Em 2006, sobrou uma vaga na oficina fechada de Gabriel García Márquez em San Antonio de los Baños, Cuba. Socorro Acioli mandou um parágrafo. O Nobel leu e escolheu aquele texto. O romance que nasceu da sinopse — A cabeça do santo — dormiu anos na gaveta, saiu pela Companhia das Letras em 2014 e, uma década depois, voltou a ocupar livraria, Flip e conversa de leitor como se tivesse acabado de chegar.
Quem busca o nome dela hoje costuma querer juntar peças soltas: o Jabuti infantil, o sertão de Candeia, a crônica na Folha, a sala de aula em Fortaleza. O fio é o mesmo. Acioli escreve como quem escuta o que o Ceará já conta em voz baixa — fé, abandono, humor, milagre doméstico — e transforma isso em romance, livro para criança e formação de escritores.
Quem é Socorro Acioli
Socorro Edite Oliveira Acioli Martins nasceu em Fortaleza, em 24 de fevereiro de 1975, e segue ligada à capital cearense. É jornalista, escritora e professora. Publica desde a infância: O pipoqueiro João saiu em 1984, pela Nação Cariry Editora, quando ela tinha oito anos, com ilustrações da própria autora.
O nome público ficou associado à literatura contemporânea brasileira depois de A cabeça do santo, primeiro romance adulto, e de Oração para desaparecer, de 2023. Antes disso, já havia uma carreira longa em biografia, infantojuvenil, tradução e sala de aula. A Companhia das Letras, que concentra a ficção adulta, chegou a registrar cerca de 500 mil exemplares vendidos da autora.
Não é um perfil de “estreia tardia”. É o contrário: alguém que passou duas décadas publicando para criança e jovem, ganhou o Prêmio Jabuti em 2013 com Ela tem olhos de céu e só então deslocou o mesmo ouvido — popular, seco, fantástico sem alarde — para o romance de livraria adulta.
Formação, jornalismo e o encontro em Cuba
Formou-se em Comunicação Social, com habilitação em jornalismo, pela Universidade Federal do Ceará, em 2001. No mesmo período voltou às letras com a biografia Frei Tito, pelas Edições Demócrito Rocha. Em 2003 publicou, na mesma coleção, a biografia de Rachel de Queiroz, a partir de pesquisa e conversas com a escritora. Trabalhou como editora na Fundação Demócrito Rocha.
O mestrado em Literatura Brasileira veio na UFC, em 2004. O doutorado em Estudos de Literatura, na Universidade Federal Fluminense, em 2014. Entre uma coisa e outra, a pauta que mudou o rumo: em 2006 foi a brasileira selecionada para a oficina Como contar um conto, de García Márquez, na Escuela Internacional de Cine y Televisión. O curso não tinha inscrição aberta. A vaga restante exigia um resumo. A sinopse de Samuel, da cabeça oca de santo Antônio e da cidade de Candeia entrou na seleção do próprio autor colombiano.
Em 2007 foi pesquisadora visitante na Biblioteca Internacional da Juventude, em Munique. Também deu palestras a convite de centros culturais do Brasil em La Paz e na Praia, em Cabo Verde. A obra tem edições no Reino Unido, nos Estados Unidos, na França e, segundo o site da autora, no México e na Itália.
Do livro infantil ao romance que virou filme
Antes do santo amarelo das vitrines, Acioli construiu volume: dezenas de títulos para criança e jovem, selos da FNLIJ, biografias, tradução de séries infantis, um ensaio sobre leitura com Monteiro Lobato e até a “biografia não autorizada” da Emília, a boneca de Monteiro Lobato.
Ela tem olhos de céu, da Editora Gaivota, com ilustrações de Mateus Rios, levou o Jabuti de literatura infantil em 2013. A história de Sebastiana, na cidade de Santa Rita do Norte, trabalha chuva, espanto e linguagem de cordel sem infantilizar o leitor. A bailarina fantasma, depois relançada no selo Seguinte, coloca uma menina no Theatro José de Alencar e uma bailarina que só ela enxerga.
A cabeça do santo saiu em fevereiro de 2014. A versão em inglês, The Head of the Saint, traduzida por Daniel Hahn, entrou na lista de melhores livros para adolescentes da New York Public Library em 2016 e foi finalista do Los Angeles Times Book Prize na categoria de literatura infantojuvenil. No Brasil, o livro voltou à boca do caixa anos depois do lançamento: na Flip de 2023, Acioli teve o primeiro e o terceiro títulos mais vendidos da festa. A adaptação cinematográfica foi anunciada na imprensa, com Antônio Pitanga no elenco.
Oração para desaparecer, de 2023, desloca o eixo para uma mulher desenterrada viva, sem memória, entre o Ceará e uma vila em Portugal. Em 2024, organizou com Fabiane Secches a antologia de contos O dia escuro, também pela Companhia das Letras. Em 2026, estreou na Planeta com Amar é inadiável, reunião de crônicas publicadas entre 2015 e 2022 no O Povo e no Diário do Nordeste — e passou a assinar coluna na Folha de S.Paulo.
Professora, leitora e o ofício de ensinar a escrever
Além dos livros, Acioli é professora. Coordena a especialização em escrita e criação da Universidade de Fortaleza e atua no mestrado profissional em Direito e Gestão de Conflitos da Unifor. Já coordenou especialização em escrita literária no Centro Universitário Farias Brito e manteve ateliês de narrativas que geraram coletâneas de alunos.
O site oficial reúne cursos e o Grupo Longarinas, de leitura. No Instagram, apresenta-se como jornalista, escritora e colunista da Folha. O contato de eventos passa por assessoria pública. Não há, nas fontes abertas conferidas, um CNPJ claramente atrelado à marca pessoal.
- A cabeça do santo (Companhia das Letras, 2014): o romance do jovem que mora na cabeça de santo Antônio e ouve preces de amor.
- Oração para desaparecer (Companhia das Letras, 2023): mulher sem memória, Ceará e Portugal no mesmo feitiço.
- Ela tem olhos de céu (Gaivota, 2012): Jabuti infantil, sertão e chuva.
- Amar é inadiável (Planeta, 2026): crônicas de jornal em livro.
- A bailarina fantasma (Seguinte): teatro, mistério e Fortaleza para leitor jovem.
Onde acompanhar e por onde começar
Quem chega agora pelo romance amarelo pode seguir para Oração para desaparecer se quiser o mesmo pulso fantástico com outra geografia. Quem prefere o jornalismo literário encontra as crônicas. Quem lê com criança ou adolescente tem um catálogo anterior, premiado, que explica por que a autora nunca tratou o maravilhoso como enfeite de vitrine.
O caminho público mais direto é o site, o Instagram e a página de autor na Amazon. Os romances adultos continuam na Companhia das Letras; as crônicas, na Planeta. Fortaleza permanece o chão: cidade natal, cidade de trabalho, cidade que devolve à prosa a cabeça de santo, o teatro de ferro e a chuva que demora.






