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O Escândalo do Petróleo

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Panfleto de 1936 contra a política do petróleo no governo Vargas, texto que o Estado Novo mandou recolher e que antecipou a campanha pelo óleo nacional.

Em 1936, Monteiro Lobato publicou um livro que o governo tentou apagar. O Escândalo do Petróleo acusava o Estado de uma frase só: “não perfurar e não deixar que se perfure”. O volume esgotou tiragens em semanas. Getúlio Vargas mandou recolher. Cinco anos depois, uma carta do escritor ao presidente, lida como desrespeito ao Conselho Nacional do Petróleo, mandou-o para o Presídio Tiradentes. Quem conhece só o Sítio costuma estranhar esse capítulo. Para Lobato, era o centro da vida adulta.

A edição da Biblioteca Azul junta o panfleto de 1936 a Georgismo e comunismo, texto de 1948 sobre o economista Henry George. O par mostra o que o criador de Emília fazia quando não falava com criança: campanha, dossiê, polêmica mineral e, no fim da vida, uma aposta de imposto sobre terra improdutiva contra o que via como ameaça comunista.

O que o livro denuncia

Lobato voltou dos Estados Unidos, onde fora adido comercial a partir de 1927, convencido de que o Brasil atrasava por falta de ferro, petróleo e estrada. Perdeu dinheiro na quebra de 1929. Fundou companhias de perfuração, entre elas a Companhia Petróleos do Brasil e a Companhia Mato-grossense de Petróleo, e bateu de frente com o discurso oficial de que não havia óleo no subsolo. O livro reúne essa briga: obstáculos burocráticos, interesses estrangeiros, recusa estatal de perfurar e a tese de que o atraso energético era escolha política, não geologia.

O tom é de panfleto, não de tratado. Há números, cartas, nomes de empresa e a raiva de quem reuniu capital de pequenos investidores e viu o poço não sair. Em 1939, o petróleo foi encontrado em Salvador, num bairro chamado Lobato. A ironia geográfica não devolveu o dinheiro nem tirou o livro da lista dos incômodos. O Estado Novo preferiu o silêncio.

Para quem este livro serve

Serve a quem quer a biografia política de Monteiro Lobato, não a ficha infantil. Serve a quem estuda a origem civil da campanha “o petróleo é nosso” e a criação posterior da Petrobras, cujas bandeiras o próprio texto ajudou a popularizar, ainda que o autor não tenha visto a empresa nascer. E serve a quem discute o nacionalismo econômico dos anos 1930 sem reduzir tudo a Getúlio no palanque.

Não é reportagem atual sobre pré-sal. Preços, reservas e marco regulatório de agora não estão aqui. O valor é outro: entender como um editor-escritor virou empresário de poço, como o Estado Novo tratou dissidência mineral e por que a prisão de 1941 não foi capricho de um homem mal-humorado. Quem busca manual de investimento ou história oficial da Petrobras sai no livro errado.

A edição com Georgismo e comunismo

O segundo texto, de 1948, apresenta o “imposto único” de Henry George sobre a terra que não produz. Lobato via nisso um caminho capitalista de reforma agrária, capaz de evitar o que chamava de ameaça comunista no pós-guerra. O encaixe com o panfleto do petróleo não é óbvio à primeira vista. Os dois textos compartilham a mesma obsessão: o Brasil rico em recurso e pobre em decisão, a terra e o subsolo como chaves do atraso, o Estado como obstáculo quando deveria ser alavanca ou, no georgismo, como cobrador da renda da terra.

Uma ressalva útil: a edição da Globo/Biblioteca Azul mistura o texto de Lobato a material de contexto. Há leitor que chegou querendo só o dossiê de 1936 e encontrou apresentação, recortes e o ensaio de 1948. Vale conferir o sumário. O núcleo que interessa à autoridade de Lobato continua sendo a acusação de 1936 e a cadeia que ela ajudou a produzir.

O que o livro muda na leitura do autor

Depois deste volume, o Sítio deixa de ser só fantasia. Em O Poço do Visconde, a turma infantil também fura petróleo. A coincidência não é fofa: é programa. Lobato ensinou criança a querer poço no mesmo período em que o governo o impedia de furar de verdade. A literatura infantil e o panfleto adulto são a mesma campanha em duas línguas.

Ler O Escândalo do Petróleo ao lado de Urupês completa o retrato do nacionalista irritado. No primeiro, o caboclo é o atraso. No segundo, o atraso é o Estado que não perfura. Entre os dois, o editor que quis livro brasileiro na banca. Essa tríade, e não a estátua do Dia do Livro Infantil, é o que justifica ainda procurar Monteiro Lobato como autoridade pública, não só como memória de infância.

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