Por catorze anos, Marco Nanini foi o rosto de Lineu Silva, o pai de subúrbio que conferia conta, cinto e caráter em A Grande Família. Quem chega pelo seriado nem sempre liga esse homem ao ator que, a partir de 2 de dezembro de 1986, dividiu com Ney Latorraca os oito papéis de O Mistério de Irma Vap, comédia de Charles Ludlam dirigida por Marília Pêra, e que permaneceu cerca de onze anos em cartaz com o mesmo elenco.
Marco Antônio Barroso Nanini nasceu em Recife em 31 de maio de 1948 e se fixou no Rio de Janeiro ainda menino. O nome é procurado por portas diferentes: o Lineu da televisão, o teatro de transformação — de Irma Vap a Odorico Paraguaçu — e o cinema da retomada, em que fez Dom João VI em Carlota Joaquina, Princesa do Brazil. A biografia O Avesso do Bordado, escrita por Mariana Filgueiras e lançada pela Companhia das Letras em 2023, é o volume que organiza essa travessia para quem quer o homem além do personagem.
Quem é Marco Nanini
É filho de Maria Esmeralcy de Moraes Guerra e de Dante Nanini, este filho de imigrantes italianos. O pai trabalhava como gerente de hotéis, e a família mudou de cidade várias vezes na infância. Em 1954, aos seis anos, Marco foi para Manaus com os pais e o irmão mais velho, José Alberto. O hotel e um teatro improvisado, a Maloca dos Barés, foram o primeiro contato com gente de palco. Depois veio Belo Horizonte. Aos dez anos a casa passou a ser o Rio, de novo em quarto de hotel.
A carreira pública não cabe num único ofício de elenco. Ele atuou, dirigiu e produziu. A Enciclopédia Itaú Cultural o registra como ator e diretor. Desde 1988 vive em união estável com o produtor Fernando Libonati. Em 2011, numa entrevista, falou de forma direta sobre a própria sexualidade. O dado passou a acompanhar o nome sem que a trajetória tivesse sido montada em cima dele.
Do grupo da igreja ao Conservatório
O primeiro papel não foi num teatro profissional. Na adolescência, acompanhou os ensaios do grupo da Igreja de Santa Teresinha do Menino Jesus, em Botafogo, até fazer o bruxo de O Bruxo e a Rainha, entre 1964 e 1965, ao lado de Pedro Paulo Rangel. Os dois prestaram vestibular para o Conservatório Nacional de Teatro, hoje ligado à UNIRIO. Nanini apresentou um trecho de Antígona para uma banca com Gianni Ratto, Maria Clara Machado e Barbara Heliodora.
O verbete do Itaú Cultural situa o curso entre 1966 e 1968. Ele saiu para estrelar Salomé, de Oscar Wilde, em 1968, e no mesmo ano entrou no Teatro Novo em Ralé, de Máximo Gorki, sob direção de Gianni Ratto. Em 1969, o ator Dary Reis, que lhe dera aula no Conservatório, o indicou para substituir alguém na trupe de Dercy Gonçalves. Com ela viajou o país em peças como A Viúva Recauchutada e aprendeu o improviso, lição que ele mesmo passou a repetir. No mesmo ano estreou na Globo como figurante de esgrima em A Ponte dos Suspiros, de Dias Gomes, e em seguida ganhou um soldado com um pouco mais de texto.
O tamanho do nome se decidiu no palco
A plateia grande chegou em 1973, com o soldado Pacífico de As Desgraças de uma Criança, de Martins Pena. Nesse trabalho cruzou com Camila Amado e Marieta Severo, amizades que atravessam a carreira. A televisão dos anos 1970 já o punha em novelas de circulação nacional: Julinho, o cineasta de comunidade hippie, em O Cafona (1971); o esnobe Vinícius em Pecado Capital (1975), de Janete Clair; o professor Josué em Gabriela (1975), adaptação de Jorge Amado. O cinema começou em 1974, como Luizinho na pornochanchada As Moças Daquela Hora.
A consideração da crítica muda de escala em Mão na Luva (1984), texto de Oduvaldo Vianna Filho, com Juliana Carneiro da Cunha e direção de Aderbal Freire Filho. O papel rendeu os prêmios Molière, Mambembe e APETESP. Sábato Magaldi escreveu, na época, que a partir dali Nanini deixava os tipos de sempre e passava a dono de palco. Antes disso, Doce Deleite (1981), dividido com Marília Pêra, tinha ficado quatro anos em cartaz e já lhe dera um Mambembe.
Irma Vap é o outro eixo. Dois atores, oito personagens, dezenas de trocas de roupa por sessão. A temporada, associada em registros públicos ao Guinness pela duração com o mesmo elenco, atravessou cerca de onze anos. Em 2006, Carla Camurati levou a dupla ao cinema em Irma Vap: O Retorno, com Nanini de novo em Tony e Cleide Albuquerque. No meio do caminho ele também dirigiu: Louise Cardoso em Fulaninha e Dona Coisa (1990), o musical Hello Gershwin (1991) e Ney Latorraca em O Médico e o Monstro (1994).
Lineu, Dom João e Odorico
No cinema da retomada, Dom João VI de Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), de Carla Camurati, ao lado de Marieta Severo, lhe deu o Prêmio Guarani de Melhor Ator, o primeiro da categoria. Voltou a trabalhar com a diretora em Copacabana (2001). Em O Auto da Compadecida, minissérie de 1999 e filme de 2000, sob o comando de Guel Arraes, foi o cangaceiro Severino e levou o Guarani de coadjuvante em 2001. Em 2003 interpretou Frederico Evandro, tratado na trama como matador, em Lisbela e o Prisioneiro.
Entre 2001 e 2014 sustentou Lineu no remake de A Grande Família, que recuperava personagens criados em 1972 por Oduvaldo Vianna Filho e Armando Costa. O núcleo fixo reunia Marieta Severo, Pedro Cardoso, Guta Stresser e Lúcio Mauro Filho. Ao Memória Globo, Nanini disse que sofreu para compor o pai porque nunca tinha feito sitcom e preferiu, no início, um Lineu mais contido, para o espectador se acostumar e para ele descobrir as reações do personagem. Em entrevistas e na biografia de 2023, o pai Dante aparece como matéria do papel: a correção e o cinto usado acima da barriga. O longa da série chegou aos cinemas em 2007.
Odorico Paraguaçu passou por três suportes com o mesmo intérprete. No teatro, entre 2007 e 2008, direção de Enrique Díaz, a montagem de O Bem-Amado rendeu APCA e Qualidade Brasil. No cinema, em 2010, a direção foi de Guel Arraes, que produzira a peça. Depois veio a minissérie da Globo. Poucas figuras da teledramaturgia brasileira fazem esse circuito completo — palco, filme e televisão — nas mãos de uma só pessoa.
O que ainda se vê depois da série
- Lineu Silva, em A Grande Família (2001–2014) e no filme de 2007.
- O Mistério de Irma Vap (estreia em 1986), com Ney Latorraca e direção de Marília Pêra.
- Dom João VI em Carlota Joaquina (1995) e Severino em O Auto da Compadecida (2000).
- Odorico Paraguaçu, no teatro, no cinema e na minissérie de O Bem-Amado.
- O Avesso do Bordado (2023), biografia de Mariana Filgueiras pela Companhia das Letras.
Depois de catorze anos de seriado, voltou às novelas em 2016 como os gêmeos professor Pancrácio e doutor Pandolfo, em Êta Mundo Bom!, de Walcyr Carrasco. Fez o rei Augusto de Artena em Deus Salve o Rei (2018) e o malandro Eusébio em A Dona do Pedaço (2019), novela em que o personagem passou a viver a síndrome da mão alheia. No cinema, o enfermeiro Pedro de Greta (2019), de Armando Praça, lhe deu o segundo Guarani de melhor ator. Em 2020 recebeu o Troféu Oscarito pelo conjunto da obra. Em 2022 foi Heleno, pai com Alzheimer do médico Evandro, na quinta temporada de Sob Pressão. Em 2023 interpretou João de Deus na série João sem Deus: A Queda de Abadiânia, do Canal Brasil, participação indicada ao Grande Otelo de melhor ator de série.
O palco não virou arquivo. Pterodátilos (2010), em que fazia o pai banqueiro e também a filha Ema, lhe rendeu o Prêmio Shell em 2011. Em 2017, o Pai Ubu de Ubu Rei coincidiu com a marca pública de cinquenta anos de carreira. Em 2024 e 2025 voltou a São Paulo com o monólogo O Traidor, escrito e dirigido por Gerald Thomas. Em 12 de dezembro de 2025, a Assembleia Legislativa de São Paulo lhe entregou o Colar de Honra ao Mérito Legislativo.
Quem quiser a cronologia de espetáculos, o verbete da Enciclopédia Itaú Cultural continua sendo a ficha de palco mais estável. A biografia de 2023, com 344 páginas, responde a outra pergunta: como um ator atravessou teatro político, besteirol, novela e cinema de plateia sem trocar de ofício. Esse livro conversa com quem já circula pela literatura de memória cultural, mas o centro da trajetória segue sendo a pessoa em cena, não a estante.


