Anarquistas graças a Deus não pede ao leitor uma tese sobre imigração: pede ouvido. Uma menina paulistana observa o pai anarquista, a mãe católica do Vêneto, a babá Maria Negra e uma São Paulo que cresce em bondes, circos e greves. Publicado em 1979, o livro de estreia de Zélia Gattai reconta a saga dos Gattai e Da Col no Brasil a partir do olhar da infância, em capítulos curtos que funcionam como conversa de família e, ao mesmo tempo, como documento de um país em formação.
A matéria é concreta. Ernesto Gattai, anarquista ligado ao movimento operário de São Paulo, traz na biografia a sombra da Colônia Cecília — a tentativa de comunidade experimental no Paraná, idealizada por Giovanni Rossi no fim do século XIX. Angelina chega pelo Vêneto católico. Entre Florença, o porto e a Alameda Santos, a autora monta o retrato de imigrantes italianos que não cabem no clichê da nonna e da massa: há militância, automóvel, cinema, escola católica liberal e a tensão de uma cidade que se moderniza sem perder o encanto que a menina insiste em guardar.
Para quem este livro existe
O volume interessa a quem busca memória da imigração italiana, história de São Paulo no começo do século XX, literatura de testemunho e a origem da voz de Zélia Gattai. Não é biografia oficial de Jorge Amado. Ele aparece no limiar da vida adulta da autora, e o próprio Jorge, no prefácio de edições posteriores, reconhece o livro dela como acontecimento próprio. Quem chega só pelo casal pode se surpreender: a protagonista aqui é a menina, não o romancista baiano.
Estudantes de literatura, leitores de memórias e quem viu a minissérie da Rede Globo de 1984 encontram no texto a fonte. A adaptação, escrita por Walter George Durst e dirigida por Walter Avancini, foi ao ar entre 7 e 17 de maio de 1984 e circulou depois em países como Argentina, Itália, Portugal e Estados Unidos. A teledramaturgia amplia o alcance; o livro conserva o tom oral, o humor seco e a recusa de transformar a infância em cartão-postal.
O que a estreia de 1979 muda na autora
Zélia tinha 63 anos. Assinou com o nome de solteira. Recebeu o Prêmio Paulista de Revelação Literária de 1979. Ao completar vinte anos da primeira edição, o livro já havia passado de duzentos mil exemplares no Brasil. A edição corrente da Companhia das Letras, em português, mantém o texto de 344 páginas e o recoloca no circuito de livraria ao lado do restante da obra memorialística.
Há um método visível. Os capítulos ganham títulos de episódio. A linha do tempo avança, mas o prazer está no detalhe: o conselho da babá, a paixão do pai pelos automóveis, a escola Santa Mônica no terreno que hoje se associa ao Parque Augusta, as viagens em grupo. A autora trata a memória como matéria trabalhável, não como confissão solene. Por isso o livro sobrevive a quem já conhece o desfecho da vida adulta: a tensão está na menina que ainda não sabe que será memorialista.
- Memórias de infância e adolescência em São Paulo, ligadas à imigração italiana.
- Retrato do anarquismo operário e da Colônia Cecília na história familiar.
- Capítulos curtos, tom oral e humor, sem ficha sociológica no lugar da cena.
- Base da minissérie da Globo de 1984, depois vendida a outros países.
- Porta de entrada da obra de Zélia Gattai, não da bibliografia de Jorge Amado.
Como ler sem transformar o livro em relíquia
Quem busca “a verdade” da Colônia Cecília vai encontrar testemunho afetivo, não monografia. Quem busca o Brasil da Primeira República vai encontrar cheiro de rua, não manual. A utilidade do volume está nesse meio-termo: ele dá nomes a ativistas anônimos, como observou a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, e ao mesmo tempo conserva a ingenuidade do olhar infantil. A edição em português da Companhia das Letras é a rota mais estável de leitura hoje; o item correspondente na Amazon cobre o mesmo texto, em capa comum, para quem prefere a livraria digital.
Se a pergunta seguinte for a vida com Jorge Amado, o livro não responde — e não precisa. A estreia existe para devolver a Zélia Gattai o chão de São Paulo, a mesa italiana e a política que ela herdou antes de qualquer gabinete literário. O restante da obra memorialística parte daí.



