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Gonçalves Dias

Antônio Gonçalves Dias

Nascimento: 1823 Caxias, Maranhão
Poeta maranhense do romantismo, autor da Canção do Exílio e de I-Juca-Pirama. Patrono da cadeira 15 da ABL, nasceu em 1823 e morreu no naufrágio de 1864.

Quem recita “Minha terra tem palmeiras” quase nunca recita o resto. O verso virou cartão-postal, lição de escola e pedaço do Hino Nacional, mas nasceu de um estudante de Direito em Coimbra, maranhense, longe demais da terra que cantava.

Antônio Gonçalves Dias nasceu em 10 de agosto de 1823 no sítio Boa Vista, em terras de Jatobá então ligadas a Caxias, no Maranhão — hoje município de Aldeias Altas. Morreu em 3 de novembro de 1864, no naufrágio do navio francês Ville de Boulogne, na costa de Guimarães. Entre as duas datas, o Império ganhou o poeta que José de Alencar chamou de nacional por excelência, e a Academia Brasileira de Letras o tomou depois como patrono da cadeira 15, por escolha de Olavo Bilac.

Quem foi Gonçalves Dias

Gonçalves Dias foi poeta, dramaturgo, jornalista, advogado e etnógrafo da primeira geração do romantismo brasileiro. A obra dele cruzou indianismo, lírica amorosa, teatro em verso e estudo de línguas indígenas. Não é um autor de um poema só, embora a Canção do Exílio tenha coberto o restante com uma fama tão densa que muita gente chega até ele pelo sabiá antes de saber que existiram I-Juca-Pirama, Os Timbiras e Leonor de Mendonça.

A crítica o colocou cedo no centro da conversa nacional. Alexandre Herculano, em Lisboa, saudou os Primeiros Cantos como livro de um grande poeta. Alencar, em Iracema, recusou disputa: “ninguém lhe disputa na opulência da imaginação, no fino lavor do verso, no conhecimento da natureza brasileira e dos seus costumes selvagens”. Machado de Assis, ao noticiar a morte, chamou-o de “o mais prezado filho” da poesia nacional. São juízos de época, não slogan de capa: descrevem um autor que o Império leu como quem dava forma literária ao Brasil.

Ele não é o ultrarromântico da vigília sombria de Álvares de Azevedo, nem o versificador da escravidão e da liberdade de Castro Alves. Fica na geração anterior, a do nacionalismo e do índio como herói. Casimiro de Abreu, mais jovem, chegou a escrever uma Canção do exílio própria, paródia consciente da de Gonçalves Dias — o que já diz o tamanho do texto original: virou molde, não só recitação.

De Caxias a Coimbra, e o retorno ao Rio

Era filho de João Manuel Gonçalves Dias, comerciante português de Trás-os-Montes, e de Vicência Ferreira, maranhense mestiça de origem indígena e negra. A união dos pais não foi oficializada. Depois do casamento do pai com Adelaide Ramos D’Almeida, o menino foi viver com o casal e, segundo a biografia consolidada, ficou longe da mãe biológica por anos. Estudou latim, francês e filosofia; ajudou na loja paterna; perdeu o pai em 1837.

Em 1838 seguiu para Portugal. Terminou o secundário e, em 1840, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Ali circulou entre os grupos românticos da Gazeta Literária e de O Trovador, leu Almeida Garrett, Alexandre Herculano e António Feliciano de Castilho, e absorveu o teatro de Friedrich Schiller. A saudade da pátria virou método. Foi em Coimbra que escreveu a Canção do Exílio e boa parte do que viria nos Primeiros Cantos e nos Segundos Cantos, além dos dramas Patkull e Beatriz Cenci.

Bacharelou-se e voltou em 1845. No ano seguinte, no Maranhão, viu Ana Amélia Ferreira Vale, a quem pediria em casamento mais tarde. A família recusou o pedido em nome do preconceito de raça e casta, episódio que a fortuna crítica liga a poemas como Ainda uma vez — Adeus. Em 1852 casou-se no Rio com Olímpia da Costa, filha do médico Cláudio Luís da Costa. A união durou pouco; a filha Joana morreu antes dos dois anos.

No Rio, Gonçalves Dias foi professor de história e latim do Colégio Pedro II e escreveu para o Jornal do Commercio, a Gazeta Oficial e outros periódicos. Em 1849 fundou com Manuel de Araújo Porto-Alegre e Joaquim Manuel de Macedo a revista Guanabara, vitrine do romantismo da Corte. Foi nomeado oficial da Secretaria dos Negócios Estrangeiros e, a pedido do governo, estudou a instrução pública no Maranhão. A carreira pública e a literária andaram juntas: o poeta do índio também era funcionário do Império.

Canção do Exílio, indianismo e os Cantos

Os Primeiros Cantos saíram no Rio em 1846, pela Laemmert. Ali está a Canção do Exílio, escrita em 1843. Dois versos desse poema — os bosques com mais vida, a vida com mais amores — entraram depois no Hino Nacional Brasileiro. Isso explica a onipresença escolar, mas também distorce a leitura: o texto é saudade de estudante, contraste entre o “cá” europeu e o “lá” brasileiro, não um folheto patriótico solto.

O indianismo, que ele desenvolveu ao lado da prosa de Alencar, ganhou densidade em I-Juca-Pirama, publicado nos Últimos Cantos de 1851, e em Os Timbiras, poema épico de 1857, impresso em Leipzig pela Brockhaus. No primeiro, um guerreiro tupi preso pelos Timbiras pede a vida para cuidar do pai doente e se vê entre honra, cativeiro e ritual. No segundo, a epopéia da formação e da dispersão de um povo. Quem busca só o sabiá encontra aqui o outro Gonçalves Dias: o do verso longo, da fala indígena estilizada e do conflito ético.

Houve ainda teatro. Leonor de Mendonça, de 1846, é a peça que ele viu publicada em vida. Patkull, Beatriz Cenci e Boabdil ficaram para as obras póstumas. Em 1858 saiu o Dicionário da Língua Tupi, também em Leipzig — o mesmo autor dos cantos compilava a “língua geral” dos indígenas do Brasil. A etnografia não era hobby de gabinete: cruzava com a Comissão Científica de Exploração, da qual participou entre 1859 e 1862, viajando pelo Norte e pelo Nordeste.

  • Primeiros Cantos (1846): livro de estreia, com a Canção do Exílio e as Poesias Americanas.
  • Segundos Cantos (1848): inclui as Sextilhas de Frei Antão.
  • Últimos Cantos (1851): traz I-Juca-Pirama, ponto alto do indianismo em verso.
  • Os Timbiras (1857): epopéia indígena, publicada em Leipzig.
  • Dicionário da Língua Tupi (1858): vocabulário da língua geral, face etnográfica da mesma carreira.

Quem pesquisa literatura brasileira do século XIX encontra, portanto, um autor de catálogo poético curto e penetração longa. Sílvio Romero observou que, se Gonçalves Dias tivesse desaparecido em 1854, aos 31 anos, “teríamos o nosso Gonçalves Dias completo”: quase toda a poesia canônica estava pronta antes da última década de vida.

Doença, naufrágio e a fortuna póstuma

Em 1862 voltou à Europa para tratar a saúde. Passou por estações de cura e, sem melhora, embarcou no Havre em 10 de setembro de 1864 no Ville de Boulogne. O navio naufragou no baixio dos Atins, na baía de Cumã, município de Guimarães, Maranhão. Salvaram-se os demais. O poeta, já agonizante no camarote, foi a única vítima. Tinha 41 anos.

A notícia chegou ao Rio e Machado de Assis escreveu no Diário do Rio de Janeiro de 29 de novembro de 1864: a poesia nacional cobria-se de luto. As Obras póstumas, organizadas por Antônio Henriques Leal em São Luís, saíram a partir de 1868. Praças, ruas, escolas, um município maranhense e o museu no povoado Jatobá carregam o nome dele. A cadeira 15 da ABL ficou sob o patrocínio simbólico do poeta, com Bilac como fundador.

Essa fortuna não apaga o que a obra fez de mais difícil. O índio de Gonçalves Dias é construção romântica, não documento de aldeia. A Canção do Exílio cabe na boca de qualquer um e, por isso mesmo, pede o resto do livro. João Cezar de Castro Rocha relê exatamente esse nó em Exílio como forma: experiência histórica, forma literária e imaginação nacional no mesmo nome.

Como ler Gonçalves Dias hoje

O caminho mais direto continua sendo a Canção do Exílio seguida dos Primeiros Cantos. Quem parar no poema da escola leva para casa um Brasil de palmeira e sabiá, e perde o guerreiro de I-Juca-Pirama, o teatro de Leonor de Mendonça e o dicionário tupi. A edição da Itatiaia dos Primeiros Cantos e o volume da Martin Claret que reúne I-Juca-Pirama e Os Timbiras são portas estáveis no catálogo em português.

Gonçalves Dias não deixou método, curso, empresa nem rede social. A autoridade dele é outra: o poeta que o século XIX brasileiro escolheu para dizer o país em verso, com um naufrágio no fim e um hino no meio. Para o leitor de agora, o ganho está em separar o recorte escolar da obra que de fato existe — curta no tempo, larga na memória, e ainda capaz de sustentar debate sobre índio, exílio e nação.

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Primeiros Cantos
Primeiros Cantos
Livro de estreia de Gonçalves Dias, de 1846, com a Canção do Exílio e as Poesias Americanas.
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I-Juca Pirama
I-Juca Pirama
Épico indianista de Gonçalves Dias reunido aos Timbiras e a outros poemas na edição da Martin Claret.
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