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Márcio Souza

Márcio Gonçalves Bentes de Souza

Nascimento: 1946 Manaus, Amazonas
Romancista amazonense de Galvez, Imperador do Acre e Mad Maria. Teatro, cinema, Funarte e ensaios sobre a Amazônia; morreu em Manaus em 2024.

Quando o Amazonas oficial leu Galvez, Imperador do Acre, em 1976, a reação foi de ofensa à história. Márcio Souza já tinha avisado, na nota de abertura, que o livro era ficção: um folhetim cômico sobre o aventureiro espanhol que se coroou imperador no ciclo da borracha. A estreia literária nasceu assim — não como cartão-postal da floresta, mas como riso que incomoda quem prefere o Norte em pose solene.

Quem busca o nome hoje quase sempre chega por dois caminhos: o romance Mad Maria, que a TV Globo transformou em minissérie em 2003, ou a pergunta mais seca — quem foi o escritor amazonense que passou da crítica de cinema em Manaus à presidência da Funarte. Márcio Gonçalves Bentes de Souza morreu em Manaus em 12 de agosto de 2024, aos 78 anos. A obra ficou, e com ela um jeito de contar a Amazônia que recusa o exotismo de exportação.

Quem foi Márcio Souza

Jornalista, dramaturgo, editor, roteirista, cineasta e romancista, Souza fez da história amazônica matéria de literatura, teatro e ensaio. Não era um “regionalista de vitrine”. O ciclo da borracha, a ferrovia Madeira-Mamoré, a Cabanagem, a Zona Franca e a questão indígena entram nos livros como conflito, humor e arquivo — quase nunca como paisagem decorativa.

Nasceu em Manaus em 4 de março de 1946. Estudou no Grupo Escolar Princesa Isabel e no Colégio Dom Bosco. Ainda adolescente escrevia crítica de cinema no jornal O Trabalhista, do qual o pai era sócio. Aos quatorze anos já estava no ofício que nunca largaria de todo: ler a cidade, o palco e a tela, e devolver isso em texto.

Em 1997, o romance Lealdade recebeu o Troféu APCA de ficção. No ano seguinte, a mesma obra ficou em segundo lugar no Prêmio Jabuti de Romance. Foi acadêmico titular da Academia Amazonense de Letras, na cadeira 25, eleito em 11 de setembro de 2004. A Editora Record reúne hoje as edições mais visíveis de seus romances e ensaios em circulação no Brasil.

  • Estreia no romance com Galvez, Imperador do Acre (1976), traduzido e lido fora do Brasil
  • Mad Maria (1980), depois minissérie da TV Globo (2003)
  • Tetralogia Crônicas do Grão-Pará e Rio Negro, a partir de Lealdade (1997)
  • Presidência da Funarte entre 1995 e 2003, no governo Fernando Henrique Cardoso
  • Membro da Academia Amazonense de Letras e passagem pelo Conselho Municipal de Política Cultural de Manaus

De Manaus à USP — e o retorno que definiu a obra

Em 1965 coordenou edições do governo do Amazonas e, em seguida, saiu da cidade para estudar Ciências Sociais: primeiro em Brasília, depois na Universidade de São Paulo. A ditadura interrompeu o curso em 1969. Souza já tinha sido preso em 1966, pela exibição da peça francesa A idade do ouro; voltaria a ser preso em 1969 e em 1972, por militância política. A peça Zona Franca, meu amor foi censurada.

No cinema, começou como crítico, roteirista e diretor. Em 1970 dirigiu A Selva, baseado no romance de Ferreira de Castro, com locações em Manaus. Voltou à capital amazonense em 1972, integrou o Teatro Experimental do Sesc (Tesc) e, em 1976 — o mesmo ano de Galvez —, assumiu a diretoria de planejamento da Fundação Cultural do Amazonas. O circuito se fecha: formação no Sudeste, perseguição política, ofício no palco e na tela, e a Amazônia de novo no centro.

Em 1983 transferiu-se para o Rio de Janeiro. No ano seguinte fundou a editora Marco Zero, pela qual saíram vários de seus títulos dos anos 1980 e 1990. A editora não era enfeite de currículo: era o modo de um escritor amazonense publicar, circular e disputar espaço editorial longe da ideia de que o Norte só existe como tema para outros.

Como ele escreveu a Amazônia

A marca mais citada da ficção é o humor. Souza reconheceu a dívida com Machado de Assis — o sarcasmo incrustado na linguagem — e com a fragmentação modernista, sem abrir mão de uma narrativa que o leitor consegue seguir. Galvez dialoga com Oswald de Andrade, com o folhetim e com o romance histórico brasileiro, só que em chave paródica: Luiz Galvez Rodrigues de Aria, andaluz de Cádiz, atravessa borracha, golpe e império de lata.

Mad Maria muda o tom sem sair da região. O livro narra a construção da Madeira-Mamoré, entre 1907 e 1912, mistura fato e invenção e batiza a locomotiva com a insanidade do canteiro: calor, escorpião, conflito étnico, abandono da lei. A minissérie ampliou o público; o romance continua sendo o texto mais procurado depois de Galvez.

Entre 1981 e 1982 publicou em folhetim, na Folha de S.Paulo, A Resistível Ascensão do Boto Tucuxi. Escreveu também Operação Silêncio, em que cinema, censura e financiamento estatal se atravessam, e a tetralogia sobre o Grão-Pará e o Rio Negro — Lealdade, Desordem, Revolta e Derrota —, painel da Cabanagem e da recusa do Norte a ser apenas apêndice do Rio de Janeiro. Nos ensaios, A Expressão Amazonense, O Empate contra Chico Mendes, Amazônia Indígena e História da Amazônia tratam colonização, látex, povos indígenas e o abismo entre modernização e arcaísmo.

O conterrâneo Milton Hatoum, ao registrar a morte do amigo, lembrou a formação de sociólogo na USP, os ensaios historiográficos e o pioneirismo sobre literatura e teatro do Amazonas. Os dois nomes costumam aparecer juntos quando a conversa é literatura feita em Manaus — Hatoum pelo drama familiar urbano; Souza pelo folhetim histórico, o palco e o arquivo da região.

Teatro, cinema e os cargos que ocupou

No palco, escreveu peças como As folias do látex, Tem piranha no pirarucu, A paixão de Ajuricaba e Carnaval Rabelais. Dirigiu o Teatro Experimental do Sesc do Amazonas. A dramaturgia não era hobby: era o outro chão da mesma obsessão — borracha, índio, cidade, poder.

Em 1990 dirigiu o Departamento Nacional do Livro. Entre 1995 e 2003 presidiu a Funarte. Foi professor assistente na Universidade de Berkeley e escritor residente em Stanford, Austin e Dartmouth. Falou, como palestrante, em universidades como San Marcos, Sorbonne, Heidelberg, Coimbra, Universidade Livre de Berlim, Harvard e Santiago de Compostela. O trânsito internacional não diluiu o recorte: a Amazônia continuou sendo o assunto, agora com interlocutores fora do Brasil.

Por onde começar

Quem chega pela televisão vai a Mad Maria. Quem quer o choque da estreia, o folhetim e o riso, abre Galvez, Imperador do Acre. Para ensaio e contexto, História da Amazônia e Amazônia Indígena funcionam como porta de entrada menos ficcional, mais de consulta. Em todos os casos, a pergunta útil não é se Souza “representou” a floresta: é se o leitor quer a Amazônia como trama, arquivo e deboche — escrita por alguém que nasceu nela e voltou para disputá-la.

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Projetos de Márcio Souza

Galvez - Imperador do Acre
Galvez - Imperador do Acre
Romance de estreia de Márcio Souza: folhetim satírico sobre Luiz Galvez e o ciclo da borracha no Acre. Record, 1976.
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Mad Maria
Mad Maria
Romance de Márcio Souza sobre a ferrovia Madeira-Mamoré. De 1980; minissérie da TV Globo em 2003. Edição Record.
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História da Amazônia
História da Amazônia
Ensaio de Márcio Souza sobre a Amazônia do período pré-colombiano ao século XXI. Record, 392 páginas.
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Amazônia Indígena
Amazônia Indígena
Ensaio de Márcio Souza sobre povos indígenas da Amazônia, colonização e debate ambiental. Record, 2015.
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