A formação das almas: O imaginário da República no Brasil parte de um problema concreto: o regime precisou inventar heróis, bandeira, hino e um rosto para uma República que nasceu sem celebração popular. O ensaio de José Murilo de Carvalho, publicado pela Companhia das Letras em 1990, pergunta o que dizem de um país os monumentos, as charges, a bandeira verde-amarela e o hino — e responde com arquivo, não com metáfora solta.
O livro é o par de Os bestializados. Lá, o povo assistiu atônito à proclamação; aqui, as elites republicanas tentam fabricar uma alma coletiva para o regime. Carvalho lê textos e ilustrações como batalha política: Tiradentes contra o Duque de Caxias, a figura feminina da República, o Positivismo na bandeira, o culto a Deodoro e Floriano. Não é álbum de curiosidades. É história do imaginário com consequência institucional.
Do que o livro trata
O autor percorre o momento de implantação do regime e mostra como os mitos de origem criados pelos republicanos traduzem as disputas pela construção de um “rosto nacional”. Monumentos em praça, caricaturas de jornal, hinos e a própria bandeira entram como documento. A pergunta de fundo é simples e rara em manual escolar: se o povo não esteve na praça em 15 de novembro, quem e o que ocupou esse vazio simbólico?
A edição atual da Companhia das Letras (ISBN 978-85-359-2895-2, lançamento da reimpressão em 13 de abril de 2017) tem 174 páginas e formato de ensaio ilustrado. O volume ganhou o Prêmio Jabuti de 1991 na categoria Estudos Literários (Ensaios) e o Prêmio Banorte de Cultura Brasileira no mesmo ano. A circulação escolar e universitária se explica por esse cruzamento: cabe em uma semana de aula e não cabe num resumo de slide.
Para quem faz sentido
- Quem quer entender bandeira, hino e heróis da República para além da cartilha
- Estudantes de história da arte, comunicação e ciência política que trabalham com imagem e poder
- Leitores de José Murilo que já viram o 15 de novembro em Os bestializados e querem o outro lado da tese
- Professores que precisam de um texto curto, ilustrado e argumentativo sobre o imaginário republicano
Por que esta obra marca a carreira do autor
O Jabuti de 1991 consolidou Carvalho fora do circuito estrito da ciência política. O livro mostrou que o mesmo pesquisador das elites imperiais sabia ler charge, monumento e ritual — sem abandonar o problema da cidadania. É o título que mais aparece quando a busca é “imaginário da República” ou “símbolos republicanos no Brasil”, e o que melhor explica por que o autor chegou à Academia Brasileira de Letras com obra de historiador, não de memorialista.
Não compete com a biografia de d. Pedro II nem com Cidadania no Brasil. Cada um responde a uma pergunta. Este responde: como um regime sem povo na rua tenta se tornar evidência no bronze, na cor e na partitura.
Como ler e onde encontrar
O ensaio se lê de uma sentada, mas pede que o leitor pare nas imagens. Vale ter à mão a bandeira, um retrato de Tiradentes e a letra do hino — não para “completar a atividade”, e sim para testar o argumento de Carvalho no material que a escola já conhece. Quem espera genealogia completa da arte republicana vai sentir falta; quem quer um eixo para pensar o 15 de novembro pelo símbolo, encontra.
A edição de referência em português é a da Companhia das Letras, disponível em livro físico e e-book. Na Amazon, o item correspondente à reimpressão recente leva o ISBN 978-85-359-2895-2. Há reimpressão prevista pela editora; se o anúncio estiver sem estoque, o e-book e as livrarias de sebo com a mesma edição resolvem. Não confundir com apostilas homônimas de curso: o livro é o ensaio ilustrado de José Murilo, selo Companhia das Letras.




