Contexto e proposta de Baile Perfumado
Baile Perfumado é um filme brasileiro de 1996, dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas, com roteiro dos dois em parceria com Hilton Lacerda. Lançado nos cinemas em 1997, o longa acompanha a trajetória de Benjamin Abrahão, mascate libanês que viveu no sertão, tornou-se amigo do Padre Cícero e conseguiu registrar Lampião em imagem. A história é contada como uma mistura de aventura, crônica histórica e reflexão sobre o próprio cinema.
O ponto de partida do roteiro é a figura de um homem que não pertence a nenhum dos lados que retrata. Benjamin circula entre o comércio, a religiosidade popular e o cangaço. Ele não é um revolucionário nem um observador neutro: quer transformar a intimidade com o bando em mercadoria. Essa ambiguidade dá ao filme sua força e evita que a narrativa transforme Lampião em mito sem consequência.
Rodado em 35 mm, com fotografia colorida e em preto e branco, Baile Perfumado combina reconstituição de época e invenção. A trilha sonora aproxima a história do cangaço da produção cultural pernambucana dos anos 1990, com faixas de Chico Science e Nação Zumbi, Mestre Ambrósio, Fred Zero Quatro e DJ Dolores. A mistura não é decorativa: ela desloca o sertão para o presente do Manguebeat e mostra como o passado podia ser relido sem folclore.
O elenco é formado por Duda Mamberti, Luiz Carlos Vasconcelos, Aramis Trindade e Chico Díaz. A direção de arte de Adão Pinheiro e a fotografia de Paulo Jacinto dos Reis constroem um sertão de cores quentes e contrastes, no qual a figura de Lampião aparece menos como corpo do que como imagem em disputa. O filme não tenta reconstituir cada detalhe documental: usa a lacuna e a invenção para falar sobre quem tem o direito de produzir a imagem de um personagem histórico.
A estrutura do roteiro alterna o ponto de vista de Benjamin com cenas do bando e com o universo de Padre Cícero. O resultado é um filme de época que se recusa a ser apenas reconstituição. A música e a montagem criam uma sensação de deslocamento, como se o sertão estivesse sendo visto por um forasteiro que precisa vender a própria experiência.
O filme venceu o Festival de Brasília de 1996 nas categorias de melhor filme, melhor direção de arte e melhor ator coadjuvante, além do prêmio da crítica, do prêmio UNESCO e do prêmio dos pesquisadores do cinema brasileiro. No Festival de Havana de 1997, recebeu o prêmio de melhor cartaz. A APCA de 1997 reconheceu a trilha sonora e a atuação de Luiz Carlos Vasconcelos como melhor ator coadjuvante. Em 2015, o longa entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos da Abraccine.
Para o cinema de Pernambuco, Baile Perfumado funcionou como uma porta de entrada. O filme é apontado como marco da retomada da produção local e abriu espaço para uma geração que voltaria ao Recife para filmar conflitos urbanos, música e violência. O roteiro de Hilton Lacerda, escrito em colaboração, já mostrava o interesse dele por personagens que negociam identidade e sobrevivência em contextos de poder.
O filme é indicado para quem quer entender a virada do cinema brasileiro nos anos 1990, a relação entre o Manguebeat e o audiovisual e a reinvenção do cangaço fora dos moldes do cinema novo. A página oficial da Imovision reúne informações sobre a obra e as condições atuais de acesso.




