Há um José de Alencar de caderno escolar — o da índia Iracema e do guerreiro Peri — e há o outro, menos ensinado: o advogado cearense que chegou a ministro da Justiça do Império, polemizou com o jovem Joaquim Nabuco e escreveu romances urbanos em que o dote pesa mais do que a declaração de amor.
Quem busca o nome hoje quase sempre quer duas coisas ao mesmo tempo: saber quem foi o autor de Iracema e entender por que O Guarani, Senhora e Lucíola ainda circulam em edições de bolso, salas de aula e listas de clássicos brasileiros. Jornalista, romancista, deputado e ministro, a figura pública interessa tanto quanto os livros — e cada obra pede página própria.
Quem foi José de Alencar
José Martiniano de Alencar nasceu em 1º de maio de 1829, em Messejana, então freguesia da província do Ceará, hoje bairro de Fortaleza. Morreu no Rio de Janeiro em 12 de dezembro de 1877, aos 48 anos, de tuberculose. Foi jornalista, advogado, político, ensaísta, dramaturgo e o principal romancista do romantismo brasileiro.
O nome completo aparece nos registros; o público o conhece como José de Alencar. Em polêmica literária usou o pseudônimo Ig. Nas cartas políticas ao imperador assinou Erasmo. Machado de Assis, que esteve no velório e o escolheu patrono da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, resumiu aqueles quinze dias numa só frase de luto: a morte de Alencar.
Ele não foi apenas o inventor de um índio literário. Escreveu teatro sobre a escravidão, crônica de jornal, romance histórico, regionalista e urbano. O mesmo homem que publicava folhetim no Diário do Rio de Janeiro ocupava cadeira na Câmara e, entre 1868 e 1870, a pasta da Justiça no Gabinete Itaboraí.
Do Ceará ao Rio: família, Direito e imprensa
A família Alencar já era política antes dele nascer. O pai, José Martiniano Pereira de Alencar, padre, revolucionário e depois senador pelo Ceará, ligava o clã à Revolução Pernambucana de 1817 e à Confederação do Equador. A avó paterna, Bárbara de Alencar, entrou para a memória pública daqueles levantes. O menino cresceu, portanto, numa casa em que o Império não era cenário distante.
Aos nove anos atravessou a seca de Pernambuco numa viagem do Ceará à Bahia, a caminho do Rio de Janeiro. Mais tarde, no opúsculo autobiográfico Como e por que sou romancista, apontou essa travessia como semente de O Guarani. No Rio, estudou no Colégio de Instrução Elementar. Em 1846 entrou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo; cursou parte do bacharelado em Olinda e formou-se em 1850. Leu Balzac, Dumas, Victor Hugo, Chateaubriand. Com colegas fundou a revista Ensaios Literários.
Diplomado, estabeleceu-se no Rio como advogado no escritório de Caetano Alberto. A literatura entrou pela imprensa: crônicas Ao correr da pena no Correio Mercantil, passagem pelo Jornal do Comércio e, de 1855 a 1858, a direção do Diário do Rio de Janeiro. Foi nesse jornal, em 1856, que publicou as Cartas sobre a Confederação dos Tamoios, ataque ao poema épico de Gonçalves de Magalhães — polêmica da qual o próprio d. Pedro II participou sob pseudônimo. No ano seguinte, o mesmo periódico estampava os folhetins de O Guarani.
O romance brasileiro que ele quis inventar
Alencar escreveu como quem queria uma literatura falada em português do Brasil, com mata, sertão, Corte e vocabulário indígena, e não um decalque de Lisboa. O romantismo europeu lhe deu forma; o assunto, ele foi buscar em casa. Daí a divisão que os manuais repetem e que, neste caso, realmente organiza a obra:
- Indianistas: O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874), a trilogia que inventa origens simbólicas para o país.
- Urbanos: Lucíola (1862), Diva (1864) e Senhora (1875), romances da sociedade burguesa do Rio em que mulheres sustentam o enredo.
- Regionalistas e históricos: O gaúcho, O sertanejo, Til, As minas de prata, entre outros, mapearam fronteira, fazenda e passado colonial.
A escola costuma parar em Iracema e Peri. Quem abre Senhora encontra outro Alencar: o da Corte, do casamento como contrato e da heroína que compra o noivo que a rejeitou. Esses romances urbanos lançaram base para a ficção psicológica brasileira. Não é adorno de biografia: é o fio que liga o cearense a leituras posteriores, inclusive as de Machado.
No verso, o indianismo em prosa conversa com o de Gonçalves Dias na poesia. No teatro, peças como Mãe (1860) e O demônio familiar puseram a escravidão em cena, o que não o poupou da acusação, feita por Nabuco, de nacionalismo hipócrita. A obra é ampla o bastante para caber as duas observações ao mesmo tempo.
Deputado, ministro da Justiça e o debate sobre a escravidão
Eleito deputado pelo Partido Conservador do Ceará em 1860, Alencar estreou na Câmara em 1861 e se reelegeu. Em 1868, no Gabinete Itaboraí, assumiu o Ministério da Justiça por pouco mais de dois anos. Como ministro, em 1869, proibiu a venda de escravos em pregão e a exposição pública, inclusive leilões comerciais, sob pena de multa. Em 1870 apresentou projeto que previa liberdade dos escravos da fazenda pública, pecúlio do cativo e taxação maior sobre escravos — peças que, sem aprovação naquele momento, ecoaram na lei de 1871.
Isso não o torna um abolicionista no sentido de Joaquim Nabuco. Alencar defendia emancipação gradual, temia o corte brusco e atacou a ideia do Ventre Livre como reforma de uma instituição que, segundo ele, deveria desaparecer, não ser retocada. Nas Cartas políticas de Erasmo, publicadas entre 1865 e 1868, falou ao imperador sobre a Guerra do Paraguai, o Poder Moderador e a questão servil. A polêmica com Nabuco, nos folhetins de O Globo, misturou crítica literária e acusação política; décadas depois, em Minha formação, Nabuco confessou receio de ter tratado o escritor com a presunção da mocidade.
Em março de 1868, para defender o sogro Tomás Cochrane, pediu habeas corpus preventivo — mecanismo ainda não incorporado ao direito brasileiro, que se tornaria lei em 1871. No ensaio O sistema representativo discutiu voto e, entre outros pontos, a participação política das mulheres. Em 1870 afastou-se da carreira política, magoado com d. Pedro II. A literatura, que nunca tinha parado, passou a ocupar o centro do que lhe restava de vida.
O que ler primeiro e por quê
A porta de entrada depende da pergunta. Quem quer o Alencar da lenda nacional começa por Iracema ou O Guarani. Quem quer o romancista da Corte abre Senhora ou Lucíola. Os quatro títulos concentram a busca pública e bastam para ver as duas metades da obra: a invenção do Brasil e o retrato da sociedade imperial.
Há edições baratas, comentadas e de bolso. O texto é o mesmo clássico; mudam notas, ortografia atualizada e apresentação. Vale escolher uma edição íntegra, em português, e não uma adaptação que troca o ritmo do original por resumo. Carlos Gomes transformou O Guarani na ópera Il Guarany, estreada em 1870: quem chega pelo palco encontra o mesmo Peri e a mesma Ceci, noutro idioma da fama.
Memória pública: ABL, teatro e a casa de Messejana
Alencar morreu antes da fundação da Academia Brasileira de Letras. Mesmo assim, Machado o fez patrono da cadeira 23. Em Fortaleza, o Theatro José de Alencar (1910), a praça e a estação de metrô carregam o nome. No Rio, a estátua de Rodolfo Bernardelli ocupa a praça José de Alencar, no Flamengo, desde 1897. A casa natal no Alagadiço Novo, em Messejana, hoje funciona como equipamento cultural da Universidade Federal do Ceará.
A busca pelo autor, portanto, não é só escolar. É também geografia: quem visita Fortaleza encontra o teatro e a casa; quem lê Iracema encontra o Ceará inventado em prosa. Entre o museu, o folhetim e o ministério, José de Alencar permanece o romancista que quis dar língua e enredo a um país que ainda ensaiava os dois.





