes e contexto quase sempre. “A hora e vez de Augusto Matraga” também circula em volume avulso; no conjunto de Sagarana o conto pesa mais, porque chega depois de oito estórias que ensinam o ouvido.
A Global Editora mantém o título em circulação. É a porta. O sertão de Rosa começa aqui; o romance viria dez anos depois, quando a caderneta da boiada já tinha virado outra escala.





