Antes de haver televisão, havia um sítio no Vale do Paraíba onde uma menina de nariz arrebitado levava uma boneca de pano para o fundo do rio e voltava com ela falando. Reinações de Narizinho é o livro que organiza essa porta. Reúne as histórias que Monteiro Lobato foi escrevendo desde 1920, quando lançou A Menina do Narizinho Arrebitado, até o volume de 1931 que a maior parte dos leitores ainda encontra na estante escolar.
O recorte não é “mais um clássico infantil”. É o mapa do Sítio do Picapau Amarelo: Dona Benta, Tia Nastácia, Pedrinho, Emília, o Visconde de Sabugosa, o Marquês de Rabicó e o Reino das Águas Claras. Quem entra por aqui entende por que o 18 de abril virou Dia Nacional do Livro Infantil e por que o nome de Lobato, mesmo disputado, não sai da infância brasileira.
O que o livro conta
Lúcia, a Narizinho, vive com a avó Dona Benta. Tem sete anos, gosta de pipoca e já faz bolinho de polvilho. A boneca Emília, feita de pano por Tia Nastácia, ganha fala depois de uma pílula do doutor Caramujo. Pedrinho chega da cidade nas férias. Juntos fabricam o Visconde num sabugo de milho e armam o casamento da boneca com o porquinho Rabicó. A fantasia não pede licença: peixe casa com menina, fábula atravessa o terreiro, o rio vira reino.
O volume definitivo costuma trazer onze narrativas. A ordem varia conforme a edição, mas o motor é o mesmo: o sítio como palco onde folclore brasileiro, conto de fadas europeu e invenção local se encontram sem hierarquia de museu. Lobato recusava traduzir infância alheia para criança daqui. Queria saci, onça, milho e fala da cozinha no mesmo chão em que cabiam príncipe encantado e pílula mágica.
Para quem este livro serve
Serve à criança que está descobrindo leitura longa, em geral a partir dos sete anos, e ao adulto que quer reler o Sítio com o texto, não só com a memória da Globo. Serve à escola que ainda indica Lobato e precisa de um volume de entrada, não de um box inteiro. E serve a quem discute a obra hoje: a edição da Companhia das Letrinhas organizada por Marisa Lajolo traz introdução sobre o contexto dos anos 1920 e notas em diálogo entre Narizinho e Emília, justamente para palavras, costumes e trechos que pedem conversa em voz alta.
Não é o volume da polêmica escolar mais citada. Essa briga costuma ir para Caçadas de Pedrinho. Mesmo assim, Tia Nastácia já está aqui, e o Sítio já desenha o arranjo da casa: a avó branca que narra, a empregada negra que cozinha, as crianças que mandam na fantasia. Quem lê só a aventura leva a porta. Quem lê com atenção leva também o retrato de uma infância paulista dos anos 1920, com o que ela inclui e o que ela cala.
Como escolher uma edição
Há dezenas de reimpressões, porque a obra está em domínio público. Qualidade oscila. A edição de luxo da Companhia das Letrinhas, com ilustrações de Lole, é a que melhor cumpre o papel de volume de presente e de leitura compartilhada: capa dura, texto introdutório, notas e projeto gráfico pensado para a mão da criança. Edições de bolso, como a da L&PM, cabem na mochila e no preço, mas dispensam o aparato de mediação. Box e “volume único” de outras casas repetem o mesmo texto com capricho desigual.
Vale decidir pela função. Para primeira leitura em família, a edição comentada reduz o risco de a criança tropeçar no vocabulário de 1931 e de o adulto fingir que o livro é só nostalgia. Para quem já conhece a turma e quer o texto corrido, uma edição enxuta basta. O que não vale é comprar recorte de dez páginas ilustradas achando que levou Reinações.
O lugar deste livro na obra de Lobato
Sem este volume, o Sítio não se segura. Os livros seguintes, de O Saci a Memórias da Emília, pressupõem o terreiro, a boneca falante e a avó que deixa a criança inventar. Na biografia do autor, Reinações marca a virada em que o editor de adultos, já famoso por Urupês, passa a ocupar a infância do país. A fama escolar nasceu daqui. A discussão contemporânea também: é neste universo que Tia Nastácia se torna personagem permanente, e é por essa porta que o leitor chega aos volumes depois acusados de racismo.
Ler Reinações de Narizinho não resolve a briga. Resolve a pergunta prática de quem busca Monteiro Lobato pela primeira vez: por onde começar. Começa-se pelo sítio, pela menina do nariz arrebitado e pela boneca que não cala a boca. O resto da obra, do Jeca Tatu ao petróleo, fica mais legível quando se sabe de que chão o autor falava quando falava com criança.
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