A casa do Rio Vermelho, publicado em 1999, é o livro em que Zélia Gattai trata o casarão de Salvador como gente: porta, jardim, festa, infarto, visita, gato e mesa posta. No alto de uma ladeira do bairro, o endereço virou personagem. Não é guia turístico. É memória de um lugar que o casal comprou nos anos 1960 e onde a literatura brasileira ganhou rotina de quintal, não de claustro acadêmico.
Na porta de entrada, talhada por Calasans Neto, Tereza Batista anuncia o tom. Zélia pede licença ao leitor que ainda não conhece os detalhes e conta de novo, “com a gentileza de uma amável anfitriã”, como a editora resumiu. A casa acolhe amigos, abriga o laboratório fotográfico, sobrevive a um infarto de Jorge Amado e a uma visita de despedida de Pablo Neruda. O improviso e o desprezo pelo tempo cronológico, marcas da autora, encontram no casarão o palco certo.
Por que a casa merece um livro inteiro
Depois da infância paulistana e da viagem do segundo volume, faltava o chão baiano. Salvador, a partir de 1963, não foi pano de fundo: foi decisão de vida. Zélia e Jorge deixaram o Rio por uma cidade que lhes parecia mais respirável. A casa no Rio Vermelho concentrou trabalho, convívio e arquivo. Sem esse endereço, a fotógrafa teria outro laboratório; a memorialista, outro ritmo; o público de hoje, outro museu.
O livro interessa a quem visita ou pretende visitar o casarão, a quem lê Jorge Amado pela Bahia e a quem quer entender como um casal de escritores organiza a vida longe do Rio editorial. Também interessa a quem já leu Zélia e percebeu que a casa aparece de relance em outros volumes: aqui ela ganha o centro. A edição da Companhia das Letras, em português, tem 344 páginas e imagens de época. O texto trata a literatura como modo de se apropriar do mundo, não só de registrá-lo.
- Memórias da casa do Rio Vermelho, em Salvador, a partir da mudança dos anos 1960.
- Retrato de convívio, festas, trabalho literário e arquivo fotográfico no casarão.
- Presença de artistas e amigos, da porta de Calasans Neto a visitas como a de Neruda.
- Ponte entre a vida privada do casal e a casa-museu que o público conhece hoje.
- Volume de 1999, no ciclo maduro da obra memorialística de Zélia Gattai.
O que o leitor encontra — e o que não encontra
Não há planta baixa nem horário de visitação. Há a ética da anfitriã: contar de novo para quem chegou agora. A cronologia frouxa pode desorientar quem quer ficha. Para o leitor certo, essa frouxidão é o assunto: a casa não vive no relógio, vive na repetição das festas, na doença, no jardim, na porta que se abre. Zélia admite a embriaguez das pequenas recordações. O risco do livro é o mesmo da hospitalidade — sobrar anedota. O ganho é o mesmo: o visitante sai sabendo como se habitava aquele alto de ladeira.
A casa pública de hoje, gerida no entorno da memória de Jorge Amado e Zélia Gattai, não substitui o volume. O museu mostra objetos. O livro mostra o uso: quem sentava, quem partia, o que se temia quando a saúde de Jorge falhava, como a fotografia ocupava cômodo e ofício. Ler os dois — o espaço e a página — é a combinação mais honesta para quem quer o Rio Vermelho além do cartão-postal.
Como este volume se encaixa na obra
Na sequência memorialística, A casa do Rio Vermelho chega depois da infância, da viagem e do exílio. É livro de chegada. Quem começar por ele entenderá Salvador e o casal; perderá, porém, a menina da Alameda Santos e a militante da anistia. A ordem de publicação ainda é um bom mapa: estreia em 1979, chapéu em 1982, casa em 1999. No meio, há Europa, infantil e o romance. Depois, a ABL e os volumes finais.
A edição em português da Companhia das Letras é a referência de texto e de capa. Na Amazon, o item correspondente cobre essa edição. Preço de sebo e de ebook oscila; o conteúdo que importa é o da anfitriã que abre a porta e pede licença para contar outra vez. Para a biografia de Zélia Gattai, este é o livro em que Salvador deixa de ser destino e vira casa.



