Aos 63 anos, Zélia Gattai publicou Anarquistas, graças a Deus e saiu da margem do gabinete onde datilografava os livros de Jorge Amado. O volume de 1979 reconta a infância paulistana de uma filha de imigrantes italianos — o pai anarquista, a mãe católica do Vêneto — e, ao completar vinte anos de edição, já tinha passado de duzentos mil exemplares no Brasil. Em 1984, a Rede Globo transformou a mesma matéria em minissérie dirigida por Walter Avancini.
Essa estreia tardia explica por que o nome ainda é procurado. A busca encontra a memorialista, a fotógrafa e a imortal da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, formada entre São Paulo, o exílio europeu e a Casa do Rio Vermelho, em Salvador, com um testemunho raro da imigração, da militância e da vida literária brasileira do século XX.
Quem foi Zélia Gattai
Zélia Gattai Amado de Faria nasceu em São Paulo em 2 de julho de 1916 e morreu em Salvador em 17 de maio de 2008, aos 91 anos. Preferia o ofício de memorialista ao rótulo largo de escritora. A obra pública reúne livros de memórias, três títulos infantis, uma fotobiografia e um romance. Alguns volumes cruzaram o francês, o italiano, o espanhol, o alemão e o russo.
Filha dos imigrantes italianos Ernesto Gattai e Angelina Da Col, foi a caçula de cinco irmãos. A infância passou na Alameda Santos, no eixo entre Consolação e Paraíso, numa São Paulo operária em que o anarquismo italiano não era peça de museu: era conversa de mesa, reunião e disputa por jornada. Esse chão familiar vira matéria literária décadas depois, quando ela decide contar a Colônia Cecília, o porto, o automóvel do pai e a babá Maria Negra sem transformar a menina em heroína.
Antes da literatura, houve outro casamento. Aos vinte anos uniu-se ao militante comunista Aldo Veiga. Em 12 de agosto de 1942 nasceu o filho Luís Carlos, em São Paulo. A união durou cerca de oito anos. Em 1945, no movimento pela anistia dos presos políticos do Estado Novo, Zélia conheceu Jorge Amado, de quem já era leitora. Poucos meses depois passaram a viver juntos. Em 25 de novembro de 1947 nasceu, no Rio de Janeiro, João Jorge Amado. Em 19 de agosto de 1951, em Praga, nasceu Paloma Jorge Amado.
Como o exílio e a Sorbonne entram na biografia
Com a cassação dos parlamentares comunistas, Jorge Amado perdeu o mandato de deputado e a família deixou o Brasil. Zélia embarcou com o filho pequeno, encontrou o companheiro em Gênova e atravessou Itália, Tchecoslováquia, Polônia, França e a União Soviética. Em Paris cursou civilização francesa, fonética e língua francesa na Sorbonne. De 1950 a 1952 a família viveu em Praga. O exílio também foi o começo da câmera: ela passou a fotografar para mandar retratos do menino aos avós e, sem plano de carreira, virou a cronista visual da vida pública de Jorge Amado.
A volta ao Brasil, em 1952, pousou primeiro no Rio. Em 1963 o casal se instalou no Rio Vermelho, em Salvador, numa casa no alto da ladeira que depois ganharia livro próprio. Ali Zélia montou laboratório fotográfico. A fotobiografia Reportagem incompleta reúne essa prática: retratos, convívio e o arquivo que a Fundação Casa de Jorge Amado estima na casa das dezenas de milhares de imagens.
- Nasceu em São Paulo em 2 de julho de 1916 e morreu em Salvador em 17 de maio de 2008.
- Estreou em 1979, aos 63 anos, com Anarquistas, graças a Deus, Prêmio Paulista de Revelação Literária.
- A minissérie da Globo, de 1984, levou a saga familiar a outros países.
- Eleita em 7 de dezembro de 2001 para a cadeira 23 da ABL, tomou posse em 21 de maio de 2002.
- Recebeu honrarias no Brasil, em Portugal e na França, entre elas a Ordem do Infante D. Henrique e a Ordem das Artes e das Letras.
Por que a fotografia não é detalhe biográfico
Chamar Zélia só de esposa-fotógrafa aperta demais o ofício. O arquivo que ela construiu no exílio e na Bahia documenta Jorge Amado no trabalho, em viagens e em casa, mas também guarda a própria maneira de olhar: espontânea, de amizade, sem pose de estúdio. Na Casa do Rio Vermelho o laboratório ocupava espaço concreto na rotina. Quem visita o casarão hoje ainda esbarra nessa camada — negativos, ampliações, a porta talhada por Calasans Neto com Tereza Batista — porque a memória da casa foi montada também em imagem.
Essa prática atravessa o livro de memórias. Reportagem incompleta põe a fotografia no centro. Città di Roma volta à saga da imigração com fotos escolhidas. A menina que ouvia histórias na Alameda Santos virou adulta que desconfiava da invenção pura: o que ela queria era o trato da memória, o detalhe que ainda cabe no bolso, a cena que um retrato segura melhor do que um discurso.
Como a memorialista nasceu aos 63 anos
Há um episódio público que ela mesma repetiu: Paloma pediu que a mãe escrevesse uma história contada muitas vezes em casa. Zélia relutou, saíram quinze páginas, e a veia documental se confirmou. Jorge Amado, lendo um conto que ela rascunhava, teria apontado o caminho da família — não o da ficção frouxa. Em 1979 veio Anarquistas, graças a Deus. A autora assinou com o nome de solteira. Três anos depois publicou Um chapéu para viagem, presente literário pelos setenta anos de Jorge, sobre os primeiros anos da união, a anistia, a sogra Lalu e a descoberta da Bahia.
A sequência não é catálogo: é um método. Senhora dona do baile e Jardim de inverno tratam do exílio europeu. A casa do Rio Vermelho narra o casarão de Salvador. Crônica de uma namorada, de 1995, é o romance. No infantil, Pipistrelo das mil cores, O segredo da Rua 18 e Jonas e a sereia mostram outra dicção, ainda oral, ainda de quem conta à mesa. A Companhia das Letras reúne hoje a maior parte desses títulos em português.
O que a Casa do Rio Vermelho e a ABL mudam no retrato público
Salvador não foi cenário de temporada. Zélia viveu ali até o fim, recebeu o título de cidadã honorária da cidade em 1984 e viu a casa virar ponto de memória da literatura brasileira. Em 12 de maio de 1976, depois de anos de união sem papel possível no regime antigo, o casamento com Jorge foi oficializado. Ele morreu em 6 de agosto de 2001. No mesmo ano ela foi eleita para a cadeira 23 da ABL — patrono José de Alencar, primeiro ocupante Machado de Assis, antecessor imediato Jorge Amado — e também para a Academia de Letras da Bahia. A posse na ABL, em 21 de maio de 2002, recebeu-a Eduardo Portella. No discurso, falou de si como contadora de histórias, ofício que dizia trazer no sangue.
A eleição foi lida, à época, tanto como reconhecimento da obra memorialística quanto como continuidade afetiva da cadeira. O que a bibliografia mostra, à parte o debate, é continuidade de trabalho: depois de 2001 ainda saíram Códigos de família, Jorge Amado: um baiano romântico e sensual, Memorial do amor e Vacina de sapo e outras lembranças.
Quem chega agora pela minissérie, pela casa-museu ou pelo filho que organiza o acervo encontra a mesma pessoa em camadas distintas: a menina do Paraíso, a militante da anistia, a fotógrafa do exílio, a memorialista de 1979 e a acadêmica de 2002. A página institucional da Fundação Casa de Jorge Amado concentra biografia e lista de obras; os livros, estes, continuam a melhor porta de entrada.
Por onde começar a ler Zélia Gattai
Se a dúvida é a infância e a imigração italiana, o ponto de partida é Anarquistas, graças a Deus. Se a pergunta é a vida a dois com Jorge Amado, o segundo livro, Um chapéu para viagem, cobre o encontro, a militância e a viagem. Se o interesse é Salvador e o casarão do Rio Vermelho, o volume de 1999 trata a casa como personagem. Nenhum desses títulos esgota a autora: a fotografia, o infantil e o romance existem para quem quiser sair do circuito mais óbvio da viúva ilustre — circuito que ela mesma passou a desfazer, página após página, depois dos sessenta.




