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José Sarney

Sarney

Nascimento: 1930 Pinheiro, Maranhão
José Sarney, de Pinheiro (MA), é advogado, escritor e político. Presidiu o Brasil de 1985 a 1990, ocupa a cadeira 38 da ABL e escreveu O Dono do Mar.

O país aprendeu a chamar de José Sarney o vice que tomou posse no lugar de Tancredo Neves. Antes da faixa, o nome já era um empréstimo: o menino de Pinheiro nasceu José Ribamar Ferreira de Araújo Costa e só regularizou Sarney em cartório em 1965, usando o prenome do pai, o desembargador Sarney de Araújo Costa.

Quem busca o perfil hoje mistura duas perguntas que não se separam bem. Uma é a do presidente da Nova República, entre o Plano Cruzado e a Constituição de 1988. A outra é a do escritor da cadeira 38 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 1980 — cinco anos antes da Presidência. As duas carreiras rodaram juntas por seis décadas.

De Pinheiro ao Liceu, com o nome do pai

José Ribamar nasceu em 24 de abril de 1930, em Pinheiro, na Baixada Maranhense. O pai, Sarney de Araújo Costa, foi promotor e depois desembargador; a mãe, Kyola Ferreira de Araújo Costa, veio de família que tinha cruzado o sertão pernambucano rumo aos vales úmidos do Maranhão. As remoções políticas do pai espalharam a infância por comarcas do interior. O primário passou pelo Colégio Mota Júnior, em São Bento, e pelo Colégio do professor Joca Rego, em Balsas.

Aos doze anos foi sozinho para São Luís. Prestou exame de admissão no Colégio Marista, ficou em pensão modesta e, depois do ginasial, transferiu-se para o Liceu Maranhense. Lá presidiu o Centro Liceísta, editou o jornal O Liceu e, em 1945, entrou nas ruas contra o Estado Novo. Chegou a ser detido depois de um ato no Teatro Arthur Azevedo; o dono da pensão foi buscá-lo. Aos dezesseis ganhou um concurso de reportagem d'O Imparcial com o pseudônimo Zé da Ilha e virou repórter policial. Pouco depois criou um suplemento literário — o jornalismo, diz ele até hoje, nunca saiu da rotina.

Formou-se em Direito pela Faculdade de Direito do Maranhão em 1953, no mesmo ano em que ingressou na Academia Maranhense de Letras. Com Bandeira Tribuzzi, Lucy Teixeira e Lago Burnett, fundou a revista A Ilha, que levou o pós-modernismo ao Estado. Ferreira Gullar circulava no mesmo meio. Em 12 de julho de 1952 casou-se com Marly Macieira; nasceram Roseana, Fernando e José Sarney Filho.

Deputado, governador e o Maranhão dos anos 1960

A carreira nacional começou torta. Em 1954 candidatou-se a deputado federal pelo PSD e ficou na suplência. Assumiu pela primeira vez em 1955, aos vinte e cinco anos. Migrou para a UDN, elegeu-se em 1958 e 1962, virou vice-líder por indicação de Afonso Arinos e, no partido, integrou o grupo que a imprensa chamou de Bossa Nova — Ferro Costa, José Aparecido, Seixas Dória — interessado em puxar a UDN para a questão social.

Em 1965 disputou o governo do Maranhão. A Justiça Eleitoral reviu o eleitorado; tropas federais cobriram o pleito. Sarney recebeu cerca de 120 mil votos, mais que a soma dos adversários Renato Archer e Costa Rodrigues. Convocou o jovem Glauber Rocha para registrar a campanha: o curta Maranhão 66 não serviu de propaganda e dois planos acabaram em Terra em transe. No Palácio dos Leões (1966–1970), o governo abriu o Porto do Itaqui, pavimentou a BR-135 até Teresina, construiu a ponte do São Francisco e a barragem do Bacanga, instalou a Universidade Federal do Maranhão e pôs no ar a primeira TV educativa do país, no programa João de Barro.

A filiação à ARENA, depois do AI-2, colocou-o no partido de sustentação do regime militar. Em 12 de dezembro de 1968, na véspera do AI-5, hospedou Juscelino Kubitschek em São Luís e viajou com ele no mesmo avião; JK foi preso ao desembarcar no Rio. Sarney falou no rádio que o mandato era “livre” e que, se não pudesse exercê-lo com independência, o caminho era “o da minha casa”. Em 1970 deixou o governo para o Senado. Relatou, em 1978, a Emenda Constitucional nº 11, que revogou os atos institucionais. Presidiu a ARENA e, em seguida, o PDS. Quando João Figueiredo impôs Paulo Maluf como candidato em 1985, Sarney rachou o partido, entrou na Frente Liberal e aceitou a vice na chapa de Tancredo Neves, pelo PMDB.

Como chegou à Presidência em 1985

O Colégio Eleitoral elegeu Tancredo e Sarney em janeiro de 1985, encerrando o ciclo militar. A posse estava marcada para 15 de março. Na véspera, Tancredo foi operado de emergência no Hospital de Base. Sarney tomou posse como vice no exercício da Presidência. Tancredo morreu em 21 de abril. O primeiro civil depois de vinte anos de ditadura era um homem que havia governado o Maranhão pela ARENA.

O governo durou até 15 de março de 1990. No papel, a transição avançou: eleições diretas para prefeito, governador e presidente; voto do analfabeto; convocação da Assembleia Nacional Constituinte. A Constituição de 1988 saiu daquela Assembleia e fixou o mandato de Sarney em cinco anos. Na economia, o diagnóstico era outro. Com Dilson Funaro, o Plano Cruzado congelou preços, criou a moeda cruzado e deu reajuste salarial. O alívio durou até as eleições de 1986. Vieram Cruzado II, Plano Bresser e Plano Verão. Nenhum segurou a hiperinflação. O governo também acumulou denúncias de superfaturamento e de favorecimento em concessões de rádio e televisão.

Na política externa, o Brasil reatou relações com Cuba, reaproximou-se da China e da União Soviética e assinou com a Argentina a Declaração do Iguaçu, embrião do Mercosul. A frase de campanha “tudo pelo social” ficou no arquivo; o que o eleitor de 1990 levou foi o cruzado furado e a Constituição nova.

Escritor da ABL, romances e o outro ofício

A literatura não esperou a Presidência. A Canção Inicial saiu no começo dos anos 1950. Norte das águas, de 1969, foi o primeiro livro de ficção e ainda é o retrato mais seco do Maranhão rural — honra, terra, pacto de sangue. Marimbondos de fogo (1978) confirmou o poeta. Em 17 de julho de 1980 a ABL elegeu Sarney para a cadeira 38; Josué Montello o recebeu. Hoje é o decano da Casa, no mesmo recinto em que José Murilo de Carvalho ocupou a cadeira 5 — outro imortal que cruzou literatura e política, por outro caminho.

O romance que mais viajou foi O Dono do Mar, saga de pescadores da costa maranhense traduzida para doze línguas e adaptada ao cinema. Saraminda (2000) desloca a trama para o garimpo do Amapá e da Guiana Francesa. A duquesa vale uma missa (2007) sai do Norte e encena Henrique IV e Gabrielle d’Estrées. Em 2025 a Ciranda Cultural, selo Principis, relançou os três romances; em maio de 2026 o Salão Negro do Senado repetiu a festa. A coluna semanal, que por décadas ocupou a Folha de S.Paulo, segue no site oficial.

  • Deputado federal pelo Maranhão (suplente em 1955; eleito em 1958 e 1962)
  • Governador do Maranhão (1966–1970)
  • Senador pelo Maranhão (1971–1985) e pelo Amapá (1991–2015)
  • Presidente da República (1985–1990)
  • Presidente do Senado em quatro biênios: 1995–1997, 2003–2005, 2009–2011 e 2011–2013
  • Imortal da ABL (cadeira 38, desde 1980) e da Academia Maranhense de Letras (desde 1953)

Senado, Amapá e o recuo de 2015

Fora do Planalto, Sarney não voltou ao Maranhão como candidato a senador. Em 1990 elegeu-se pelo Amapá, Estado que ele próprio havia criado na Constituinte, e cumpriu três mandatos até 1º de fevereiro de 2015. Presidiu o Congresso quatro vezes. Em 2014 anunciou que não disputaria de novo. Encerrava, então, sessenta anos de vida pública nacional — da suplência de 1955 à última sessão como senador.

A família continuou na política e na imprensa do Maranhão: Roseana foi governadora; José Sarney Filho, ministro; o jornal O Estado do Maranhão e emissoras do grupo seguem no mapa regional. O clã também acumulou denúncias e processos ao longo das décadas — parte da reputação pública de Sarney é exatamente essa sombra, e não convém pintá-la como detalhe.

Quem chega agora pelo governo encontra o presidente acidental da redemocratização. Quem chega pelo livro encontra o romancista de pescador e garimpeiro. Os dois são a mesma pessoa, e nenhum dos dois cabe na ficha de “ex-presidente que também escreve”. O site josesarney.org e o Instagram @sarney ainda publicam coluna, foto de arquivo e recado de imortal. A porta de entrada mais honesta continua sendo a pergunta com que o nome chegou até aqui: o vice de Tancredo, o menino que pegou emprestado o nome do pai.

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Projetos de José Sarney

O Dono do Mar
O Dono do Mar
Romance de José Sarney sobre pescadores da costa maranhense, mito e destino na água — a obra de ficção que mais viajou com o autor.
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Saraminda
Saraminda
Romance de José Sarney no garimpo do Amapá e da Guiana: ouro, desejo e a personagem que empresta o nome ao livro.
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Norte das águas
Norte das águas
Livro de contos de 1969 em que José Sarney estreou na ficção: honra, terra e gente rude do Maranhão, ainda com xilogravura na edição recente.
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