A obscena senhora D não é um romance de enredo para se contar no corredor. É a novela em que Hilda Hilst, em 1982, encostou velhice, luto e Deus na mesma parede e deixou a linguagem escorrer. Hillé, a senhora D, tem sessenta anos quando o marido morre. Em vez de “seguir em frente”, ela se instala no vão da escada de casa e decide experimentar o isolamento até o osso. O que o leitor encontra daí para frente é fluxo de consciência, resto de dramaturgia e verso embutido na prosa — não um recuo lírico, um método.
Quem chega pelo título costuma esperar pornografia de vitrine. O livro decepciona essa espera e cobra outra conta. O obsceno, aqui, é a lucidez sem consolo: o corpo que envelhece, a fé que não fecha, a memória que não obedece. A Companhia das Letras, na reedição de 2020, descreve a obra como novela sobre o luto com doses de dramaturgia, filosofia e poesia. A fórmula é justa, desde que não sirva de álibi para ler depressa. São cerca de oitenta páginas que pedem ouvido, não resumo.
Para quem este livro existe
Serve a quem já conhece a poeta e quer ver o mesmo vocabulário em prosa. Serve a quem chegou por O caderno rosa de Lori Lamby e precisa de um contrapeso: esta novela é anterior à tetralogia dos anos 1990 e não foi escrita como “banana” ao mercado. Serve, ainda, a quem pesquisa luto na literatura brasileira sem querer o melodrama escolar. Não serve a quem busca trama policial, personagem “identificável” de autoficção leve ou erotismo de catálogo.
Hillé conversa com o morto, consigo mesma e com uma instância que ora é Deus, ora é o próprio idioma se recusando a consolar. A crítica especializada, de Anatol Rosenfeld a Eliane Robert Moraes — esta última no posfácio da edição atual —, insiste nesse ponto: o texto embaralha gêneros porque o assunto não cabe em um só. Luto não é capítulo. É temperatura.
Como o livro se encaixa na obra
Entre Tu não te moves de ti (1980) e Com os meus olhos de cão (1986), A obscena senhora D é o momento em que a prosa hilstiana fica mais nua e mais teatral. Massao Ohno publicou a primeira edição. Décadas depois, o título entrou em Da prosa e ganhou volume avulso na Companhia das Letras, com capa de Elisa von Randow. Em 1997, a Gallimard lançou a tradução francesa de Maryvonne Lapouge, a mesma tradutora de Grande Sertão: Veredas. O dado não é troféu: mostra que o texto atravessou o idioma sem perder a aspereza.
Há uma armadilha de leitura. Tratar a novela como “a obra erótica de Hilda” empurra para o canto o que ela tem de oração e de enfermidade da linguagem. O contrário também falha: santificar Hillé como mística pura apaga o humor cruel e o corpo. O meio-termo honesto é o mais difícil, e é o único que o livro pede.
Edição, leitura e compra
A edição brasileira em circulação é brochura da Companhia das Letras, lançada em 18 de março de 2020, ISBN 978-85-359-3329-1. Existe e-book. Não vale a pena caçar “a edição definitiva” como se houvesse segredo de clube: o texto é curto, a posfácio de Moraes situa o corte, e o restante é ler devagar. Quem quiser o conjunto da ficção pode ir depois a Da prosa; quem quiser só esta febre, o avulso basta.
Na prática, o livro funciona como porta de entrada para a prosa de Hilda sem o ruído midiático de Lori Lamby e sem a extensão de um volume reunido. É o título que mais devolve a pergunta da biografia — Deus, morte, corpo — em estado concentrado. Se a leitura emperrar, o emperro faz parte do contrato. Hillé também não sai do vão da escada no primeiro dia.




