Iracema, uma transa amazônica é o filme que colocou Jorge Bodanzky no centro do cinema brasileiro e, ao mesmo tempo, o manteve longe das salas do país por quase uma década. Rodado em 1974 ao longo da Transamazônica, o longa codirigido com Orlando Senna acompanha uma jovem indígena que sai do interior do Amazonas para Belém, é levada à prostituição e cruza o caminho de um caminhoneiro que transporta madeira. A história é ficção, mas o cenário, os corpos e as situações vêm do registro documental.
Uma estrada aberta na floresta
O ponto de partida do filme é uma reportagem. Em 1968, Bodanzky viajou à Amazônia para a revista Realidade e observou a rotina de caminhoneiros e prostitutas num posto de estrada, no Pará. A imagem ficou guardada até 1974, quando a televisão alemã ZDF financiou o projeto. O governo brasileiro não tinha interesse em produzir uma obra sobre os efeitos da rodovia, e o dinheiro estrangeiro permitiu que a equipe rodasse com liberdade relativa.
A produção foi enxuta. O filme foi feito em 16 mm, com som direto, em locações reais e com uma equipe pequena. Para não chamar a atenção dos militares, o grupo estacionava a Kombi, improvisava a cena e saía rapidamente. Não havia repetição de take. Essa urgência aparece na tela: os enquadramentos trepidam, as pessoas olham para a câmera e o fora de quadro invade a narrativa.
Ficção e documento no mesmo plano
A força do filme está na recusa em separar os dois registros. Edna de Cássia, descoberta num programa de auditório em Belém, contracena com Paulo César Pereio e com moradores das regiões por onde a equipe passou. Os diálogos têm forma de entrevista, e as imagens de queimadas, extração ilegal de madeira e pobreza entram na montagem sem aviso. O resultado não é um documentário sobre a Transamazônica nem uma ficção convencional, mas um híbrido que desconforta tanto pela forma quanto pelo tema.
A trajetória de Iracema funciona como fio condutor. A personagem sai da comunidade indígena, passa pelo Círio de Nazaré, pela prostituição e pela estrada, e termina em decadência. O caminhoneiro Tião Brasil Grande representa o discurso do progresso, convencido de que a floresta existe para ser transformada em lucro. O encontro e a separação dos dois foram lidos por Bodanzky como o choque entre o mundo do rio e o mundo da estrada.
Censura, prêmios e circulação
O filme estreou na televisão alemã em 1975 e ganhou rapidamente atenção internacional. Recebeu o Prix Georges Sadoul, na França, e o Grimme-Preis, na Alemanha. Uma agência do governo alemão comprou cem cópias para distribuir em escolas. No Brasil, a exibição foi proibida, e o longa ficou cerca de seis anos fora do circuito.
Quando foi liberado, em 1981, o filme chegou ao Festival de Brasília e recebeu os Candangos de melhor filme, atriz, atriz coadjuvante e montagem. A temporada de censura não impediu que a obra se tornasse referência: ela passou a ser estudada em cursos de cinema, exibida em cineclubes e citada como um dos retratos mais duros da ocupação da Amazônia durante a ditadura.
Por que o filme continua atual
A rodovia nunca foi concluída como prometido, mas a lógica que ela representa segue em operação. O desmatamento, a grilagem, o trabalho precário e a violência contra povos indígenas continuam a pautar a Amazônia. Ao mostrar a estrada como promessa e como ruína, Iracema antecipa um debate que o país ainda não encerrou. A frase de Tião Brasil Grande sobre a natureza ser o seu caminhão soa hoje como diagnóstico, não como ficção.
O filme também ajuda a entender a trajetória de Bodanzky. Depois dele, o diretor voltaria à região em Jari, Terceiro Milênio, No Meio do Rio, Entre as Árvores e Amazônia, a Nova Minamata?, sempre com a mesma pergunta sobre o custo do progresso. Iracema é o começo dessa investigação e, para muitos leitores, a melhor porta de entrada.
Como assistir
A versão digital do filme está disponível na Netflix. O IMS também lançou uma edição em DVD, com os extras Era uma vez Iracema, Ainda uma vez Iracema e uma faixa comentada por Bodanzky, Eduardo Escorel e João Moreira Salles. Para quem quer estudar a obra, vale combinar o filme com os textos do catálogo da exposição Que país é este?, que contextualiza a produção do período.



