O roteiro de Baile Perfumado, escrito por Hilton Lacerda da Luz Filho com Lírio Ferreira e Paulo Caldas, levou o cangaço de Lampião para o centro da retomada do cinema pernambucano. Nascido no Recife em 12 de agosto de 1965, Hilton já circulava pelos sets de videoclipes do Manguebeat quando o filme foi produzido, em 1996. A passagem pela música e a formação como roteirista explicam o cinema que ele faria depois.
A trajetória de Hilton Lacerda não se resume a uma obra. Ele é procurado tanto por quem quer entender o cinema pernambucano dos anos 1990 quanto por quem acompanha a carreira de roteiristas que passaram à direção. O percurso inclui roteiros para Cláudio Assis, Lírio Ferreira, Matheus Nachtergaele, Kiko Goifman e Marcelo Caetano, a direção de documentário e ficção, e séries de televisão.
Formação, Manguebeat e os primeiros roteiros
Hilton cursou jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco e educação artística na Universidade Federal de Pernambuco, sem concluir nenhum dos dois cursos. A entrada no audiovisual veio em 1988, como assistente de direção de Lírio Ferreira em O Crime da Imagem. No início dos anos 1990, formou com Helder Aragão, o DJ Dolores, a dupla Dolores & Morales, que assinou videoclipes de Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A e Mestre Ambrósio.
A experiência nos videoclipes aparece na trilha e no ritmo de Baile Perfumado, que tem música de Chico Science, Nação Zumbi, Mestre Ambrósio e Fred Zero Quatro. O passado do cangaço é atravessado pela energia do Manguebeat, sem virar peça de época.
Baile Perfumado e a retomada do cinema pernambucano
Baile Perfumado foi dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas, com roteiro dos dois em parceria com Hilton. Rodado em 35 mm e lançado em 1997, o filme acompanha Benjamin Abrahão, mascate libanês amigo do Padre Cícero, que se infiltra no bando de Lampião para vender registros do cangaceiro. A mistura de documentário, ficção e invenção comercial está na base do roteiro: o personagem não é um herói, mas um homem que tenta sobreviver transformando a própria proximidade com o poder em mercadoria.
O filme venceu o Festival de Brasília de 1996 nas categorias de melhor filme, melhor direção de arte e melhor ator coadjuvante, além do prêmio da crítica, do prêmio UNESCO e do prêmio dos pesquisadores. Em 2015, entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros da Abraccine. O roteiro de Baile Perfumado combina o cangaço, a religiosidade popular e a lógica do comércio em uma estrutura que não separa o épico do cotidiano.
Cláudio Assis, o Recife à margem e a escrita de personagens
A parceria mais longa de Hilton como roteirista foi com Cláudio Assis. Ele assinou o roteiro de Amarelo Manga, estreia de Assis na direção de longa, e de Baixio das Bestas, Febre do Rato e Piedade, além do curta Texas Hotel. São cinco longas e um curta ao longo de quase duas décadas. Em Amarelo Manga, o roteiro recebeu o prêmio de melhor roteiro no Cine Ceará.
Os filmes dessa parceria olham para personagens que vivem à margem do centro histórico, do comércio e das instituições. O roteiro não os trata como símbolos de miséria: eles têm desejo, humor e contradição. Essa abordagem rendeu a Hilton convites para escrever com outros diretores, de Matheus Nachtergaele em A Festa da Menina Morta a Kiko Goifman em Filmefobia, passando por Lírio Ferreira em Árido Movie e por Cecília Amado em Capitães de Areia.
Outros roteiros ampliaram o repertório: Estamos Juntos, de Toni Venturi, venceu no Cine PE; Big Jato levou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Brasília de 2015; e Hilton colaborou em Órfãos do Eldorado, Augustas e Verona.
Cartola e a passagem para a direção
A primeira direção de longa de Hilton veio com Cartola – Música para os Olhos, documentário de 2007 codirigido com Lírio Ferreira. O filme reconstitui a vida de Angenor de Oliveira, o Cartola, um dos fundadores da Estação Primeira de Mangueira e nome central do samba-canção. A narrativa usa imagens de arquivo e depoimentos para acompanhar o compositor entre a boemia carioca, o morro e o reconhecimento tardio.
O documentário foi selecionado para o Festival do Rio de 2006 e, segundo o Filme B, foi recordista de público naquele ano. Para Hilton, representou a passagem do roteiro para a direção sem abandonar o trabalho musical que vinha do Manguebeat. O documentário sobre Cartola também fixou uma parceria com Lírio Ferreira que já vinha de Baile Perfumado e Árido Movie.
Tatuagem e o primeiro longa de ficção
Tatuagem, de 2013, é o primeiro longa de ficção dirigido por Hilton. O filme se passa em 1978, no fim da ditadura militar, e acompanha a trupe Chão de Estrelas, um teatro-cabaré liderado por Clécio Wanderley, interpretado por Irandhir Santos. A chegada do soldado Arlindo, o Fininha, de Jesuíta Barbosa, desloca o grupo e transforma o encontro entre os dois em uma história sobre afeto, repressão e resistência.
O roteiro partiu de histórias de pessoas reais do Recife. Clécio foi inspirado no teatrólogo argentino Túlio Carella, que viveu na cidade nos anos 1960, e a trupe remete à experiência do grupo Vivencial, ativo na segunda metade dos anos 1970. Hilton escreveu o papel pensando em Irandhir Santos, com quem havia trabalhado em Baixio das Bestas. As filmagens ocorreram em 2011, em Olinda, Recife e Cabo de Santo Agostinho, depois de seis semanas de preparação de elenco.
O filme estreou no Festival do Rio de 2013, onde recebeu o prêmio especial do júri, e venceu o Festival de Gramado no mesmo ano. Passou por Havana e pela mostra Horizontes Latinos, do Festival de San Sebastián, em 2014. Acumulou mais de 20 prêmios e entrou, em 2015, na lista dos 100 melhores filmes brasileiros da Abraccine. No circuito brasileiro, foi visto por 46.618 pessoas, segundo dados da Ancine.
A recepção crítica destacou a naturalidade com que o filme trata afeto e sexualidade. O filme Tatuagem consolidou Hilton como diretor e abriu caminho para o longa seguinte, Fim de Festa.
Fim de Festa e a cidade depois da festa
Fim de Festa é o segundo longa de ficção de Hilton, exibido no Festival do Rio em dezembro de 2019 e lançado nos cinemas em 5 de março de 2020. A trama começa quando uma jovem francesa é assassinada no Recife após o carnaval. O policial Breno, interpretado por Irandhir Santos, volta mais cedo das férias para investigar o crime e encontra a casa ocupada pelo filho e por três amigos.
O filme venceu o Troféu Redentor de melhor filme no Festival do Rio de 2019. A crítica recebeu a obra de forma dividida: parte dos textos apontou fragilidades no suspense policial, enquanto outros destacaram a atuação de Irandhir Santos. Em 2021, Irandhir e Hermila Guedes foram indicados ao Grande Otelo, e DJ Dolores recebeu indicação por sua trilha sonora.
Ao contrário de Tatuagem, que olha para o passado da ditadura, Fim de Festa se debruça sobre o presente do Recife e sobre as marcas que a violência deixa em uma família. O carnaval funciona como ponto de virada: a cidade festeja e, no dia seguinte, precisa lidar com o que a festa escondeu. O longa Fim de Festa está disponível em plataformas ligadas à Imovision.
Televisão, séries e novos formatos
A atuação de Hilton não se limita ao cinema. Ele criou e dirigiu, com Lírio Ferreira, a minissérie Fim do Mundo, exibida pelo Canal Brasil em 2016. Com cinco episódios, a produção foi inspirada em contos de escritores nordestinos e gravada em Triunfo, no interior de Pernambuco. Hilton assina a criação, os roteiros e a direção ao lado de Lírio.
Ele também criou e dirigiu, com Helder Aragão, a série Lama dos Dias. Em Chão de Estrelas, assina a criação e os roteiros com Anna Carolina Francisco e Dillner Gomes e divide a direção com Milena Times. São projetos que levam a atenção ao detalhe local e à música para formatos mais longos.
Como a obra de Hilton Lacerda se organiza
A produção de Hilton pode ser lida por três eixos. O primeiro é o cinema pernambucano: Baile Perfumado, Amarelo Manga, Baixio das Bestas, Tatuagem e Fim de Festa compartilham o Recife e o Nordeste como espaço de conflito, não como cenário pitoresco. O segundo é a música: os videoclipes do Manguebeat, a trilha de Baile Perfumado, o documentário sobre Cartola e as parcerias com DJ Dolores. O terceiro é a televisão, com séries que ampliam o alcance dessa mesma mirada.
Esses eixos se cruzam. O roteirista de Amarelo Manga é o mesmo diretor de Tatuagem e o criador de Fim do Mundo. O que muda é o controle sobre a imagem e o tempo de cada projeto. A constante é o interesse por personagens que negociam sobrevivência, afeto e dignidade em ambientes onde o poder é visível.
Uma seleção de trabalhos ajuda a acompanhar a trajetória:
- Baile Perfumado (1996) — roteiro, em parceria com Lírio Ferreira e Paulo Caldas
- Amarelo Manga (2003) — roteiro
- Cartola – Música para os Olhos (2007) — direção e roteiro, com Lírio Ferreira
- Tatuagem (2013) — direção e roteiro
- Fim de Festa (2019) — direção e roteiro
Onde consultar e acompanhar
Para ampliar o repertório, o perfil de Hilton Lacerda no Instagram reúne imagens de trabalho e divulgação. O IMDb lista a filmografia. A Enciclopédia Itaú Cultural, a Cinemateca Pernambucana Jota Soares e o Filme B mantêm verbetes e fichas com prêmios e dados de produção.





