Contexto e proposta de Amar é inadiável
Amar é inadiável reúne crônicas de Socorro Acioli publicadas entre 2015 e 2022 no O Povo e no Diário do Nordeste. Saiu pela Planeta em julho de 2026, com 224 páginas, enquanto a ficção adulta permanece na Companhia das Letras. É o livro de quem já conhece os romances e quer ver a autora no gênero em que o jornal pede um texto por semana.
A proposta pública da editora é direta: Acioli trata o cotidiano como matéria literária. Amor romântico, amizade, família, desconhecidos. Também responde, segundo a própria autora em entrevista de lançamento, a uma infância marcada por abandono afetivo. As crônicas “flertam com o conto”: falam de leitura, escrita, narrador, personagem e deixam pistas da cozinha de A cabeça do santo e Oração para desaparecer.
Não é diário íntimo nem manual de autoajuda, apesar de prateleiras às vezes empurarem crônica para esse canto. É jornalismo literário de autora que já ensina narratologia: escolhe quem narra, o tempo da história, o vocabulário do recorte. O título funciona como tese e como urgência. Amar aqui não espera o calendário editorial.
O lançamento aconteceu na Casa Folha, durante a Flip, em conversa com o editor Walter Porto. No mesmo movimento, Acioli passou a assinar coluna na Folha de S.Paulo, retomando o gênero depois do livro. Para o leitor, isso muda o uso: quem compra o volume leva um recorte fechado de sete anos de jornal; quem acompanha a coluna lê o ofício em tempo real.
A escolha da Planeta, disse a autora, veio da vontade de circular de outro jeito, sem tirar da Companhia das Letras a responsabilidade pela ficção. Faz sentido editorial. Crônica pede outra vitrine, outro ritmo de livraria, outro tipo de presente. Quem procura “o livro novo da Socorro” em 2026 encontra este, não um terceiro romance — o próximo, citado por ela como Delírio San Pedro, ainda era trabalho em curso na entrevista de lançamento.
Para quem lê em clube, o volume serve porque os textos são autônomos. Dá para abrir no meio, ler duas crônicas e fechar. Para quem pesquisa a obra, serve como arquivo: o que a romancista pensava sobre amor, escrita e Nordeste enquanto os dois romances já circulavam nas prateleiras. Para adolescente que chegou pelo santo amarelo, pode ser cedo; o tom é de adulta que já enterrou gente, perdoou gente e continua escrevendo.
A edição em papel e o e-book saem com a ficha da Planeta. Não cabe colar preço no texto: o valor de capa muda. Cabe dizer o que o livro é. Um caderno de ouvido. Uma escritora de Fortaleza treinando a frase curta no jornal e, no mesmo gesto, deixando ver o avesso dos romances que o país passou a comprar.





