Em 2000, ao publicar História de Djanira, brasileira de Avaré, Gesiel Júnior colocou no papel uma contradição que conhecia de perto: Djanira da Motta e Silva já era apontada entre as principais pintoras brasileiras do século 20, mas continuava pouco presente na memória da cidade onde nasceu. O livro, primeira biografia da artista, abriu um trabalho que atravessaria décadas e passaria por novos títulos, pela criação do Memorial Djanira e por uma releitura do lugar da pintora na história cultural do interior paulista.
Gesiel Theodoro da Silva Júnior nasceu em Águas de Santa Bárbara, em 2 de dezembro de 1963, e cresceu em Avaré, onde construiu vida profissional e familiar. Estudou filosofia e teologia no Seminário Arquidiocesano de Botucatu entre 1981 e 1985 e se graduou em História pela Faculdade de Ciências e Letras da Fundação Regional Educacional de Avaré (FREA). Antes disso, já frequentava redações: começou no jornalismo em 1979, no extinto jornal O Avaré.
Essa combinação de formação humanística, apuração jornalística e convivência com arquivos locais explica o tipo de autoridade que ele construiu. Gesiel não se tornou conhecido por um único livro nem por um cargo de projeção nacional. Passou a ser procurado por quem precisa entender a história de Avaré e de municípios vizinhos, a trajetória de instituições locais e a vida de personagens que a memória oficial costuma resumir em uma linha.
O jornalista que virou biógrafo
Durante seis anos, Gesiel foi correspondente da Agência Estado e assinou reportagens publicadas em O Estado de S. Paulo e no Jornal da Tarde. Entre 1986 e 1996, atuou como adido de imprensa dos prefeitos Paulo Dias Novaes, Fernando Cruz Pimentel e Miguel Paulucci. A rotina na imprensa e no poder público lhe deu acesso a documentos, personagens e situações que depois apareceriam em livros.
O primeiro deles foi Monsenhor Celso, a história de um padre, lançado em 1997 pela Editora Arcádia. A obra tem 240 páginas e foi apresentada em uma noite de autógrafos com a presença do biografado, então com 94 anos e que morreria três meses depois. O episódio marcou a entrada de Gesiel na escrita de biografias, gênero que passaria a ocupar boa parte de sua produção.
Vieram depois os religiosos Padre Emílio Immoos e Dom Vicente Zioni, o bispo Dom Sílvio, o pioneiro Maneco Dionísio, o médico e político Paulo Dias Novaes e os professores Izabel Pires Carvalho e Celso Ferreira da Silva. Alguns títulos tiveram apoio oficial na impressão ou patrocínio de familiares e amigos, o que ajudou a preservar a memória de figuras que não tinham biografia publicada.
Djanira, do livro ao Memorial
A biografia de Djanira é o eixo mais conhecido desse trabalho. História de Djanira, brasileira de Avaré saiu em 2000 pela Editora Arcádia, com 144 páginas e 42 ilustrações, e se tornou a primeira obra dedicada à trajetória completa da pintora. Quatro anos depois, Gesiel escreveu Contando a Arte de Djanira, volume infantojuvenil da coleção da Editora Noovha América que apresenta a artista a leitores em formação.
Em 2014, para marcar o centenário de nascimento de Djanira, o pesquisador organizou Djanira para conhecer e colorir, uma seleção de desenhos da pintora com legendas e frases, publicada com patrocínio da Unimed Avaré. Em 2018, assinou o roteiro de Djanira, vida e arte em quadrinhos, com ilustrações do quadrinista Luiz Carlos Fernandes e apoio do ProAC, programa da Secretaria de Estado da Cultura.
O impacto dessas publicações não ficou restrito ao papel. Em 2008, a Prefeitura de Avaré criou o Memorial Djanira, espaço que reúne obras, documentos, fotografias, roupas, prêmios e objetos do ateliê da artista. Gesiel participou da formação do memorial e trabalhou por anos no Museu Histórico Anita Ferreira De Maria, dois equipamentos culturais que ajudaram a tornar a memória da pintora parte da vida cotidiana da cidade.
A história de Avaré em dezenas de volumes
Fora do eixo Djanira, a produção de Gesiel se organiza em torno da história regional. Avaré em memória viva reuniu em quatro volumes, publicados entre 2010 e 2013, artigos que ele escreveu por oito anos no Semanário Oficial. Caminhos de Avaré, de 2015, reúne descrições e significados dos nomes de ruas e logradouros da cidade. Avaré 150 anos, de 2011, foi distribuído nas escolas locais como material paradidático.
Também assinou a história de sua terra natal, Águas de Santa Bárbara, e textos sobre a passagem de Santa Paulina por Avaré, a Paróquia de Nossa Senhora das Dores e a Associação Comercial, Industrial e Agropecuária de Avaré. Em 2026, por ocasião de sua aposentadoria, o jornal in Foco registrou que ele havia chegado a 66 livros publicados.
O volume explica por que Gesiel é procurado por pesquisadores, professores, estudantes, jornalistas e famílias que querem localizar informações sobre pessoas e instituições do interior paulista. A obra dele funciona como uma porta de entrada para acervos que, de outra forma, permaneceriam dispersos em jornais antigos, arquivos públicos e coleções particulares.
Serviço público, academias e reconhecimento
Servidor municipal concursado desde 1985, Gesiel ocupou funções na comunicação da Prefeitura de Avaré e no Legislativo. Aposentou-se em 22 de junho de 2026, após 41 anos de serviço público. Na Câmara Municipal, encerrou o ciclo com uma palestra sobre Djanira e apresentou propostas para a área cultural: a criação, por concurso, do cargo de diretor do Museu Municipal e do Memorial Djanira, a melhoria da segurança das telas da pintora nos prédios da CAIC e a abertura dos espaços culturais nos fins de semana.
É fundador do Instituto Histórico e Geográfico de Avaré (IHGA), membro correspondente da Academia Botucatuense de Letras desde 2014 e sócio correspondente da Academia Sorocabana de Letras desde 2017. Também colabora com o jornal in Foco, onde publica textos sobre história e memória regional.
Como Gesiel Júnior trabalha a memória regional
O método combina apuração jornalística, leitura de documentos e consulta a acervos públicos e particulares. Ele se descreve como autodidata na rotina de apuração, embora tenha formação acadêmica em História, filosofia e teologia. O resultado aparece em textos que evitam o hermetismo acadêmico e procuram tornar a história local acessível a leitores sem formação especializada.
- Biografias de religiosos, políticos, professores, artistas e pioneiros da região.
- História de instituições, paróquias, escolas, clubes e associações locais.
- Memória urbana, com levantamento de ruas, prédios, bairros e logradouros.
- Livros de espiritualidade e crônicas sobre o cotidiano e as tradições do interior.
Esse recorte regional não significa ambição pequena. A micro-história praticada por Gesiel permite reconstruir aspectos da vida social, do trabalho, das devoções e da vida cotidiana que dificilmente apareceriam em obras generalistas sobre o Brasil. É nesse nível que o trabalho ganha densidade e se torna útil para quem estuda a formação do interior paulista.
O que explica o interesse pela sua obra
A trajetória de Gesiel Júnior ajuda a entender como a memória de uma cidade se organiza. Ela depende de pessoas que leem arquivos, identificam fotografias, entrevistam moradores e transformam esse material em narrativa. Seu trabalho tornou Djanira uma presença permanente em Avaré e deu lastro documental a uma série de personagens e instituições que antes existiam apenas em registros dispersos.
Quem procura sua obra encontra biografias, história regional, livros para crianças e textos de divulgação. Quem procura o pesquisador encontra um autor ligado à literatura, memória e patrimônio, com uma produção que continua a ser consultada por escolas, universidades, jornais e famílias da região.


