Tutaméia — Terceiras Estórias foi o último livro que João Guimarães Rosa publicou em vida, em 1967, o mesmo ano da posse na Academia Brasileira de Letras e da morte, três dias depois. O título já avisa o programa: tutaméia é miudeza, quase nada — e, nele, o quase nada pesa. Depois de Sagarana e de Primeiras Estórias, Rosa aperta ainda mais. A frase encolhe. A invenção não.
Quem chega ao volume depois do romance costuma estranhar o fôlego. Não há Riobaldo falando por quinhentas páginas. Há estórias breves, prefácios que são também texto, e uma prosa que a crítica trata como o ponto extremo da língua rosiana. Não é livro de entrada. É livro de quem já ouviu o sertão nas outras obras e quer ver o que o autor fez quando resolveu não repetir a escala da jagunçagem.
Do que trata este volume
As “terceiras estórias” fecham um arco com as “primeiras”. Entre um livro e outro há o romance e as novelas, mas a família é a do conto. Rosa mistura narrativa mínima, reflexão e brinquedo verbal. Há textos que mal passam de uma lauda e mesmo assim deixam resto. A matéria continua sendo gente, bicho, fala e destino; o corte é outro. Quem busca enredo contínuo se perde. Quem aceita o volume como conjunto de peças — algumas quase aforismo, outras quase fábula — encontra o Rosa mais experimental sem sair do chão mineiro.
A edição da Global Editora circula hoje como Tutameia: terceiras estórias. O nome no miolo e o da capa variam o acento; o livro é o de 1967. A capa com a ave de rapina, na linha visual dos outros títulos da casa, separa este volume da estreia de 1946 e da coletânea de 1962 no olhar da estante — útil quando o leitor quer o último livro em vida, não um “melhor de”.
Para quem este livro faz sentido
- Quem já leu Sagarana, Primeiras Estórias ou o romance e quer o Rosa final
- Estudantes da língua rosiana, neologismo e forma breve
- Leitores que ensinam a obra completa e não podem parar em 1956
- Quem pesquisa o ano de 1967 — livro, posse na ABL e morte — como um único capítulo público
Contexto na carreira do autor
Rosa publicou Tutaméia no ano em que finalmente ocupou a Cadeira 2. Tinha 59 anos. O Prêmio Machado de Assis pelo conjunto já vinha de 1961. O livro, portanto, não é estreia tardia: é o autor consagrado ainda empurrando a forma para um extremo. Póstumos, viriam Estas Estórias (1969) e Ave, Palavra (1970). Em vida, este é o fecho.
Lido depois de Primeiras Estórias, o volume mostra o aperto. Lido depois de Grande Sertão: Veredas, mostra que Rosa não ficou preso ao monólogo de Riobaldo. A reputação do romance às vezes tapa o resto do catálogo. Tutaméia existe para impedir esse tapa.
Como ler e o que não esperar
Não comece por aqui se a pergunta for “quem é Guimarães Rosa?”. Comece por Sagarana ou pelos contos de 1962. Este livro pede ouvido já treinado. Não espere o mapa da jagunçagem nem o menino de Campo Geral. Espere miudeza densa, prefácio que não é recuo acadêmico e estórias que recusam o tamanho do romance.
A Global Editora mantém o título em português. É o volume certo para fechar a leitura em vida de Rosa — o livro de 1967, não o mito da posse. A miudeza, nele, nunca foi pouca coisa.





