Antes de virar nome de vestibular, José Lins do Rego era o menino do Engenho Corredor. Cresceu na várzea do Paraíba vendo o avô mandar em oito engenhos. Quando a usina chegou, aquele mundo não teve conserto — só memória. Ele fez da memória o ofício.
José Lins do Rego Cavalcanti nasceu em Pilar, na Paraíba, em 3 de junho de 1901, e morreu no Rio de Janeiro em 12 de setembro de 1957. Quem o procura hoje encontra o romancista da geração de 1930 que pagou a primeira edição de Menino de engenho, conviveu em Maceió com Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz, e deixou em Fogo morto o retrato mais duro da casa-grande apagando o fogo da moagem.
Quem foi José Lins do Rego
Chamado de Zé Lins e, entre amigos, de Zélins, ele foi romancista, jornalista e cronista. Integra o regionalismo nordestino da literatura brasileira do século XX ao lado de Graciliano, Rachel e Jorge Amado. Otto Maria Carpeaux o chamou de “o último contador de histórias”. A fórmula pega porque a prosa dele parece conversa de engenho: frase solta, oral, sem laço de gabinete.
Não foi só o menino que virou livro. Formou-se em Direito no Recife em 1923, passou rápido pela promotoria em Manhuaçu, Minas Gerais, e viveu em Maceió como fiscal de bancos e depois fiscal de consumo. Em 1935 mudou-se para o Rio. Entre 1942 e 1954 foi secretário-geral da Confederação Brasileira de Desportos. Flamenguista assumido, sofreu o futebol como sofreu o engenho: por dentro. Em 15 de setembro de 1955 foi eleito para a cadeira 25 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Ataulfo de Paiva. Tomou posse em 15 de dezembro de 1956, recebido por Austregésilo de Athayde.
A obra que o firmou começa em 1932, em Maceió, com dois mil exemplares que ele mesmo custeou. João Ribeiro elogiou. A Fundação Graça Aranha premiou. O editor José Olympio entrou no jogo a partir de Banguê e segurou o catálogo por décadas. Hoje a Global Editora republica os romances em português, e o ciclo da cana-de-açúcar continua sendo a porta de entrada de quem quer entender o Nordeste açucareiro sem cartão-postal.
O menino do Engenho Corredor
Filho de João do Rego Cavalcanti e de Amélia Lins Cavalcanti, José Lins nasceu na casa do Engenho Corredor, município de Pilar. A mãe morreu cedo. O menino foi criado pelo avô materno, José Lins Cavalcanti de Albuquerque — o coronel Bubu do Corredor, senhor de oito engenhos. Ficou ali até cerca dos doze anos. O pai tinha o Engenho Tapuá, em São Miguel de Taipu; a infância, porém, se escreveu no Corredor.
Os primeiros estudos passaram pelo internato de Itabaiana, pelo Instituto Nossa Senhora do Carmo e pelo Colégio Diocesano Pio X, em João Pessoa. Em Recife, frequentou o Colégio Carneiro Leão e o Oswaldo Cruz. Leu O Ateneu, de Raul Pompéia, ainda adolescente. Em 1918, aos dezessete, encontrou Machado de Assis por Dom Casmurro. A formação literária veio misturada com a fala do eito, as histórias da velha Totônia e a leitura de Os doze pares da França.
Essa matéria não virou enfeite. O internato rígido de Itabaiana reaparece em Doidinho. A casa-grande, o moleque, o coronel e a bagaceira reaparecem em Menino de engenho, Banguê e Usina. Quem lê o conjunto vê o neto do senhor de engenho descrevendo o próprio chão sem transformar a infância em paraíso. Há cheiro de moagem e há chicote. Há rio e há senzala. A saudade existe; a crítica também.
Recife, Maceió e o romance de 1930
Matriculou-se em 1920 na Faculdade de Direito do Recife. Colaborou no Jornal do Recife. Em 1922 fundou o semanário Dom Casmurro com Osório Borba. Amizade decisiva: Gilberto Freyre, de volta dos Estados Unidos em 1923, trouxe para o círculo pernambucano uma leitura nova da formação brasileira. José Américo de Almeida, autor de A Bagaceira, também circulava por ali. O Recife deu o método; o engenho tinha dado o assunto.
Casou-se em 1924 com a prima Philomena Massa, a Naná, filha do senador Antônio Massa. A passagem por Manhuaçu, em 1925, durou pouco. Em 1926 estava em Maceió, fiscal de bancos até 1930 e fiscal de consumo de 1931 a 1935. Escreveu no Jornal de Alagoas. O grupo da cidade era raro: Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Aurélio Buarque de Holanda, Jorge de Lima, Valdemar Cavalcanti. Foi nesse convívio que saíram Menino de engenho (1932), Doidinho (1933) e Banguê (1934).
Há um fato de amizade que pesa. Quando Graciliano foi preso em 1936, José Lins ajudou a conseguir advogado — Sobral Pinto — e, depois da cadeia, hospedou o amigo. Angústia chegou às livrarias com essa rede. Em 1942, os dois ainda cruzaram a página com Jorge Amado, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz em Brandão entre o mar e o amor, romance a várias mãos. A geração de 1930 se encontrava no livro e na vida pública.
O ciclo da cana-de-açúcar
O próprio autor organizou a obra em ciclos. O da cana-de-açúcar reúne, na divisão que ele preferia, Menino de engenho, Doidinho, Banguê, Fogo morto e Usina. Há ainda o ciclo do cangaço, do misticismo e da seca — Pedra bonita e Cangaceiros — e romances que ele via como independentes: O moleque Ricardo, Pureza, Riacho doce, Água-mãe e Eurídice.
O que o ciclo da cana faz, livro a livro, é acompanhar o engenho perdendo para a usina. Carlos, o menino de Santa Rosa, cresce, vai ao internato, herda o mundo do avô e vê a fábrica industrial engolir a moagem antiga. O moleque Ricardo desloca o eixo para Recife e para o trabalhador negro que sai do engenho rumo à cidade. Usina fecha a conta econômica. Fogo morto, publicado em 1943, muda a arquitetura: três personagens, três tempos, sem o memorialismo direto dos primeiros livros.
- Menino de engenho (1932) — a infância no engenho, Prêmio da Fundação Graça Aranha, primeira edição paga pelo autor.
- Doidinho (1933) — o internato, o apelido da infância, o sonho de voltar ao Corredor.
- Banguê (1934) — o herdeiro entre a aristocracia do açúcar e o Brasil que muda.
- Fogo morto (1943) — José Amaro, Lula de Holanda e o capitão Vitorino; o engenho que deixa de moer.
- Riacho doce (1939) — o litoral, o forasteiro e a vila de pescadores, depois minissérie da Globo.
Alfredo Bosi viu na obra a expressão mais alta da passagem do engenho para a usina na Paraíba e em Pernambuco. Massaud Moisés colocou Fogo morto entre os livros representativos da ficção dos anos 1930, mesmo publicado em 1943. Antonio Candido destacou a qualidade humana das personagens. Wilson Martins discordou e leu o romance como reelaboração sem ganho. A divergência importa: o livro aguenta o debate.
Crônica, Flamengo e a Academia
No Rio, José Lins escreveu para os Diários Associados e para O Globo. A crônica mostrou o outro pulso do mesmo homem: futebol, viagem, cidade, memória. Reuniu textos em volumes como Gordos e magros, Poesia e vida, A casa e o homem e o póstumo O vulcão e a fonte. Viajou: Argentina e Uruguai em missão oficial, França a convite do governo, Europa com a delegação do Flamengo. Deixou Bota de sete léguas, Roteiro de Israel e Gregos e troianos.
O futebol não foi detalhe de rodapé. Foi secretário-geral da Confederação Brasileira de Desportos por doze anos. O museu que leva o nome dele em João Pessoa, no Espaço Cultural José Lins do Rego, guarda a carteira de sócio do Flamengo ao lado de passaportes, prêmios e o escritório remontado. Em 2008 saiu a seleção Flamengo é puro amor, 111 crônicas. O rubro-negro e o romancista eram a mesma pessoa.
Na Academia Brasileira de Letras, o discurso de posse cutucou o antecessor. A casa passou a avaliar previamente os textos dos novos imortais. Ele é também patrono da cadeira 39 da Academia Paraibana de Letras. Morreu no Rio aos 56 anos e foi sepultado no Cemitério de São João Batista. As memórias Meus verdes anos tinham saído no ano anterior, em 1956.
Por onde começar a ler José Lins do Rego
Depende do que se quer. Quem precisa da porta de entrada, da infância e da lista escolar começa por Menino de engenho. Quem quer o livro mais denso, com personagem que sobra da página, vai a Fogo morto. Quem busca outro recorte, fora da casa-grande, encontra em Riacho doce o litoral, o desejo e a vila que a televisão depois espalhou. Doidinho continua Carlos no internato. Pedra bonita e Cangaceiros abrem o sertão do misticismo e do cangaço.
O cinema e a TV ajudaram a circular o nome: Walter Lima Júnior filmou Menino de engenho em 1965, com produção de Glauber Rocha; Marcos Farias levou Fogo morto à tela em 1976; a Globo fez a minissérie de Riacho doce em 1990, com Vera Fischer e Carlos Alberto Riccelli. Nenhum filme substitui a fala do livro. A prosa de José Lins continua sendo o lugar em que o engenho ainda range, mesmo depois que o fogo da moagem se apagou.
Quem quiser o perfil institucional encontra a biografia na Academia Brasileira de Letras. Os romances em circulação saem pela Global e seguem nas livrarias. O que permanece, no fim, é menos o selo de clássico e mais a voz: um homem que escreveu o Nordeste como quem conta história na varanda, sem esconder que a varanda estava caindo.




