Karim Aïnouz nasceu em Fortaleza, em 17 de janeiro de 1966, filho de uma cearense e de um argelino, e transformou essa origem dupla em uma das chaves de seu cinema. O diretor, roteirista e artista visual ganhou projeção internacional ao vencer a mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes de 2019 com A Vida Invisível, primeira produção brasileira a levar o prêmio principal daquela seção. Antes disso, já havia chamado atenção com Madame Satã (2002), retrato do transformista João Francisco dos Santos que revelou um olhar próprio sobre corpo, memória e margem.
Radicado em Berlim, Karim construiu uma carreira que atravessa o cinema de autor, a televisão e as artes visuais. Seus filmes costumam partir de personagens que não se encaixam no lugar em que nasceram e que tentam reinventar o próprio destino. É essa tensão entre pertencimento e deslocamento que liga obras tão diferentes quanto o drama de época Firebrand, o suspense cearense Motel Destino e o ensaio pessoal Marinheiro das Montanhas.
De Fortaleza a Berlim: formação e primeiros filmes
Karim formou-se em arquitetura pela Universidade de Brasília (UnB) e depois foi para Nova York estudar artes visuais e teoria do cinema. Na virada dos anos 1990, trabalhou como assistente de casting e de montagem em Poison (1991), de Todd Haynes, e em Arizona Dream (1993), de Emir Kusturica. Ao lado dos cineastas Ira Sachs, Jonathan Nossiter e Oren Moverman, fundou o coletivo Dependent Cinema, criado para viabilizar filmes independentes.
No Brasil, começou dirigindo curtas como O Preso (1992), Seams (1994), Paixão Nacional (1994), Hic Habitat Felicitas (1996) e Rifa-me (2000). Também assinou roteiros ao lado de nomes consagrados do cinema nacional: colaborou com Walter Salles e Sérgio Machado em Abril Despedaçado (2001) e com Marcelo Gomes em Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), além de participar de Cidade Baixa (2005).
- 1966: nasce em Fortaleza, Ceará.
- Anos 1990: curtas experimentais e trabalho em produções independentes nos Estados Unidos.
- 2002: estreia em longa-metragem com Madame Satã, em Cannes.
- 2019: vence o Un Certain Regard com A Vida Invisível.
- 2024: volta à competição principal de Cannes com Motel Destino.
- 2026: disputa o Urso de Ouro em Berlim com Rosebush Pruning.
Madame Satã e a invenção de um cinema do corpo
Madame Satã (2002) foi o primeiro longa de ficção dirigido por Karim. O filme acompanha João Francisco dos Santos, artista e transformista que se tornou figura central da Lapa carioca nas décadas de 1930 e 1940. Para escrever o roteiro, o diretor pesquisou arquivos jurídicos no Arquivo Nacional, entrevistou pessoas que conviveram com o personagem e visitou o túmulo da mãe dele no agreste pernambucano.
O papel-título ficou com Lázaro Ramos, em atuação que lhe rendeu o Grande Otelo de melhor ator. Marcélia Cartaxo também foi premiada, e o filme entrou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema. A fotografia de Walter Carvalho, que enquadra fragmentos de pele, suor e lantejoulas, ajudou a consolidar a expressão "cineasta do corpo", associada a Karim pela crítica.
O longa estreou na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes em 19 de maio de 2002. A partir dali, o diretor passou a alternar filmes de ficção e documentários, mantendo o interesse por personagens que vivem à margem de convenções sociais e afetivas.
A Vida Invisível e o reconhecimento internacional
A Vida Invisível (2019) é baseado no romance A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, da escritora pernambucana Martha Batalha. O filme acompanha as irmãs Eurídice e Guida, interpretadas por Carol Duarte e Julia Stockler, separadas pelo pai em um Rio de Janeiro conservador dos anos 1950. Fernanda Montenegro faz uma participação especial como a Eurídice mais velha.
Karim dirigiu o longa e assinou o roteiro com Murilo Hauser e Inés Bortagaray. A produção venceu o prêmio principal da mostra Un Certain Regard em Cannes, em 2019, e foi escolhida pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil no Oscar de melhor filme estrangeiro, embora não tenha entrado na lista final de pré-indicados. O melodrama, rodado com textura de película e foco nos gestos cotidianos das personagens, consolidou a carreira internacional do diretor.
Do sertão cearense à Argélia: os caminhos recentes
Entre os anos 2000 e 2010, Karim dirigiu O Céu de Suely (2006), filmado em Iguatu, no Ceará; Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo (2009), em parceria com Marcelo Gomes; e O Abismo Prateado (2011), inspirado na canção "Olhos nos Olhos", de Chico Buarque. Em Praia do Futuro (2014), estrelado por Wagner Moura, levou uma história de amor e migração entre Fortaleza e Berlim à competição do Festival de Berlim.
O documentário Aeroporto Central (2018) rendeu a Karim o Prêmio Anistia Internacional no Festival de Berlim. Em 2021, ele voltou a Cannes com Marinheiro das Montanhas, diário de viagem sobre sua primeira ida à Argélia, país onde o pai nasceu. O filme mistura registros de viagem, imagens de família, arquivos históricos e Super 8.
Em 2023, Firebrand marcou sua estreia em uma produção internacional de ficção, com Alicia Vikander e Jude Law, e disputou a Palma de Ouro. No ano seguinte, Motel Destino voltou à competição principal de Cannes e foi rodado inteiramente em locações no Ceará. Já Rosebush Pruning, sátira sobre uma família americana na Catalunha, foi selecionada para a competição do 76º Festival de Berlim, em 2026, cidade onde o diretor vive.
Artes visuais, televisão e memória
Além do cinema, Karim atua como artista visual, com filmes e instalações que circulam entre a sala de exibição e o museu. Dirigiu o episódio dedicado ao Centre Pompidou na série Catedrais da Cultura, de Wim Wenders, e colaborou no vídeo Domingo, do dinamarquês Olafur Eliasson. Na televisão, escreveu e dirigiu a série Alice (2008), em parceria com Sérgio Machado, para a HBO América Latina.
A obra dele já foi tema de retrospectivas na Espanha, na Suíça, na França e nos Estados Unidos. Karim também integrou o júri da Cinéfondation e da competição de curtas-metragens do Festival de Cannes em 2012, o júri do Prêmio Heiner Carow no Festival de Berlim de 2013 e presidiu o júri do Festival do Rio em 2014.
Onde acompanhar a obra de Karim Aïnouz
O site oficial reúne a filmografia completa, a biografia, a galeria de fotografias e os contatos profissionais do diretor. Lá é possível consultar as páginas de cada longa e curta, além dos projetos ligados às artes visuais. Os filmes também circulam em festivais, mostras e plataformas de streaming, com disponibilidade que varia conforme o país.






