Os bestializados: O Rio de Janeiro e a República que não foi começa no 15 de novembro em que o povo não proclamou nada: assistiu. O ensaio de José Murilo de Carvalho parte da frase de Aristides Lobo para perguntar que República foi essa — e reconstrói a Capital Federal no nascimento do regime com história social, crítica cultural e análise política no mesmo fio.
Publicado pela Companhia das Letras em 1987, o livro virou o título que mais associa o autor ao 15 de novembro. A ANPOCS elegeu-o o melhor livro em ciências sociais daquele ano. Francisco Foot Hardman, na orelha que a editora ainda reproduz, chamou os “bestializados” de face oculta do modernismo brasileiro: a cidade alheia, atônita, à procura de seus cidadãos.
Do que o livro trata
O recorte é o Rio de Janeiro entre a Abolição (1888) e os primeiros anos da República. Carvalho não narra o golpe do 15 de novembro como episódio de quartel. Percorre a cidade — políticas oficiais e invisíveis, revoltas, o cotidiano de quem não estava no Paço — para mostrar uma República proclamada sem povo na praça e um povo que, no entanto, não era massa inerte. A “bestialização” do título é o diagnóstico de Lobo; o livro testa se essa frase aguenta o arquivo.
A edição atual da Companhia das Letras (ISBN 978-85-359-3087-0, 4ª edição, 5 de fevereiro de 2019) tem 192 páginas. O volume cruza imprensa, literatura, antropologia urbana e análise institucional. Quem espera biografia de Deodoro ou manual da Proclamação encontra outra coisa: uma história da cidadania no momento em que o regime muda de nome e a cidade continua desigual.
Para quem faz sentido
- Quem estuda a Proclamação da República e desconfia da versão de “povo nas ruas”
- Leitores de história do Rio e da Primeira República
- Estudantes que precisam de um texto clássico, curto e argumentativo sobre cidadania no 15 de novembro
- Quem leu Cidadania no Brasil e quer o close da Capital Federal no nascimento do regime
Por que esta obra marca a carreira do autor
Depois da tese sobre as elites do Império, Os bestializados é a virada para os excluídos da decisão. É o livro que consolida o problema que Carvalho nunca mais largou: como se faz (ou não se faz) cidadão no Brasil. Sem ele, A formação das almas perde o contraponto — o imaginário republicano só se entende se se admite, primeiro, a ausência popular na praça.
O prêmio da ANPOCS e as reedições da Companhia das Letras sustentam o volume como clássico de ciências sociais brasileiras, não como “livro de 15 de novembro” para data comemorativa. A pergunta do subtítulo — a República que não foi — continua puxando busca em ano de efeméride e em ano qualquer.
Como ler e onde encontrar
O ensaio cabe em poucos dias de leitura, mas pede mapa mental da cidade: Cortiço, Rua do Ouvidor, Paço, revoltas urbanas. Não é romance nem reportagem. É argumentação com fonte. Quem lê em busca de “os heróis da República” vai se irritar; quem lê para entender por que o povo brasileiro “não esteve lá” encontra o arquivo que sustenta a frase.
A edição de referência é a da Companhia das Letras, em brochura e e-book. Na Amazon, o item da 4ª edição leva o ISBN 978-85-359-3087-0. Há edição antiga (ISBN 978-85-85095-13-0, 1987) em sebo; o texto é o mesmo eixo, a paginação muda. Não vale a pena pagar a mais por “edição especial” se o anúncio não deixar claro o selo e o ISBN. Quem quiser o par simbólico segue para A formação das almas; quem quiser o arco nacional, para Cidadania no Brasil.




