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Monteiro Lobato

José Bento Renato Monteiro Lobato

Nascimento: 1882 Taubaté, SP
Escritor e editor de Taubaté, criador do Sítio do Picapau Amarelo e de Jeca Tatu. Fez o livro brasileiro circular no país e foi preso na campanha pelo petróleo.

O Brasil transformou o 18 de abril no Dia Nacional do Livro Infantil porque nesse dia, em 1882, nasceu em Taubaté José Bento Renato Monteiro Lobato. A data cola o escritor ao Sítio do Picapau Amarelo, e com razão: Narizinho, Emília e o Visconde de Sabugosa ainda são o atalho mais usado até o nome. Quem para aí perde o resto. O mesmo homem fundou editora quando livro brasileiro ainda saía de Paris, inventou o Jeca Tatu e foi parar no Presídio Tiradentes em 1941, na briga pelo petróleo.

A procura de hoje mistura escola, folclore e briga pública. Há quem queira a porta de entrada da literatura infantil. Há quem busque o panfleto O Escândalo do Petróleo. E há quem chegue pelo debate sobre racismo em Caçadas de Pedrinho e na figura de Tia Nastácia. Os três caminhos falam de um intelectual paulista que escreveu para criança e para adulto, perdeu dinheiro na Bolsa de Nova York e morreu em São Paulo em 4 de julho de 1948.

Quem foi Monteiro Lobato

Monteiro Lobato (1882-1948) é o nome público de um contista, editor, tradutor e ensaísta identificado com o pré-modernismo e, depois, com a invenção de uma literatura infantil brasileira de fato nacional. Metade da obra fala com criança; a outra metade é conto regionalista, crítica, campanha sanitária, petróleo e um único romance, O Presidente Negro (também chamado O Choque das Raças), de 1926, que nunca teve o alcance do Sítio e hoje se lê sobretudo pelo teor eugênico.

Ele não é só o avô do Picapau Amarelo. Foi promotor em Areias, fazendeiro na Buquira, dono da Revista do Brasil, sócio da Companhia Editora Nacional e adido comercial em Nova York. A autoridade pública dele se sustenta nesse cruzamento: quem escreveu para criança também quis mudar o jeito de editar, vender e ler livro no Brasil, e meteu-se na política mineral até ir para a cadeia no Estado Novo de Getúlio Vargas.

  • Nascimento em Taubaté, em 18 de abril de 1882; morte em São Paulo, em 4 de julho de 1948.
  • Bacharel em Direito no Largo de São Francisco em 1904; promotor em Areias; herdeiro da Fazenda Buquira.
  • Urupês em 1918; A Menina do Narizinho Arrebitado em 1920; Reinações de Narizinho em 1931.
  • Editora própria e, depois, Companhia Editora Nacional com Octalles Marcondes Ferreira.
  • Prisão no Presídio Tiradentes, de março a junho de 1941.

Taubaté, o Direito e a Fazenda Buquira

Nasceu na casa do avô materno, o visconde de Tremembé, e foi alfabetizado pela mãe, Olímpia Augusta Lobato. O nome de registro era José Renato; aos onze anos, ao herdar a bengala do pai com as iniciais J.B.M.L., passou a assinar José Bento para caber no castão. Perdeu o pai em 1898 e a mãe no ano seguinte. O avô impôs o Direito. Lobato queria belas artes; formou-se em 1904 na Faculdade do Largo de São Francisco e voltou ao Vale do Paraíba.

Casou-se em 1908 com Maria Pureza da Natividade, a Purezinha. Foi promotor em Areias. Em 1911, com a morte do visconde, herdou a Fazenda Buquira, hoje no município que leva o nome dele. A lavoura não o contentou. Em 12 de novembro de 1914, o Estado de S. Paulo publicou Velha Praga, carta-artigo contra as queimadas dos caboclos. O texto saiu da seção de leitores e puxou Urupês, crônica que deu carne ao Jeca Tatu. Em 1916 vendeu a fazenda e mudou-se para São Paulo para viver de escrita e jornal.

Urupês, Jeca Tatu e a editora que mudou o livro no Brasil

Publicado em livro em 1918, Urupês fez do caipira um tipo sem o verniz romântico. Jeca Tatu era o “urupê de pau podre”: cócoras, atraso, mandioca. Rui Barbosa citou o personagem em campanha. Cornélio Pires acusou Lobato de ter conhecido só o caboclo e generalizado o caipira. O próprio autor, mais tarde, deslocou o retrato: o atraso virava doença, abandono sanitário, verminose. O Jeca mudou porque o diagnóstico de Lobato mudou, não porque o tipo tenha virado mascote inofensivo.

No mesmo período ele comprou a Revista do Brasil e passou a editar no país o que ainda se imprimia na Europa. Capa colorida, livro à vista do freguês, rede de vendedores: tratava o volume como mercadoria, não como relíquia. Publicou estreantes e, em 1919, Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto, a quem já tinha reconhecido em carta. A Monteiro Lobato & Cia. quebrou em 1925, depois de seca, corte de energia e desvalorização da moeda. A saída foi a Companhia Editora Nacional, com Octalles Marcondes Ferreira. Em 1917, o artigo Paranoia ou Mistificação? contra a exposição de Anita Malfatti o colocou em rota de colisão com os modernistas; Oswald de Andrade, mesmo assim, continuou a ler Urupês em voz alta.

Como nasceu o Sítio do Picapau Amarelo

Em dezembro de 1920 saiu A Menina do Narizinho Arrebitado, pedido de Washington Luís e primeira porta do sítio. Lúcia, a neta de Dona Benta, leva a boneca Emília ao Reino das Águas Claras; Pedrinho chega nas férias; o Visconde nasce de um sabugo. A série misturou folclore, mitologia grega, cinema e lição de geografia sem virar cartilha chata. Reinações de Narizinho, reunido em 1931, é o volume que ainda abre o conjunto. Os livros didáticos da turma, como Emília no País da Gramática e História do Mundo para Crianças, ensinavam matéria dentro da fábula, e este último sofreu censura da Igreja e do Estado.

O Sítio virou rádio, teatro e, décadas depois, televisão. Isso explica a busca escolar. Não explica sozinho a autoridade. A literatura infantil de Lobato existe porque ele recusou traduzir Europa para criança brasileira sem passar pelo terreiro, pelo saci e pela fala da cozinha. Autoras posteriores da mesma linhagem, como Ana Maria Machado, trabalham outro chão, mas o problema que ele colocou permanece: que língua, que lenda e que adulto a criança brasileira encontra no livro.

Petróleo, Estado Novo e a prisão de 1941

Nomeado adido comercial nos Estados Unidos em 1927, Lobato voltou impressionado com estrada, aço e petróleo. Perdeu o que tinha na quebra de 1929. De volta, montou companhias de perfuração e publicou em 1936 O Escândalo do Petróleo: a acusação era curta, “não perfurar e não deixar que se perfure”. O livro esgotou edições; o governo de Vargas recolheu. Em 1939, o petróleo brasileiro foi encontrado num bairro de Salvador chamado, por ironia, Lobato.

Uma carta ao presidente, lida como desrespeito ao Conselho Nacional do Petróleo, mandou-o para o Presídio Tiradentes. Ficou preso de março a junho de 1941; a pena de seis meses caiu para três com indulto. Perdeu os filhos Guilherme (1939) e Edgar (1942). A Editora Brasiliense, de Caio Prado Júnior, negociou as obras completas. Aproximou-se dos comunistas depois da cadeia, recusou candidatura efetiva pelo PCB e, em 1946, passou uma temporada em Buenos Aires. O último livro, Zé Brasil, devolveu o Jeca como trabalhador sem terra. Dois espasmos cerebrais antecederam a morte, aos 66 anos. Costumava chamar o fim de “gás inteligente”.

O debate sobre racismo na obra infantil

Em 2010, o Conselho Nacional de Educação examinou Caçadas de Pedrinho (1933) a partir de denúncia sobre estereótipos raciais. Os trechos mais citados falam de Tia Nastácia: “carne preta”, “macaca de carvão”. O parecer pedia nota explicativa ou exclusão da distribuição escolar. O então ministro da Educação, Fernando Haddad, recusou o veto e defendeu leitura contextualizada. Em 2024, o Superior Tribunal de Justiça entendeu que a recomendação do CNE, com abordagem crítica, não violou políticas antirracistas.

A briga não se resume a duas frases. Pesquisadoras leem Tia Nastácia como tipo da “mammy”, empregada negra dócil, e apontam insultos raciais em outros volumes da série. A neta Joyce Monteiro Lobato nega racismo na família. Marisa Lajolo e Lilia Moritz Schwarcz argumentam contra a censura do texto e a favor de notas, aula e contexto. Há ainda o romance de 1926, O Presidente Negro, distopia eugênica ambientada nos Estados Unidos. Esconder isso empobrece o retrato; usá-lo só como isca também. O nome permanece vivo porque a obra infantil circula e porque o país ainda discute se clássico se lê com advertência, com corte ou com a página inteira.

Por que Monteiro Lobato ainda é procurado

Quem chega pelo vestibular quer o Sítio e o Jeca. Quem chega pela história editorial quer o editor que pôs livro brasileiro na banca. Quem chega pela política mineral quer o preso de 1941. Os três leitores encontram a mesma teimosia: recusa de copiar Europa, fé no livro como objeto de consumo e uma ideia de Brasil que ora enxerga o caboclo como atraso, ora como doente abandonado, ora como sem-terra. A literatura dele não pede licença ao gosto da Academia Brasileira de Letras, que o rejeitou duas vezes e da qual ele, no fim, recusou indicação.

O acervo familiar segue em monteirolobato.com, com linha do tempo, fotografias e o trabalho da bisneta Cleo Monteiro Lobato. Museu em Taubaté, município com o nome dele no Vale do Paraíba e o 18 de abril no calendário escolar completam a circulação pública. O caminho mais honesto não é o da estátua nem o do réu permanente: é ler o Sítio, ler Urupês e ler o panfleto do petróleo na mesma biografia, sem fingir que um apaga o outro.

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Projetos de Monteiro Lobato

Reinações de Narizinho
Reinações de Narizinho
Volume de 1931 que abre o Sítio do Picapau Amarelo: Narizinho, Emília e o Reino das Águas Claras na porta da literatura infantil brasileira.
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Urupês
Urupês
Coletânea de 1918 em que o Jeca Tatu aparece como retrato amargo do caboclo e inaugura o regionalismo crítico de Monteiro Lobato.
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O Escândalo do Petróleo
O Escândalo do Petróleo
Panfleto de 1936 contra a política do petróleo no governo Vargas, texto que o Estado Novo mandou recolher e que antecipou a campanha pelo óleo nacional.
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