Gerald Thomas Sievers nasceu em Nova York, em 1º de julho de 1954, e fez do palco um laboratório de imagem, som e pensamento. A carreira começou longe do Brasil, em grupos experimentais de Londres e no La MaMa E.T.C., em Nova York, onde dirigiu as primeiras adaptações de textos de Samuel Beckett. Quando voltou ao país, no meio dos anos 1980, já trazia a proposta que a crítica batizaria de “ópera seca”: um teatro que recusa a identificação emocional fácil e trata o pensamento como processo em cena. É por essa combinação de risco estético e circulação internacional que Gerald Thomas se tornou uma das figuras decisivas da cena brasileira contemporânea.
Quem é Gerald Thomas e por que ele é lembrado
Diretor, dramaturgo, cenógrafo, figurinista, iluminador e tradutor, Gerald Thomas renovou a cena brasileira nas décadas de 1980 e 1990 ao transformar cada recurso teatral em elemento de composição. A luz deixou de apenas iluminar para construir lugares mutantes; a música e o som gravado passaram a comentar a ação; o texto clássico foi desmontado e remontado em paródias que incomodaram plateias e crítica. Em pouco mais de uma década, ele saiu do circuito experimental para teatros como o Lincoln Center, em Nova York, o Teatro Estatal de Munique, o festival Wiener Festwochen, em Viena, e o Festival de Taormina, na Itália, com produções apresentadas em 15 países.
Da cena experimental de Londres e Nova York ao Brasil
A formação de Gerald Thomas aconteceu em trânsito. Em Londres, participou do grupo multimídia Exploding Galaxy e fez as primeiras direções na Hoxton Theatre Company. Depois, em Nova York, trabalhou no La MaMa E.T.C., espaço de Ellen Stewart dedicado a encenações experimentais, onde adaptou e dirigiu prosa e peças de Samuel Beckett. Foi também nos Estados Unidos que dirigiu Julian Beck, fundador do Living Theatre, em All Strange Away e That Time — a única atuação de Beck fora da própria companhia. Nos anos 1980, trabalhou com o dramaturgo alemão Heiner Müller e iniciou uma parceria duradoura com o compositor Philip Glass.
No Brasil, as primeiras montagens foram remontagens de espetáculos já encenados no exterior. Quatro Vezes Beckett, de 1985, com Rubens Corrêa, Sérgio Britto e Ítalo Rossi, rendeu-lhe o Prêmio Molière. Quartett, de Heiner Müller, estreou em 1986 com Tônia Carrero e Sérgio Britto. No mesmo ano, Carmem com Filtro, com Antonio Fagundes e Clarisse Abujamra, recebeu o Prêmio Mambembe, e Eletra com Creta criou um novo espaço cênico no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Foi nesse período que fundou a Companhia Ópera Seca, com a qual levou ao palco a Trilogia Kafka, em 1988 — outro Prêmio Molière —, e Mattogrosso, ópera assinada com Philip Glass em 1989.
As montagens que marcaram a carreira
- The Flash and Crash Days (1991), estrelado por Fernanda Torres e Fernanda Montenegro e apresentado no Lincoln Center;
- O Império das Meias Verdades (1993) e UnGlauber (1994), com Fernanda Torres no papel central;
- Nowhere Man (1996), leitura do mito de Fausto com Luís Damasceno;
- Ventriloquist (1999) e NxW — Nietzsche x Wagner (2000);
- Um Circo de Rins e Fígados (2005), com Marco Nanini, maior sucesso de público do diretor, visto por mais de 80 mil pessoas;
- Tetralogia Asfaltaram a Terra (2006), com quatro espetáculos encenados em sequência;
- Entredentes (2014), que reencontrou Ney Latorraca, Edi Botelho e Maria de Lima;
- Traidor (2023), texto escrito para Marco Nanini.
O que é a “ópera seca”
A expressão criada por Gerald Thomas nomeia uma poética, não um gênero. Na ópera seca, a emoção não é conduzida pela mão: o espectador acompanha o pensamento em processo, com cenas curtas decupadas por cortes bruscos de luz, atores tratados como figuras plásticas e a voz gravada do próprio diretor comentando a ação. O filósofo Gerd Bornheim descreveu o encenador como um pensador prático, criador de uma poética. Sílvia Fernandes, autora de Memória e invenção: Gerald Thomas em cena, analisou como a iluminação transformava o espaço cênico em lugar mutante, em imagens intermitentes que lembravam o cinema do início do século. Nessa construção, parcerias foram decisivas: a cenografia de Daniela Thomas, os ambientes hipotéticos da Trilogia Kafka e a presença da atriz Bete Coelho, protagonista de seguidas montagens.
Tristão e Isolda, o protesto e a decisão do STF
Em 2003, Gerald Thomas dirigiu Tristão e Isolda, de Richard Wagner, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em uma montagem que transportava a ação para o consultório de Sigmund Freud e fazia referências ao tráfico e à violência na cidade. Vaiado durante os cumprimentos finais, o diretor respondeu mostrando as nádegas e simulando um gesto obsceno. O episódio virou processo com base no artigo 233 do Código Penal. Ele recusou acordo e foi absolvido em 2004, quando o Supremo Tribunal Federal trancou a ação penal. No voto vencedor, o ministro Gilmar Mendes considerou que o gesto foi “um protesto grosseiro contra o público”, sem potencial de ofender o senso de decência, e que o caso pertencia ao campo da liberdade de expressão.
Livros, desenhos e o lado escritor
A produção escrita de Gerald Thomas acompanha a teatral. Em 2011, a editora Record publicou Nada Prova Nada!, coletânea de artigos e crônicas sobre política, cultura e comportamento. No ano seguinte, a Cobogó lançou Arranhando a Superfície – Scratching the Surface, edição bilíngue de desenhos e ilustrações organizada por Isabel Diegues. Em 2013, veio Cidadão do Mundo, escrito com Edi Botelho para a Coleção Aplauso. A autobiografia Entre Duas Fileiras saiu pela Record em 2016. Já em 2019, as Edições Sesc São Paulo publicaram Um Circo de Rins e Fígado, volume de 584 páginas que reúne os textos integrais de suas peças, ensaios de Dirceu Alves Jr. e Flora Süssekind e a fortuna crítica de cada montagem.
O que Gerald Thomas faz hoje
Em 2009, Gerald Thomas escreveu um manifesto de despedida do teatro. A decisão durou pouco: em 2010 fundou em Londres a companhia London Dry Opera, com a qual apresentou Throats, em 2011, e Gargólios, espetáculo que depois viajou o mundo. Em 2017, voltou aos palcos brasileiros com Dilúvio, no Sesc Consolação. Durante a pandemia, revisitou Terra em Trânsito em versão transmitida pela internet e teve sua trajetória retratada no programa Persona, da TV Cultura. Em 2022, encenou G.A.L.A., com Fabiana Gugli, e F.E.T.O. (Estudos de Doroteia Nua Descendo a Escada), no Sesc. Em 2023, dirigiu Traidor, com Marco Nanini. Em 2025, assinou Sabius, os Moleques, no Sesc 14 Bis, dirigiu o primeiro monólogo de Danielle Winits no Rio de Janeiro e comandou a celebração de 40 anos do grupo de teatro Harem, em Teresina. Radicado em Nova York, mantém a rotina de criação entre o Brasil e o exterior e reúne vídeos de seus espetáculos em geraldthomas.net.
Vida pessoal e relações no teatro
Gerald Thomas foi casado com a cineasta Daniela Thomas e, depois, com a atriz Fernanda Torres, que protagonizou três de seus espetáculos nos anos 1990. Foi ao lado de Fernanda Montenegro, mãe de Fernanda Torres, que The Flash and Crash Days estreou em 1991, marcando uma das parcerias mais lembradas de sua carreira. Essas relações atravessam a obra e ajudam a entender a circulação do diretor entre o teatro, o cinema e a televisão brasileiros.





