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Foto de perfil de Mário Quintana

Mário Quintana

Nascimento: 1906 Porto Alegre, Rio Grande do Sul
Poeta, tradutor e jornalista gaúcho, autor de Caderno H e da Rua dos Cataventos. Nasceu em Alegrete e viveu em Porto Alegre até 1994.

Há versos de Mário Quintana rodando no celular de gente que nunca abriu um livro dele. Frases curtas, quase de conversa, sobre tempo, infância, morte e o que sobra quando o dia acaba. Em 2026, no centésimo vigésimo aniversário do poeta de Alegrete, essa circulação ficou ainda mais nítida: o estilo cabe na lógica das redes, e muita gente compartilha o tom sem saber o nome de quem escreveu.

Mario de Miranda Quintana nasceu em 30 de julho de 1906 e morreu em Porto Alegre em 5 de maio de 1994. Foi poeta, tradutor e jornalista, ligado à segunda geração do modernismo brasileiro, mas pouco afeito a manifesto de grupo. Quem busca o nome hoje quer, em geral, duas coisas ao mesmo tempo: uma biografia que não misture lenda com fato e um caminho claro para entrar na obra — de A Rua dos Cataventos ao Caderno H, passando pelos poemas que a escola e o feed reencontram o tempo todo.

Quem foi Mário Quintana

Quintana ficou conhecido como o poeta das coisas simples. A fórmula é justa e incompleta. Havia ironia, precisão técnica e um ouvido de jornalista atrás da aparente facilidade. Ele escreveu sonetos, canções, aforismos, prosa poética e literatura para crianças. Também verteu para o português mais de cento e trinta livros, entre eles volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, e Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf.

O registro civil saiu sem acento, e ele usou Mario Quintana assim pela vida. A grafia com acento se espalhou na escola, na imprensa e nas buscas. Os dois nomes apontam para a mesma pessoa: o gaúcho que fez da rua, do quarto de hotel e da crônica de sábado um território literário reconhecível.

De Alegrete à Livraria do Globo

Nasceu em Alegrete, a mais de quinhentos quilômetros de Porto Alegre, caçula de três filhos do farmacêutico Celso de Oliveira Quintana e de Virgínia de Miranda Quintana. Aprendeu noções de francês em casa. Em 1919, aos treze anos, mudou-se com a família para a capital e entrou no Colégio Militar de Porto Alegre, em internato. Ali publicou os primeiros textos no jornalzinho escolar. Trocava aula de desenho por leitura — Dostoiévski entre elas — e se safava melhor em francês do que em álgebra ou geografia.

Em 1924, aos dezoito, conseguiu emprego na Livraria do Globo como desempacotador. A casa ainda viraria editora de peso. Quintana cresceu ali ao lado de Henrique Bertaso, Érico Veríssimo e Mauricio Rosenblatt: de dia, o ofício do livro; de noite, a conversa que vira anedota. Uma delas, contada por Veríssimo, envolve um ovo de avestruz ornamental arremessado como bola improvisada e o poeta recuando, alheio ao jogo, até a coisa quebrar sobre a mesa.

A vida familiar se desfez cedo. Em 1926 ficou órfão de mãe e, no mesmo período, ganhou um concurso de contos do Diário de Notícias com A Sétima Passagem. No ano seguinte, perdeu o pai. Fixou-se de vez em Porto Alegre. Trabalhou na farmácia da família, voltou ao jornalismo e, na Revolução de 1930, quando o jornal O Estado do Rio Grande fechou, foi voluntário no 7.º Batalhão de Caçadores. Passou cerca de seis meses no Rio de Janeiro e retornou.

Tradutor e jornalista, o ofício que sustentou o poeta

A estreia creditada como tradutor veio em 1934, com Palavras e Sangue, de Giovanni Papini. Entre 1934 e 1955, na Editora Globo, traduziu Balzac, Voltaire, Graham Greene, Georges Simenon e um sem-número de romances policiais e sentimentais sem crédito na capa — prática comum da época. O trabalho visível que ficou no cânone é outro: Proust, Woolf, Papini. Décadas depois, uma tradução sua de O Pequeno Príncipe, feita nos anos 1980 para a Melhoramentos, saiu em 2017, quando a obra entrou em domínio público.

No jornalismo, colaborou longamente com a Revista do Globo e, de 1953 a 1977, manteve coluna na página de cultura do Correio do Povo, aos sábados. Dali saiu boa parte do material que, reunido, virou Caderno H: crônica, poema, frase de espírito. O jornal pagava o quarto. A coluna treinava o corte. O livro posterior só tornou público o que o sábado já tinha ensinado ao leitor gaúcho.

A poesia das coisas simples

O primeiro livro, A Rua dos Cataventos, saiu em 1940 pela Editora do Globo, em sonetos. Vieram Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950) e Espelho Mágico (1951). A musicalidade do verso convivia com o aforismo de uma linha. Em Sapato Florido, o caminhante e o sapato viram motivo; em Espelho Mágico, a utopia e a discrição cabem em quatro versos.

O auge público costuma ser datado em 1966, quando completou sessenta anos. Rubem Braga e Paulo Mendes Campos organizaram uma Antologia Poética com sessenta poemas. Na Academia Brasileira de Letras, Augusto Meyer e Manuel Bandeira saudaram o colega; Bandeira leu Quintanares — “não são, Quintana, cantares: são, Quintana, quintanares”. No mesmo ano, ganhou o Prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira de Escritores.

A produção não parou. Caderno H (1973) consolidou o Quintana popular das frases. Esconderijos do Tempo (1980) mostrou o poeta septuagenário sem se repetir. Houve ainda livros infantis como O Batalhão das Letras, Lili inventa o Mundo e Nariz de Vidro, e, no fim da vida, as Agendas Poéticas, a partir de 1988, com um texto breve para cada dia do ano.

Por que os versos circulam tanto agora

A pergunta que traz muita gente a esta página não é só “quem foi”. É por que um poeta morto em 1994 parece escrito para o feed. A resposta está no corte. Quintana privilegia o cotidiano, fala baixo e fecha cedo. Não confunde profundidade com emaranhado. Um professor de literatura chamou isso, com precisão, de poesia do antitextão.

Há um efeito colateral. Frases melancólicas ou delicadas são atribuídas a ele mesmo quando não são dele. O fenômeno diz menos sobre fraude isolada e mais sobre um imaginário coletivo: quando o verso parece Quintana, o nome aparece. Vale o mesmo recado que se dá a quem lê Luis Fernando Verissimo na internet — cruzar com livro publicado antes de tratar a citação como fato.

  • Linguagem simples, com apelo poético imediato.
  • Temas do dia: rua, infância, tempo, amor, morte, objetos miúdos.
  • Forma curta: aforismo, poema breve, crônica que cabe numa pausa.

Hotéis, Casa de Cultura e o conto que viralizou

Quintana não se casou e não teve filhos. A partir do fim dos anos 1960, viveu em hotéis de Porto Alegre. Morou no Hotel Majestic, no centro histórico, de 1968 a 1980. O prédio foi tombado em 1982 e, em 1983, o governo do Rio Grande do Sul o transformou na Casa de Cultura Mario Quintana. O quarto do poeta foi reconstruído com orientação da sobrinha-neta Elena Quintana, secretária dele de 1979 a 1994.

Em 2012, um conto de Roberto Vieira descreveu o poeta desempregado, despejado do Majestic, mala na calçada, reconhecido e acolhido por Paulo Roberto Falcão no Hotel Royal. O texto viralizou como biografia. Não era. Vieira declarou a ficção. Henrique Mann, amigo e parceiro, e o próprio Falcão confirmaram a hospedagem graciosa no Royal, mas recusaram a cena humilhante. Quintana estava em busca de outro endereço, amparado por amigos e pela família. A lenda colou porque combinava com a imagem do solitário. O fato é mais prosaico e, por isso, mais útil.

A Academia, os prêmios e o passarinho

Tentou três vezes uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e não foi eleito. Recusou um quarto convite. A frase que ficou, atribuída a Luis Fernando Verissimo, resume o episódio sem heroísmo: se Quintana estivesse lá, a vida e a obra dele não mudariam; a Academia é que saía perdendo. Em 1980, a própria ABL lhe deu o Prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra. Em 1981, recebeu o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano. Em 1976, aos setenta, ganhou a medalha Negrinho do Pastoreio do governo gaúcho.

O Poeminha do Contra — “Eles passarão… Eu passarinho!” — virou o verso mais citado. Há quem ligue o texto à recusa da ABL; a associação circula, mas não está documentada como declaração do autor. O que está documentado é o gosto público por essa economia: um trocadilho, uma recusa e a imagem do passarinho.

Por onde começar a ler

Não existe um único portal. Quem quer o Quintana das frases encontra o Caderno H. Quem quer o livro de maturidade vai a Esconderijos do Tempo. Quem prefere um mapa organizado pelo próprio poeta pode partir da Antologia poética de 1981, com divisão temática e prefácio de Eucanaã Ferraz nas edições recentes da Alfaguara. A estreia de 1940, A Rua dos Cataventos, mostra o sonetista antes do aforista famoso.

Desde 2009, o acervo de manuscritos, cadernos e biblioteca pessoal está no Instituto Moreira Salles. Em Porto Alegre, a Casa de Cultura no antigo Majestic guarda o quarto reconstruído. Há bairro e escolas com o nome dele. Nada disso substitui o verso. Quintana permanece, na literatura brasileira, o caso raro do poeta que o leitor comum reconhece de ouvido — às vezes até quando o ouvido se engana no crédito.

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Projetos de Mário Quintana

Caderno H
Caderno H
Reunião de crônicas, poemas e aforismos que Mario Quintana publicou aos sábados no Correio do Povo e que o tornou um escritor de leitura cotidiana.
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Esconderijos do Tempo
Esconderijos do Tempo
Livro de poesia de 1980 em que Mario Quintana, já septuagenário, trata do tempo e da imaginação sem cair na nostalgia fácil.
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Antologia poética
Antologia poética
Seleção temática organizada pelo próprio Mario Quintana, porta de entrada para humor, infância, cotidiano e devaneio na poesia dele.
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