Antes de virar o historiador que pegou a frase de Aristides Lobo — o povo “assistiu àquilo bestializado” — e fez dela um problema de pesquisa, José Murilo de Carvalho passou a infância numa fazenda de leite no Campo das Vertentes e o ginásio em internatos franciscanos. Queria economia; a matemática do seminário não deu conta, e a UFMG o recebeu em Sociologia e Política.
O nome que o leitor encontra em Cidadania no Brasil, Os bestializados e A formação das almas não é o de um cronista de efemérides. É o de um cientista político doutorado em Stanford que passou o Império, a República e as Forças Armadas pelo crivo da cidadania — e, até o fim, escreveu na imprensa com a mesma disciplina de arquivo.
Da fazenda mineira ao doutorado em Stanford
José Murilo de Carvalho nasceu em 8 de setembro de 1939 em Piedade do Rio Grande, no Campo das Vertentes mineiro. A Companhia das Letras registra a origem “entre os arraiais de Piedade do Rio Grande e Santana do Garambéu”; a Academia Brasileira de Letras aponta Andrelândia, município vizinho da mesma região. A variação não é mistério biográfico: o arraial rural de então hoje cabe em mais de uma ficha municipal.
Alfabetizado pelo pai, viveu na fazenda até os dez anos. Seguiu internatos franciscanos em Santos Dumont (MG), perto de Garibaldi (RS) e em Divinópolis. Tentou vestibular para Ciências Econômicas na UFMG e não passou. Graduou-se em Sociologia e Política pela mesma universidade em 1965. O mestrado (1969) e o doutorado (1975) em Ciência Política vieram da Universidade Stanford, nos Estados Unidos; o pós-doutorado passou por Stanford e pela Universidade de Londres.
A tese sobre as elites políticas do século XIX saiu em dois livros que ainda sustentam a historiografia do Império: A construção da ordem: a elite política imperial (1980) e Teatro de sombras: a política imperial (1988). Neles, Carvalho mostrou, com dados e documentos, como se constituiu o Estado brasileiro, a continuidade com o aparato português e a manutenção da unidade territorial — sem reduzir a elite imperial a porta-voz automático dos proprietários rurais.
Professor, instituições e o trânsito internacional
Ensinou na UFMG (1969-1978), passou quase vinte anos no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (1978-1997) e, a partir de 1997, foi professor titular de História do Brasil no IFCS da UFRJ, onde se tornou emérito em 2011. A Reitoria da UFRJ registrou 12 monografias, 20 dissertações de mestrado e 20 teses de doutorado sob sua orientação. Também pesquisou na Fundação Casa de Rui Barbosa e no CPDOC da FGV.
Fora do Brasil, passou pelo Instituto de Estudos Avançados de Princeton, Oxford, Leiden, Stanford, Califórnia em Irvine, Notre Dame e pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. Ajudou a criar a pós-graduação em Ciência Política da UFMG e o doutorado no Iuperj. Não era um academicismo de gabinete fechado: desde os anos 1980 colaborava com jornais e revistas, e a historiadora Lúcia Bastos observou que ele tratava a intervenção pública como dever do intelectual.
- Graduação em Sociologia e Política pela UFMG (1965)
- Mestrado e doutorado em Ciência Política por Stanford (1969 e 1975)
- Professor emérito da UFRJ e pesquisador emérito do CNPq
- Membro da Academia Brasileira de Ciências (2003) e da Academia Brasileira de Letras (2004)
- Prêmios Jabuti por A formação das almas (1991) e por D. Pedro II (2008)
A República que não foi e o imaginário que tentou fabricá-la
Depois das elites do Império, Carvalho virou o olhar para quem ficou de fora da decisão. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi (Companhia das Letras, 1987) parte do comentário de Aristides Lobo sobre 15 de novembro e reconstrói a Capital Federal no nascimento do regime — cidade de políticas oficiais e invisíveis, de povo atônito e de uma República proclamada sem celebração popular. A ANPOCS elegeu o livro o melhor de ciências sociais de 1987.
A formação das almas: o imaginário da República no Brasil (Companhia das Letras, 1990) desloca a pergunta: se o povo não esteve na praça, como o regime fabricou heróis, bandeira, hino e um rosto nacional? O volume cruzou textos e imagens — monumentos, charges, símbolos — e levou o Jabuti de Estudos Literários (Ensaios) em 1991. Os dois livros conversam: um descreve a ausência política; o outro, a encenação que tentou preenchê-la.
Cidadania incompleta, militares e a voz na imprensa
Em Cidadania no Brasil: o longo caminho (Civilização Brasileira, 2001), Carvalho aplicou a tríade de T. H. Marshall — direitos civis, políticos e sociais — ao caso brasileiro e mostrou uma ordem invertida: direitos sociais, em vários trechos da história, chegaram antes dos civis plenos, com peso forte do Estado. Daí o termo “estadania”, que ele usou para descrever uma cidadania dependente da máquina pública. A obra ganhou o Prêmio Casa de las Américas em 2004 e virou leitura recorrente em vestibular, licenciatura e concurso.
O tema militar, que já aparecia em artigos dos anos 1970 e 1980, saiu em livro em 2005: Forças Armadas e política no Brasil. Em 2019, com a chegada de Jair Bolsonaro à Presidência, o historiador acrescentou um capítulo e republicou o volume pela Todavia. Em 2015, a propósito de falas públicas do então general Hamilton Mourão, alertou para o risco de envolvimento político das Forças Armadas. No bicentenário da Independência, coordenando a série “200 anos de Brasil” na ABL, escreveu que havia “pouco a celebrar, muito a questionar” e, em entrevista a O Globo, disse não enxergar o país como “o país do futuro”.
Essa fala pública não apaga o arquivo. Aparece no mesmo pesquisador que, com Lúcia Bastos e Marcelo Basile, organizou Às armas, cidadãos e Guerra literária, volumes sobre panfletos da Independência — de novo o esforço de trazer à luz quem não detinha o poder no momento decisivo. Também organizou, na Editora 34, um volume de textos de Bernardo Pereira de Vasconcelos.
ABL, morte e por onde começar a leitura
Eleito em 11 de março de 2004, José Murilo ocupou a cadeira 5 da Academia Brasileira de Letras na sucessão de Rachel de Queiroz; tomou posse em 10 de setembro daquele ano, recebido por Affonso Arinos de Mello Franco. Em 5 de outubro de 2023, a mesma cadeira elegeu Ailton Krenak, primeiro membro de origem indígena da Casa. O trânsito entre historiografia, literatura e política é o que ainda puxa busca pelo nome: não se trata de um memorialista da ABL, e sim de um analista do Estado brasileiro que chegou à Academia com obra já feita.
Morreu na madrugada de 13 de agosto de 2023, no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, internado com Covid-19 e pneumonia. Foi velado na sede da ABL e sepultado no Mausoléu da Academia, no Cemitério São João Batista. Quem chega agora costuma começar por Cidadania no Brasil se a pergunta for “por que a democracia brasileira parece incompleta”; por Os bestializados se a pergunta for o 15 de novembro; por A formação das almas se o interesse for bandeira, herói e hino. A biografia D. Pedro II, Jabuti de 2008, abre outra porta: o Imperador como homem dividido entre a coroa e a cartola.
O perfil institucional está na Academia Brasileira de Letras e na Academia Brasileira de Ciências. A Companhia das Letras concentra as edições atuais de Os bestializados, A formação das almas e D. Pedro II; a Civilização Brasileira, do Grupo Record, segue com Cidadania no Brasil. José Murilo de Carvalho não deixou método de autoajuda nem canal de guru. Deixou um diagnóstico teimoso: no Brasil, o Estado chegou antes do cidadão — e essa defasagem ainda organiza voto, rua e arquivo.





