Jorge Bodanzky levou para a tela a estrada que o Brasil abria à força na floresta. Em Iracema, uma transa amazônica (1974), codirigido com Orlando Senna, o cineasta paulistano mostrou a Transamazônica como ela aparecia a quem vivia dela: caminhoneiros, prostitutas, trabalhadores recrutados e povos indígenas empurrados para fora do quadro do progresso. O filme foi produzido para a televisão alemã, ficou anos proibido no Brasil e transformou seu autor numa das vozes mais persistentes do cinema documental brasileiro.
A trajetória de Bodanzky não cabe numa única função. Ele foi repórter fotográfico, diretor de fotografia, roteirista, professor e produtor. A câmera que carregou pela Amazônia, pelo sertão e pelas estradas do país serviu a filmes de ficção, documentários para televisões europeias e ensaios fotográficos. É essa mistura de ofícios que explica a força de uma obra construída entre a observação do real e a encenação.
De Brasília à Escola de Ulm: a formação de um olhar
Jorge Bodanzky nasceu em São Paulo, em 22 de dezembro de 1942, filho de austríacos que chegaram ao Brasil em 1937. Passou a infância e a adolescência na capital paulista, estudou no Instituto Mackenzie, no Colégio Bandeirantes e no Colégio Piratininga e chegou a viver temporadas num internato de orientação anarquista em Rekawinkel, na Áustria. Antes do cinema, criou com amigos uma companhia de teatro de fantoches, a Sambalelê.
Em 1963, ingressou no curso de arquitetura da Universidade de Brasília, atraído pelo projeto pedagógico da universidade recém-inaugurada. Teve aulas com Amelia Toledo, Athos Bulcão e Luis Humberto, entre outros artistas. O golpe militar de 1964 interrompeu o ambiente intelectual da UnB, e Bodanzky deixou a universidade depois da demissão coletiva de professores e assistentes. Ainda em 1965, expôs uma fotografia na 8ª Bienal de São Paulo, na primeira seção de fotografia da mostra.
Entre 1965 e 1969, trabalhou como repórter fotográfico na revista Manchete, no Jornal da Tarde, em O Estado de S. Paulo, na revista Realidade e na agência Maitiry, a convite do artista português Fernando Lemos. Em 1966, viajou para a Alemanha para estudar fotografia. O cineasta Alexander Kluge o convidou para o curso de cinema da Escola de Design de Ulm, onde Bodanzky se especializou em direção de fotografia.
De volta ao Brasil, fez a câmera de filmes decisivos do cinema marginal e do cinema novo tardio, como Hitler IIIº Mundo (1968), de José Agrippino de Paula, O Profeta da Fome (1969), de Maurice Capovilla, e Compasso de Espera (1969), de Antunes Filho. Em 1968, numa reportagem para a revista Realidade sobre dinheiro falso em Paragominas, no Pará, viu a movimentação de caminhoneiros e prostitutas num posto de estrada. Aquela cena se tornaria o embrião de Iracema.
Iracema e o cinema que a ditadura não queria ver
Em 1971, Bodanzky dirigiu seu primeiro filme, Caminhos de Valderez, em parceria com Hermano Penna. No ano seguinte, fundou em Munique a produtora Stopfilm, com Wolf Gauer, para realizar documentários sobre o Brasil e a América Latina. Foi com financiamento da televisão alemã ZDF que ele voltou à Amazônia para rodar seu primeiro longa-metragem.
Iracema, uma transa amazônica acompanha uma jovem do interior do Amazonas que vai a Belém para o Círio de Nazaré, entra na prostituição e conhece um caminhoneiro que transporta madeira pela Transamazônica. A protagonista, Edna de Cássia, foi descoberta num programa de auditório em Belém, sem experiência anterior em atuação. Paulo César Pereio interpreta Tião Brasil Grande. A equipe rodava em 16 mm, com som direto, em locações e sem repetir takes, para escapar da atenção dos militares.
O filme estreou na televisão alemã em 1975 e circulou por festivais internacionais, mas teve a exibição proibida no Brasil. Ficou censurado por cerca de seis anos e só foi liberado em 1981. Quando chegou ao Festival de Brasília, recebeu os Candangos de melhor filme, atriz, atriz coadjuvante e montagem. Entre os prêmios internacionais estão o Prix Georges Sadoul, na França, e o Grimme-Preis, na Alemanha.
Gitirana, Os Mucker e Jari: quando a ficção enfrenta o projeto oficial
O sucesso de Iracema abriu caminho para Gitirana (1975), também codirigido com Orlando Senna. Baseado na peça Teatro de Cordel, o filme usa a construção da barragem de Sobradinho, na Bahia, como cenário para narrar a expulsão de milhares de moradores e a resistência de uma personagem que atravessa várias encarnações. O longa passou pela Quinzena dos Realizadores de Cannes, mas também foi proibido no circuito comercial brasileiro.
Em Os Mucker (1978), codirigido com Wolf Gauer, Bodanzky reconstituiu o massacre da comunidade religiosa liderada por Jacobina Mentz Maurer, no Rio Grande do Sul do século XIX, com atores descendentes dos colonos e no mesmo dialeto dos antepassados. O filme recebeu o prêmio de melhor direção no Festival de Gramado de 1979. No ano seguinte, Jari (1979) expôs a destruição ambiental e as condições de trabalho no projeto do empresário americano Daniel Ludwig na Amazônia, a partir de uma CPI no Pará.
Em Terceiro Milênio (1980), codirigido com Wolf Gauer, a câmera acompanha a campanha do senador Evandro Carreira pelo rio Solimões, em território do povo Ticuna. O documentário recebeu o prêmio Jeune Cinéma em Cannes. Já Igreja dos Oprimidos (1985), codirigido com Helena Salem, registra a atuação da Igreja Católica progressista na luta pela terra em Conceição do Araguaia, no Pará, e recebeu o prêmio Margarida de Prata. Em 1990, A Propósito de Tristes Trópicos, codirigido com Patrick Menget e Jean-Pierre Beaurenaut, revisitou a obra de Claude Lévi-Strauss.
A Amazônia como método de trabalho
A relação de Bodanzky com a Amazônia não se limita aos filmes. Em 2000, ele iniciou o projeto Navegar Amazônia, que levou internet a escolas ribeirinhas do Amapá por meio de um barco. Antes disso, havia criado o portal Amazonlife, enciclopédia online sobre a região que ficou no ar até 2001, e coordenado a série Ecovídeo, com programas educativos para crianças da Amazônia.
Em 2005, dirigiu Navegaramazônia: uma viagem com Jorge Mautner, encontro com o músico e escritor Jorge Mautner a bordo do barco que percorreu rios da região. O filme recebeu o prêmio do público de melhor documentário no Amazonas Film Festival. Quatro anos depois, No Meio do Rio, Entre as Árvores (2009) voltou ao Alto Solimões para reencontrar os Ticuna filmados em Terceiro Milênio, quase três décadas depois.
Essa permanência rendeu uma obra em que a viagem é método, não tema decorativo. Bodanzky costuma filmar o deslocamento, a precariedade e o imprevisto, deixando que o percurso altere o filme. A frase que resume sua relação com o cinema, registrada em depoimento, é direta: a satisfação é plena quando consegue juntar viagem e cinema, e quanto mais longe, incômodo e precário, melhor.
Fotografia, acervo e reconhecimento
A fotografia acompanhou Bodanzky antes, durante e depois do cinema. Em 1971, ganhou o primeiro lugar no concurso internacional Asahi Pentax com uma série sobre pescadoras do Rio Grande do Norte. Participou de exposições coletivas, publicou em revistas e ilustrou livros, sem transformar a atividade em carreira separada. Suas imagens de Brasília, do interior do Brasil e da Amazônia mantêm o mesmo olhar de repórter que não esconde o veículo, a estrada ou o corpo de quem fotografa.
Em 2013, o acervo fotográfico analógico de Bodanzky, com mais de 8 mil imagens, foi adquirido pelo Instituto Moreira Salles. O IMS também preserva seus filmes em super-8 e vídeos. A partir de 2016, ele passou a assinar uma coluna em vídeo na revista ZUM, entrevistando fotógrafos e artistas. A produção fotográfica pode ser explorada na página de fotografia do site.
Em 2024, o IMS Paulista apresentou Que país é este? A câmera de Jorge Bodanzky durante a ditadura brasileira, 1964-1985, com curadoria de Thyago Nogueira. A exposição reuniu fotografias, frames de filmes e imagens em super-8 produzidas entre o golpe e a redemocratização, e ganhou um catálogo com textos de Ailton Krenak, Cláudia Mesquita e Joel Zito Araújo, entre outros. A mostra passou por Fortaleza, São Paulo e Brasília.
O reconhecimento institucional veio em 2026, quando a Universidade de Brasília concedeu a Bodanzky o título de doutor honoris causa. A homenagem fecha um ciclo iniciado nos corredores da própria UnB, interrompido pelo golpe de 1964 e retomado por uma obra que nunca deixou de olhar para o país que se formou depois dele.
O que assistir primeiro
Quem chega à obra de Bodanzky pela primeira vez pode começar por Iracema, uma transa amazônica, disponível na Netflix, e seguir para os documentários que ampliam o diagnóstico da Amazônia e da ditadura. Uma ordem possível:
- Iracema, uma transa amazônica (1974), o filme que o tornou conhecido e permanece como porta de entrada.
- Jari (1979), sobre o projeto de Daniel Ludwig e a devastação da floresta.
- Terceiro Milênio (1980), retrato de uma campanha política no rio Solimões.
- Igreja dos Oprimidos (1985), sobre a luta pela terra no Araguaia.
- No Meio do Rio, Entre as Árvores (2009), reencontro com os Ticuna.
- Amazônia, a Nova Minamata? (2022), sobre o garimpo ilegal e a contaminação por mercúrio.
Para quem quer entender a formação do olhar antes dos longas, o acervo do IMS e as entrevistas da coluna na ZUM mostram o fotógrafo em ação. Já o catálogo da exposição de 2024 organiza o período mais politicamente decisivo de sua produção e ajuda a ler os filmes como parte de uma mesma investigação sobre o Brasil.




