Luiz Duarte levou nove meses recortando sílabas para Carlos Drummond de Andrade voltar a falar na orla de Copacabana sem nunca ter pronunciado aquelas frases. Diretor, escritor, dramaturgo e cantor, ele montou o curta O menino e o poeta colando fonemas de gravações em que o próprio poeta lia seus versos. O filme tem cerca de 17 minutos. Quase tudo o que se ouve, fora duas falas curtas, foi reconstruído no computador.
O Jornal O Globo descreveu o método em 2010, quando o curta já tinha passado em abril pelo Los Angeles Brazilian Film Festival e ia ganhar sessão ao ar livre, com legendas em inglês, num telão atrás da estátua da Avenida Atlântica. Quem procura o nome hoje cai nesse trabalho, no teatro premiado do fim dos anos 1980 e em livros recentes que misturam fábula e ensaio. O nome completo é Luiz Duarte da Rocha. Nasceu no Rio de Janeiro em 29 de fevereiro de 1956.
Quem é Luiz Duarte
O nome curto é o que o jornal e o palco usam. O sobrenome completo volta nos livros. Não é o procurador do Estado de São Paulo Luiz Duarte de Oliveira, homenageado pela APESP, nem o músico lisboeta Luiz Duarte Rocha Marques da Silva. É o carioca que assina dramaturgia, direção e canção, e que em 2010 já descrevia ao O Globo um currículo com três prêmios Mambembe e um Jabuti.
A cena do curta separa a pessoa do homônimo. O menino de rua José, vivido por Wallace Coutinho de Souza, do grupo Nós do Morro, conversa com a estátua de Drummond na orla. O texto é de Duarte. No filme, a estátua diz coisas que o poeta nunca disse, como “Não sou de carne nem de matéria. Apenas versos. Escultura de sono, do sono universal.” O garoto responde no linguajar da rua: “Não tenho muita história. Até onde me lembro, eu já nasci na rua, me criei na rua.” A certa altura pergunta o que a estátua vê. A resposta atravessa anjos, edifícios, máquinas, guerras, mulheres, ódios, janelas e esperanças. O menino retruca se ela não preferiria olhar o mar. “O mar… com certeza… com certeza.”
Como a voz foi montada
De início Duarte pensou em narrar o poeta com a própria voz, mais metálica, robotizada. Descartou: soaria falso. Pensou em ator famoso e também descartou. Foi então às leituras públicas de Drummond. Conseguiu amostras de Boitempo, Para sempre, Fazenda, O enterrado vivo, Consolo na praia, Morte do leiteiro, Procura da poesia, Confidência do itabirano, Infância, Quadrilha, No meio do caminho, Os ombros suportam o mundo, Mundo grande, E agora, José? e Mãos dadas. Cortou e colou sílabas. Mexer na amplitude e na frequência mudava a entonação. Foi preciso ainda acertar o tempo de cada palavra para a frase não parecer um mosaico.
Ele chamou isso de trabalho de bordadeira. A vontade de filmar a estátua veio de vê-la usada de perto. Um senhor em caminhada parou, pôs a mão na cabeça de bronze, beijou a própria mão, tornou a pousá-la e fez o sinal da cruz. A peça fica na calçada, não num pedestal. Nas filmagens, gente esperava a pausa para fotografar. Duarte também disse ao jornal que procurou exibidores e não achou sala para curta-metragem. A sessão da praia, das 20h às 22h, com o filme em loop atrás da estátua, foi o jeito público que o Globo registrou.
Teatro, Jabuti e Mambembe
O prêmio literário do currículo é o Jabuti, datado de 1988 na nota que acompanhou o lançamento de dezembro de 2025. O título ligado a esse ano, nas fichas biográficas do autor, é o livro Irmão Grimm, Irmão Grimm. O O Globo, em 2010, não abriu a categoria: registrou o Jabuti e três Mambembe. A nota recente acrescenta o Prêmio INACEN, o Prêmio Coca-Cola de teatro e o Prêmio Nacional de Dramaturgia da Questão Negra, da FUNDACEN, pela peça Escrava Anastácia.
O conjunto desenha um autor de palco no fim dos anos 1980, com livro premiado no Jabuti e uma peça sobre a questão negra reconhecida pela FUNDACEN.
Música, escola e documentário
A formação que a nota de 2025 descreve começa na música, não no prêmio. Ele estudou teoria na Escola Nacional de Música da UFRJ e harmonia com o maestro Guerra Peixe. No fim dos anos 1970, já cantor e compositor, integrou o Grupo Maria Deia. No começo da década seguinte, com o compositor e maestro Jaime Alem, produziu espetáculos no Rio e em São Paulo e encabeçou o que a mesma nota chama de Movimento de Gravação Independente. A proposta pública era simples: mostrar que compositor, músico e cantor podiam gravar o próprio trabalho fora do esquema das grandes gravadoras.
A canção voltou depois em espetáculo de repertório alheio. Caetaneando releu Caetano Veloso, rodou capitais brasileiras e teve apresentação no SOB's, casa de world music em Nova York. Cantando por Elas usou músicas de Chico Buarque. A nota cita ainda o álbum infantil Pequenos Pensadores do Amanhã, lançado no Spotify. Outros nomes de palco e canção estão na página de música.
A sala de aula entra na mesma década de 1980. A nota diz que ele deu aulas de música e teatro para crianças da pré-escola e do ensino fundamental e, a partir dessa prática, criou o Quintal das Artes, escola de educação infantil em Botafogo. No mesmo ciclo de formação, estudou Engenharia Química na UFRJ e interrompeu o curso para ficar com a música e o teatro.
O volume de documentário aparece em duas contagens, feitas em momentos diferentes. Em 2010, ele disse ao O Globo que tinha mais de 370 documentários no currículo, entre institucionais, científicos, educacionais e de treinamento. A nota de 2025 estreita o recorte científico: 62 documentários com pesquisadores de universidades, em biologia, ecologia, evolução e meio ambiente. Na televisão dos anos 1990, a mesma nota o coloca, com colegas, na direção e na coordenação da programação do canal institucional da rede SEST/SENAT. No material do livro, ele se apresenta também como um dos líderes da Climate Reality no Brasil, organização ligada a Al Gore e ao debate do aquecimento global.
Luana, Chatroom e o longa Looping
O curta de Drummond não esgotou o cinema. Em 2010 ele tinha pronto um roteiro de longa com nome provisório de Chatroom, montado com casos recolhidos na internet. Um deles era o de um homem rico, imóvel depois de um acidente de carro, que só mexe os olhos e assim se comunica pelo computador. Uma moça se apaixona sem saber da condição.
Outro projeto parou por um motivo com data. Uma televisão espanhola escolheu cinco diretores, um de cada continente, para um filme sobre o diabo. Das Américas saiu Ruy Guerra, que chamou Duarte para escrever. Nasceu o roteiro Luana. Em viagem, Guerra comentou a costura dramática com Gabriel García Márquez. Gabo fez sugestões. O dinheiro liberado pela emissora foi confiscado no Plano Collor, e o filme não andou. Duarte contou ao jornal que guarda uma fita da conversa entre Guerra e García Márquez, e que o escritor teria dito, segundo Ruy, que aquela era a melhor história que escreveu na vida. A frase chega por esse relato. Não é carta assinada.
O primeiro longa próprio, Looping, aparece na nota de dezembro de 2025 como obra já rodada e ainda na fase final de pós-produção. O texto daquele mês não anuncia estreia.
Os livros que puseram o nome de novo na mesa
Em dezembro de 2025 o nome voltou por livro. Minha querida Catita Capivara é um romance em que um homem conversa, nas madrugadas do Rio, com uma capivara solitária. A apresentação pública atravessa origem da vida, evolução e a arrogância da espécie, num arco que o texto do lançamento descreve da microbiologia à astrofísica, com crítica social, racial e política no caminho. Catita fica como ouvinte. O encontro marcado com leitores foi em 18 de dezembro de 2025, a partir das 19h, na Academia da Cachaça da Barra da Tijuca, na Avenida Armando Lombardi, 800. A capa anunciada traz a marca COMNIC e o nome Luiz Duarte Rocha. A apresentação trata o livro como romance fantástico-filosófico.
A mesma nota lista, ao lado de Catita, Encontro Ampliado da Cúpula BRICS 2024 — Memória e Comentários. Os dois títulos recolocam o autor na literatura publicada, décadas depois do Jabuti, sem apagar o palco nem o curta da Atlântica.
Por onde seguir o trabalho
- Curta O menino e o poeta, com a sessão na Avenida Atlântica descrita pelo O Globo em 2010.
- Jabuti de 1988 e três prêmios Mambembe já citados pelo jornal naquela época.
- Peça Escrava Anastácia, ligada ao prêmio da FUNDACEN na nota de 2025.
- Espetáculos Caetaneando e Cantando por Elas.
- Escola Quintal das Artes, em Botafogo.
- Romance Minha querida Catita Capivara, com lançamento em dezembro de 2025 na Barra da Tijuca.
O perfil público marcado nas divulgações do livro é o Instagram @luizduarterocha. É por ali, e pelos lançamentos, que o trabalho recente continua aparecendo.


