Contexto e proposta de A bailarina fantasma
A bailarina fantasma coloca Anabela no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, e uma bailarina translúcida vestida de azul que só a menina enxerga. É o primeiro volume da série Anabela em Quatro Atos, em que cada livro se passa num grande teatro brasileiro. A edição do selo Seguinte, da Companhia das Letras, saiu em setembro de 2015, com 192 páginas e ilustrações de Milena Galli.
O pai de Anabela é o arquiteto escolhido para coordenar a reforma que deve devolver ao teatro as características da inauguração, em 1910. A menina faz lição de casa nos corredores enquanto a obra anda. A reforma desenterra o que estava calado. A bailarina persegue Anabela. Por que só ela vê? Quem é a mulher de azul?
Marisa Lajolo tratou a primeira edição, ainda na Biruta, em 2010, como obra sem contraindicação de idade: fato e invenção se misturam até o leitor perder a costura. O relançamento no Seguinte deslocou o livro para a prateleira jovem da Companhia das Letras, o mesmo grupo que depois concentraria os romances adultos. Quem lê Acioli só a partir de 2014 perde este elo com Fortaleza concreta — ferro, palco, foyer — em vez do sertão de Candeia.
Há um detalhe biográfico que não precisa virar lenda: a autora lançou o livro no próprio Theatro José de Alencar. A cidade não é cenário genérico. É o teatro que o cearense aponta no centro, o mesmo que a menina da ficção ocupa depois da aula. Para leitor de Fortaleza, o mapa coincide. Para leitor de fora, o palco antigo cumpre o papel que a cabeça do santo cumpre no outro livro: um lugar oco, habitado, que ouve demais.
A série promete outros teatros brasileiros em volumes seguintes. Este primeiro resolve sozinho: mistério, amizade, prédio histórico, medo que vira investigação. Não exige ter lido o romance adulto. Adolescente e pré-adolescente são o público declarado. Adulto curioso pela fase infantojuvenil da autora também se vira, sobretudo se já conhece o José de Alencar de verdade.
Na hora de comprar, a edição Seguinte é a referência corrente de livraria. Há audiolivro no catálogo do grupo. Quem quer presente de aniversário ligado a Fortaleza, teatro ou dança acerta mais aqui do que no santo amarelo, pesado demais para certa faixa. Quem quer “o livro da Socorro para jovem” também: antes do fenômeno de 2023, este já era o título que a crítica literária infantil e juvenil apontava.
O gato, a mala, o violino da capa não são enfeite aleatório: a história mistura viagem, palco e o que uma reforma tira do pó. Acioli, que começou publicando aos oito anos e nunca largou o leitor novo, trata o fantasma com a mesma seriedade com que trata a prece no romance adulto. Assombração, aqui, é trabalho de memória do prédio.





