Quando a pandemia transformou microfone e live em trincheira, Natalia Pasternak já não falava só de bactéria e paper: falava de evidência como filtro de decisão pública. Microbiologista formada na USP, fundadora do Instituto Questão de Ciência e autora de livros que atravessaram o Prêmio Jabuti e debates acalorados sobre pseudociência, ela se tornou uma das vozes mais buscadas no Brasil por quem quer separar ciência de ruído.
Quem digita o nome dela costuma chegar com perguntas práticas. Quem é essa bióloga que aparece em televisão e colunas? Por que a pandemia a colocou no centro do noticiário? O que ela defende quando critica tratamentos sem prova, e quais obras realmente explicam o método dela? Este perfil reúne a trajetória pública, a formação, os canais e os projetos que sustentam a reputação de Natalia Pasternak — sem transformar biografia em catálogo.
Quem é Natalia Pasternak e por que ela é buscada
Natalia Pasternak Taschner nasceu em São Paulo em 1976. É bióloga, doutora em Microbiologia pela Universidade de São Paulo e comunicadora de ciência com presença contínua em imprensa, rádio, livros e instituições. Preside o Instituto Questão de Ciência (IQC), entidade criada para defender políticas públicas baseadas em evidências e combater o uso de recursos públicos em práticas sem lastro científico. Também mantém site próprio em profnatpasternak.com, onde reúne publicações, mídia e atuação acadêmica.
A busca por ela cresceu de forma nítida a partir de 2020, quando o debate sobre vacinas, cloroquina, restrições e “ciência de WhatsApp” deixou de ser tema de laboratório e virou disputa de narrativa. Ao lado de outros divulgadores — como o também microbiologista Atila Iamarino e comunicadores de saúde como Drauzio Varella —, Pasternak ocupou o espaço de quem traduz método científico para o público sem abrir mão do rigor. A diferença de recorte: ela costuma insistir no desenho experimental, no consenso provisório da literatura e no custo social do negacionismo, mais do que em dicas de bem-estar.
Formação na USP e a passagem pelo laboratório
A base da autoridade de Natalia Pasternak não começa na televisão. Começa na bancada. Graduou-se em Ciências Biológicas na USP em 2001 e concluiu o doutorado em Microbiologia em 2006, no Instituto de Ciências Biomédicas, com tese sobre a regulação da fosfatase alcalina pelo fator sigma S da RNA polimerase de Escherichia coli. Entre 2007 e 2013 fez pós-doutorado em genética molecular de bactérias, ainda na USP.
Esse percurso importa porque explica o tom. Quando fala de ensaio clínico, de placebo, de viés de confirmação ou de “achismo disfarçado de opinião científica”, o raciocínio carrega o hábito de quem leu paper, desenhou pergunta de pesquisa e viveu a rotina de laboratório. A carreira posterior em comunicação não apaga essa origem: ela a usa como credencial e como método de leitura do mundo.
Com o tempo, a atuação se expandiu para a interface entre ciência e política pública. Pasternak colaborou como professora visitante na Escola de Administração Pública da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, e como colaboradora de pesquisa na USP. Mais adiante, passou a atuar também na Columbia University, no eixo de comunicação científica, sociedade e políticas baseadas em evidências — um movimento natural para quem saiu do laboratório e passou a discutir como governos, mídia e sociedade usam (ou abusam) da ciência.
Do Café na Bancada ao Pint of Science
Antes do IQC e dos livros de grande circulação, Natalia Pasternak já experimentava formatos de divulgação. Fundou o projeto Café na Bancada, com a proposta de “difundir a ciência com café”, misturando linguagem acessível e humor de laboratório. O site original saiu do ar, mas a iniciativa sobreviveu como página no Facebook e como marca de um estilo: ciência falada de perto, sem jargão desnecessário e sem condescendência.
Entre 2015 e 2019, dirigiu a versão brasileira do festival internacional Pint of Science, levando palestras científicas a bares em dezenas de cidades. A aposta era simples e ousada: se a ciência não vai ao bar, o boato chega primeiro. Essa fase ajuda a entender por que, mais tarde, ela se moveu com naturalidade entre microfone de rádio, coluna de jornal e estúdio de televisão — o público já era o mesmo; mudou a escala do ruído.
Instituto Questão de Ciência: evidência como política
Em 2018, Pasternak fundou e assumiu a presidência do Instituto Questão de Ciência. O IQC nasceu com missão explícita: pressionar para que decisões públicas, especialmente em saúde e educação, se apoiem em evidência científica, e denunciar o financiamento de práticas sem comprovação. Reportagens da época registram que ela chegou a investir recursos próprios na criação da entidade — gesto raro no ecossistema brasileiro de comunicação científica.
Pelo IQC circulam dossiês, análises, a Revista Questão de Ciência e campanhas de esclarecimento. Durante a pandemia de COVID-19, o instituto e sua presidente ganharam projeção nacional ao questionar tratamentos sem comprovação e ao defender vacinas e medidas alinhadas à literatura científica. O preço público desse posicionamento incluiu exposição intensa, debates polarizados e, segundo relatos de imprensa, ondas de ofensas e ataques digitais — um efeito colateral previsível quando a ciência entra em rota de colisão com discurso político.
- Defesa de políticas públicas baseadas em evidências
- Crítica a pseudociências e a gastos públicos sem lastro científico
- Produção editorial e de mídia em torno de pensamento crítico
- Formação e articulação de pesquisadores, jornalistas e comunicadores
Livros, colunas e a voz na imprensa
A obra escrita de Natalia Pasternak, em parceria frequente com o jornalista Carlos Orsi, forma um arco claro. Em Ciência no Cotidiano: Viva a razão. Abaixo a ignorância! (Editora Contexto, 2020), a dupla mostra como ideias científicas atravessam comida, transporte, saúde e decisões banais — e leva o Prêmio Jabuti de 2021 na categoria de Ciências (Não Ficção). Em Contra a realidade (Papirus), o foco migra para o negacionismo: causas, mecanismos e consequências de negar fatos bem estabelecidos. Em Que bobagem! (Contexto, 2023), o alvo são práticas e doutrinas apresentadas como ciência sem passarem pelo crivo do método — livro que gerou forte repercussão e controvérsia pública.
Além dos livros, Pasternak escreveu para o jornal O Globo, manteve presença em veículos de saúde e ciência, colaborou com The Skeptic (Reino Unido) e Medscape, e comandou o quadro A Hora da Ciência na rádio CBN entre 2021 e 2023. Também aparece com frequência em entrevistas, Roda Viva, podcasts e ciclos como Casa do Saber. O padrão se repete: explicar o que conta como evidência, por que “ter opinião” não substitui teste, e como o ceticismo científico difere do cinismo fácil das redes.
Reconhecimentos e o lugar no debate público
O reconhecimento institucional acompanhou a exposição. Natalia Pasternak foi a primeira brasileira eleita fellow do Committee for Skeptical Inquiry (CSI), nos Estados Unidos. Recebeu o Prêmio Ockham de ativismo cético da revista britânica The Skeptic em 2020, foi homenageada pela revista IstoÉ na categoria Ciência e entrou na lista das 100 Mulheres da BBC em 2021. Também figuraram menções como Personalidade do Ano pelo Grupo de Diários América, ligadas à atuação contra desinformação na pandemia.
Esses prêmios não transformam a biografia em hagiografia. Eles marcam, porém, um ponto de virada: a divulgadora de bar e blog virou referência internacional de combate ao negacionismo científico em língua portuguesa. Para o leitor, isso significa que buscar Natalia Pasternak raramente é só curiosidade biográfica — é também tentar entender um método de leitura da realidade que ela defende em livro, coluna e instituto.
Como acompanhar e o que ler primeiro
Quem quer acompanhar o trabalho atual encontra material no site pessoal, nas páginas do IQC, nas colunas e entrevistas e, no caso dos livros, nas edições da Contexto e da Papirus disponíveis em livrarias e na Amazon. Uma rota útil de leitura é começar por Ciência no Cotidiano para o método no dia a dia, seguir para Contra a realidade se o interesse for negacionismo e fake news, e chegar a Que bobagem! quando a pergunta for “o que passa e o que não passa pelo crivo científico” em temas de saúde e crença popular.
Em resumo: Natalia Pasternak é microbiologista de formação, comunicadora de ofício e militante institucional da evidência. Sua autoridade pública se apoia em laboratório, em instituição própria, em livros premiados e em uma presença obstinada no debate brasileiro sobre ciência, saúde e desinformação — exatamente o conjunto de motivos que faz o nome dela continuar sendo buscado.




